Um por todos e todos por um: a sinergia das equipes de futebol da Red Bull
11 de setembro de 2020
Categoria: 4-3-3 e Futebol

Foto por Lluis Gene/Getty Images)

Entenda um pouco como as equipes da companhia austríaca se beneficiam desta rede

O grande sucesso das equipes da Red Bull dentro de campo com as conquistas do campeonato austríaco (pela 7ª vez seguida), Série B do Brasileirão, além de uma inédita disputa de semifinal da Champions League, reflete uma gestão diferenciada dos seus elencos, baseada na integração de informações, estilo de jogo e de atletas.

(Antes, se você não leu o texto anterior, sugiro passar por lá para entender um pouco sobre a estratégia de marketing que leva a Red Bull a investir em esportes, principalmente no futebol.)

Breve história das aquisições que levaram à conquistas imediatas

Tudo começou em 2005 quando a Red Bull comprou o então SV Austria Salzburg mudando nome, escudo e cores do clube para se ajustarem aos elementos visuais da empresa o que culminou na revolta dos torcedores locais, mas também na rápida conquista do Campeonato Austríaco um ano depois, na temporada 2006/07, fato que não ocorria havia uma década.

Em 2006 também foi o ano em que mais uma equipe foi adquirida, desta vez nos Estados Unidos: o New York Metrostars, passando pela mesma reformulação para ser renomeado como New York Red Bull e já em 2008 a equipe foi vice campeã da MLS.

Já no ano de 2009, foi a vez da equipe alemã SSV Markranstädt, que na época atuava na 5ª divisão de seu país ser incorporado aos times da empresa… ou quase isso. Isso porque a Federação Alemã de Futebol proíbe que clubes tenham acionistas majoritários na primeira e segunda divisão do país. Pela regra conhecida como “50+1”,investimentos públicos ou privados são permitidos deste que os membros de um clube tenham a maioria dos votos (50% dos votos + 1).

O Bayern de Munique, por exemplo, tem aproximadamente 293 mil sócios, enquanto Schalke 04 e Borussia Dortmund possuem algo em torno de 155 mil membros, de acordo com um estudo da KMPG Football Benchmark. A Red Bull então, definiu que no RB Leipzig apenas 19 membros teriam direito ao voto, sendo todos eles funcionários da empresa. Na prática, então, a empresa passou a controlar o clube.

Para mais um efeito de comparação, quem quiser ser associado do Bayern de Munique tem que pagar entre €30 e €60 anuais, enquanto o RB Leipzig cobra uma taxa inicial de associação de €100, além de outros €800 euros por ano para manutenção do direito, segundo Tifo Football. Com todos estes “desincentivos”, o clube possui apenas 750 membros, enquanto o Paderborn, penúltimo clube em número de associados, tem 5.300, um valor 706% maior.

Estratégia de ter poucos sócios à um alto custo e todos funcionários da Red Bull faz com que a empresa austríaca tenha controle do clube na prática (fonte: KPMG Football Benchmark)

Além disso, no processo de reformulação, o nome do clube não pôde conter “Red Bull”, também por determinação local, fato mais uma vez contornado pela empresa que registrou o clube de Leipzig como “RasenBallsport ”(algo traduzido como “esporte com bola de gramado”), gerando as siglas “RB”.

Sob a nova gestão o clube conseguiu a promoção para a Bundesliga na temporada 2015/16 e já na primeira temporada na elite, conquistou o vice-campeonato e, consequentemente uma vaga para a fase de grupos da Champions League.

Com o Bragantino o processo foi um pouco diferente, com o anúncio da parceria feito em março de 2019, mas com as mudanças visuais apenas acontecendo em janeiro de 2020. No final de 2019 o time conquistou a Série B do Brasileirão e neste ano disputará a primeira divisão do futebol nacional.

A Red Bull ainda tentou manter uma equipe na África, em Gana, mas equipe criada em 2008 foi extinta seis anos depois, 2014, após ser rebaixado para a 3ª divisão do país.

A integração das equipes (dentro do campo)

Por ter quatro equipes de primeiro escalão, além de outras três “equipes de suporte” (veja um modelo de organograma abaixo), a Red Bull segue o exemplo de várias empresas multinacionais e realoca seus funcionários de um lugar para o outro dentro de sua rede, inclusive entre suas equipes de F1 (os melhores pilotos da Scuderia AlphaTauri vão para a equipe principal, a Red Bull Racing). Pense nisso em uma perspectiva de um plano de carreira de um jogador brasileiro:

Primeiro ele se destaca em seu país (Bragantino). Depois se transfere para a Europa, mais precisamente para a Áustria (Salzburg), onde terá um ambiente de menos pressão do que grandes ligas europeias, mas ainda participando da Champions League ou Europa League. De lá, se tudo der certo, é contratado para atuar na Bundesliga (Leipzig) e disputar grandes campeonatos, onde desfrutará do auge de sua carreira. Por fim, quando estiver encerrando seu ciclo, poderá se transferir para a cosmopolita Nova York e jogar seus últimos anos como jogador profissional na MLS. Toda esta trajetória é oferecida e facilitada pela Red Bull com equipes com cada uma dessas características.

Um modelo teórico de organograma das equipes da Red Bull teria como “matriz” a equipe alemã , que atua nos níveis mais altos do futebol europeu e recebe grande fluxo de jogadores das outras “franquias” (Elaborado pelo autor)

Esse fluxo de jogadores que se transferem entre equipes do grupo é mais claro quando observamos os números. Da temporada 2014/15 até hoje, 25 jogadores seguiram de uma equipe Red Bull para outra equipe Red Bull, uma média de 4 por temporada (a mais recente ocorrida nesta janela de transferência envolvendo o atacante Hee-chan Hwang). Este número não contabiliza as transferências que envolvem equipes menores da propriedade da Red Bull, explicitadas na imagem acima. Se contabilizadas, este número estaria próximo de 100.

Nas últimas temporadas fica evidenciado que além de compra mais jogadores suas “franquias”, o RB Leipzig os compra por um valor médio maior, indicando maior qualidade dos atletas. (Fonte: transfermarkt / imagem elaborada pelo autor)

Dentre estas transferências, destacam-se nomes como Naby Keita (hoje no Liverpool), Dayot Upamecano e Marcel Sabizter, que se transferiram da equipe austríaca para o Leipzig, onde tiveram papel importante no sucesso recente da equipe. No caso deste último jogador, houve outro componente que tornou o negócio mais interessante.

Em 2014 quando atuava pelo Rapid Viena, o atacante Sabitzer foi comprado pelo RB Leipzig por €2 milhões, ativando sua multa rescisória para equipes estrangeiras e, imediatamente foi emprestado ao RB Salzburg até o ano seguinte. Na nova equipe foi muito importante na campanha dos títulos do campeonato e copa austríaca, em que participou diretamente de 48 gols (27 gols e 21 assistências). Atualmente é jogador titular do Leipzig e seu valor de mercado é estipulado em €45 milhões.

Se a negociação fosse diretamente entre as equipes austríacas (do Rapid para o Salzburg) a negociação provavelmente teria sido por valores maiores, ou até mesmo, nem ter acontecido.

A integração também acontece com os técnicos, ainda que em menor escala. Um exemplo é o estadunidense Jesse Marsch, hoje treinador do Red Bull Salzburg, mas que treinou o New York Red Bull e também foi auxiliar técnico no Leipzig.

Integração das equipes (fora do campo)

Além dos jogadores e treinadores, a Red Bull tem um sistema integrado de estrutura física, informações e de pessoas de outras áreas dos clubes.

Na cidade de Thalgau, a 18 km de Salzburg, o Athlete Performance Center oferece profissionais que trabalham com condicionamento, fisioterapia, desempenho mental, nutrição para atletas patrocinados, ou não, pela Red Bull, que também desfrutam de instalações para avaliações fisiológicas, análise de movimentos 3D, consultas de sono e avaliação de desempenho final, segundo a Forbes.

A empresa ainda tem também a Red Bull Academy focada em desenvolver jovens talentos, e integra instalações de hockey no gelo e futebol (vídeo abaixo).

Construída em 2014, o complexo possui uma área de 12 mil metros quadrados e oferece estruturas de primeira linha para jovens atletas. (fonte: EC Red Bull Salzburg)

Em entrevista à Máquina do Esporte (podcast “Os Maquinistas #013”), o Head of Football Operation do RB Bragantino, Thiago Scuro ainda afirmou que mais áreas estão interligadas dentro da estrutura de futebol.

“Existe uma pessoa na parte técnica que conversa com todos os diretores esportivos, na área comercial, na área jurídica(…) a gente tem trocas de ideias; de prática entre os diretores esportivos(…) a gente também tem oito profissionais que trabalham monitorando atletas na América do Sul, para atender o Red Bull Bragantino mas também para proporcionar informações para outros clubes do grupo”.

Toda esta ligação se torna, então, um fator preponderante para o sucesso esportivo dos clubes que usufruem não só de investimentos financeiros, mas também de uma gestão com princípios bem definidos que visam a perpetuidade de todas as instituições envolvidas nos processos.

Theodoro Montoto
Postado por Theodoro Montoto Paulistano de 21 anos, estudante de administração da FAAP-SP que acredita que se a arte imita a vida, viver o futebol seria um bom ponto de partida para começarmos a entender ambas as coisas. Escrevo sobre gestão e marketing esportivo no futebol