To dare is to do! E por isso o Tottenham muda seu comando
22 de novembro de 2019
Categoria: 4-3-3 e Futebol e Internacional

(Foto por Justin Setterfield/Getty Images)

Fim da linha para Mauricio Pochettino no Tottenham. Após cinco anos e meio, a parceria acabou. Notícia que pegou muita gente de surpresa, ainda mais por ser no fim de uma data-FIFA e a poucos dias de um clássico contra o West Ham fora de casa.

Chega ao fim uma das historias mais bonitas desta década. Onde Pochettino transformou o time que era visto com desdém pelos rivais londrinos em um time temido e que hoje atrai nomes como José Mourinho.

Passando por dificuldades com orçamentos apertados e precisando garimpar jogadores baratos e oportunidades de mercado, o argentino teve muitos louros em elevar seus jogadores em world class durante esses cinco anos e meio. O maior caso é Harry Kane, que perambulava pela Inglaterra em empréstimos e nunca firmava em lugar nenhum até passar por suas mãos. O crescimento do atual capitão da seleção inglesa é vertiginoso.

Ainda antes de oficializar o divórcio, o casamento havia chegado ao fim. Nem mesmo começar a atual temporada em seu novíssimo e lindo estádio trouxe ânimo pros jogadores. Jogando com muito menos intensidade que o normal, alguns (justos) questionamentos começaram a ser levantados. Havia Mauricio perdido o vestiário? A derrota na final da Champions League teria sido um baque maior que o esperado na moral dos jogadores? Mauricio já não conseguia tirar mais nada dos jogadores?

Talvez a resposta seja um pouco de tudo isso. É de conhecimento de todos que Daniel Levy – dono do time londrino – é uma pessoa difícil de negociar e não tem o costume de vender seus jogadores por valores abaixo do que ele acredita ser o ideal. Então, havia no vestiário alguns jogadores descontentes com sua estadia no Tottenham e sonhando em vestir outras camisas.

A derrota em Madrid na final da Champions foi um golpe duríssimo na moral de todos na parte branca do norte de Londres. Nunca antes estiveram tão perto de figurar na história da maior competição de clubes do mundo. Seu fracasso foi o fim da linha pra muitos jogadores, que acharam melhor buscar novos ares. Suas transferências, porém, não foram concretizada. E Mauricio não conseguia motivá-los mais. Segundo o site The Athletic, havia reclamação de alguns nomes do elenco que estavam cansados da rotina pesada de treinamento e das poucas folgas, também da alimentação rígida e de Mauricio que tinha comportamentos inflexíveis com todos.

Pochettino não conseguiu motivar o elenco para a nova temporada (Foto por ANDREJ ISAKOVIC / AFP) (Photo by ANDREJ ISAKOVIC/AFP via Getty Images)

Sofrendo com a falta de investimento em contratações, onde seu projeto era investir em infraestrutura primeiramente, o Tottenham nesse tempo construiu seu novo centro de treinamento, que é cotado como um dos melhores da Europa, e passou pelo drama de ficar sem estádio até que a reforma do charmoso White Heart Lane se completasse, virando o moderníssimo Tottenham Stadium.

Pochettino sobrevivia à temporadas marcadas por muitas lesões e ainda sim tornou o Tottenham como frequentador corriqueiro da Champions League – ficando a um ponto do título da Premier League. Com um time que jogava sempre sufocando seu adversário e compensando a diferença de qualidade em alguns jogos com mais entrega e inteligência, o argentino sempre tinha uma carta na manga com suas variações táticas.

Mais do que a frequência na Champions League, Mauricio ajudou a recuperar e criar um certo respeito pelo Tottenham, transformando o St. Totterings Day em algo que a torcida Gunner sente saudade em comemorar frequentemente.

Mas o passado não entra em campo e cada vez menos serve de escudo. O 14° lugar na Premier League e os fracassos nas copas – a eliminação pro Colchester e a sapatada sofrida pelo Bayern de Munique em casa pela Champions – pesaram demais contra Pochettino. Vendo seu time perder fôlego no segundo tempo em vários jogos e jogando de maneira mais conservadora, onde o próprio treinador argentino dizia que estava faltando agressividade, o Tottenham assistia a reação de seus adversários sem fazer muita coisa pra impedir.

Apesar de grande parte da torcida pedir mais paciência com Mauricio e creditar os problemas por uma saturação do elenco, Daniel Levy não tem o tempo – dinheiro – necessário pra passar por uma temporada parecida com a do Real Madrid no ano passado.

Precisando ousar para fazer acontecer, ele escolheu a opção mais pragmática disponível no mercado: José Moruinho – nome que, após virar comentarista da Sky Sports inglesa, se insinuava algumas vezes aos times que tinham seus treinadores balançando na Inglaterra.

Mas isso é uma característica do português: seu jogo mental e sua habilidade em criar situações usando a imprensa como interlocutora.

Agora ambos se encontram em uma situação de dependência mutua. Mourinho precisava de outra oportunidade em um clube grande – hoje é possível colocar o Tottenham como membro desse pelotão – onde ele teria um elenco competitivo com bons valores individuais e com jogadores que podem entregar muitos gols. E o Tottenham precisa de alguém que saiba o caminho das pedras e tenha o costume de vencer por todo lugar que passa.

Seu trabalho mais urgente será em resolver os problemas defensivos, hoje mais causados por problemas pessoais de seus defensores do que táticos.

Ainda estigmatizado por seu fim de trabalho horrível no Manchester United, Mourinho promete chegar após fazer uma autocrítica sobre seus problemas em um time bagunçado e que ainda não conseguiu se renovar esportivamente. Situação diferente dos Spurs, que estão apenas a um empurrãozinho de chegar lá.

Sua chegada fará até mesmo os jogadores que estão com a cabeça fora do time repensarem suas escolhas, afinal não é todo lugar que você tem um treinador como o special one.

Postado por Caíque Andrade 23 anos, dividido entre a ciência exata da química e o esporte mais imprevisível do mundo.