Tiago Nunes é mais um técnico que contraria o apelo por continuidade. Mas como julgar?
6 de novembro de 2019
Categoria: Futebol e Nacional

Sem vínculo com o Athletico, Tiago Nunes deve ser anunciado pelo Corinthians em breve (Foto por Alexandre Schneider/Getty Images)

Campeão da Copa Sul-Americana em 2018 e da Copa do Brasil na atual temporada, Tiago Nunes já tem seu nome eternizado na história do Athletico Paranaense. Nesta terça-feira, porém, sua trajetória vitoriosa chegou ao fim em Curitiba. O destino será o Corinthians, que demitiu Fábio Carille no domingo, após goleada sofrida contra o Flamengo e a incrível série de oito jogos sem vencer.

A decisão de um dos nomes mais badalados do mercado de treinadores mexeu com os fãs do futebol. De um lado, os questionamentos por vê-lo indo contra seu discurso de continuidade e embarcando em um projeto incerto. De outro, os que apoiam a decisão pela projeção que terá na capital paulista e pelo aumento expressivo de salário.

Dentro dessa difícil questão, há uma série de pontos a se levantar. Vamos falar um pouco de cada um deles.

E o projeto?

O primeiro e mais importante deles é a suposta hipocrisia do agora quase comandante do Corinthians. Assim como  maioria dos treinadores do duro cenário brasileiro, afinal, Tiago Nunes sempre prezou pela continuidade em seus discursos. No final de setembro, por exemplo, ele ressaltou renovação encaminhada com o Athletico, destacando justamente a confiança e o tempo de trabalho acima da média do normal no país.

No futebol é difícil você ter continuidade e eu espero ter, a não ser que aconteça algo no meio do caminho, mas está tudo muito encaminhado“, afirmou, durante entrevista ao Bola da Vez, da ESPN Brasil. Em abril, ele foi ainda mais enfático sobre o tema: “A gente fala tanto em continuidade, que quer ter tempo para trabalhar. Muitas vezes repetimos que precisamos desse tempo. E quando você tem esse tempo, você não pode abrir mão dele. Eu já tive oportunidades em outras equipes menores de receber propostas maiores, sai e me dei mal, porque coloquei a grana em primeiro lugar” – vídeo abaixo.

Lendo essas frases, qualquer um tem a certeza que ele foi contra seus princípios e seu discurso durante toda a carreira. Mas a pergunta é: como não ir?

A carreira de técnico é dura. Não há qualquer garantia de estabilidade, nem mesmo a idolatria. Com os bons resultados conquistados por Nunes, uma eliminação na fase de grupos da Libertadores seria aceitável ano que vem? E um começo como o de Diniz no Brasileirão?

Tiago não é o primeiro e nem será o último comandante a abrir mão de um bom projeto para agarrar a incerta “chance da sua vida”. O risco de ver o trabalho desandar e rapidamente perder valor de mercado e até o emprego é enorme.

Para o comportamento dos técnicos mudar, então, é preciso que os próprios clubes reformulem suas ideias de futebol. No nosso cenário atual, ir para o Corinthians pode parecer uma aposta arriscada, mas ficar no Athletico também não deixa de ser. Ninguém está seguro, mesmo no mais promissor dos cenários. Quem vai bem, aumenta o nível de cobrança. Quantas vezes um time surpreende, figura as primeiras colocações e quando volta para o esperado meio da tabela demite o treinador?

Sem estabilidade, mais e mais Tiagos Nunes e Rogérios Cenis vão se agarrar a um desafio tentador. Fábio Carille, por exemplo, deixou o Corinthians com status de ídolo para ganhar milhões na Arábia. Se tivesse negado, provavelmente fosse demitido pouco depois pelo clube paulista, perdendo a chance de mudar sua realidade financeira. É difícil julgar.

Por fim, ainda é possível dizer que Tiago teve sim continuidade. Em trabalho duradouro, fechou o ciclo com dois títulos e pretendia deixar Curitiba ao fim do seu contrato, em processo natural. Teve a saída antecipada pela direção do Athletico, no entanto.

Como julgar a escolha de Tiago? (Foto por Bruna Prado/Getty Images)

Mudança necessária

Dentro desse mercado duro onde até mesmo em um projeto sólido há grandes riscos, os técnicos precisam aprender a deixar isso mais claro para torcida. Por mais que as trocas sejam justificáveis, como tentamos expor acima, é difícil entender isso na hora do adeus, afinal, há muito sentimento envolvido.

Cabe aos comandantes, então, poupar o torcedor de falsas promessas, que minam sua imagem e geram antipatia daqueles que um dia gritaram seu nome. Tiago Nunes, por exemplo, vinha falando em permanência encaminhada com frequência, ressaltando “não se ver fora do Athletico”. Tudo isso cai muito mal quando uma decisão como a desta semana é tomada. Dá para evitar.

Outro envolvido na história, Fábio Carille seguiu o mesmo caminho. Em meio aos boatos de ir para a Arábia Saudita, disse que nem um “caminhão de dinheiro” o tiraria do Corinthians. A afirmação durou até ver o caminhão e embarcar para a Ásia. Passar a realidade para o torcedor é sempre mais saudável.

Ainda que as reações da torcida se justifiquem por tudo isso, faltou ao Athletico Paranaense maior tom de gratidão na nota publicada para noticiar a saída do técnico. Sim, ele deve muita coisa ao clube, mas o contrário também se aplica. Um “obrigado” não faria mal para nenhuma das partes. Aqui, deixo claro que também entendo a forma de comunicação “autoritária” adotada pela equipe rubro-negra nos últimos anos. É uma maneira de mostrar ambição para os torcedores. Dessa vez, no entanto, cabia uma atenuada, afinal, é um dos grandes ídolos da história do time.

Sentimento também pesou?

No dia a dia de debates sem muita importância das rodas de amigos, a questão dinheiro x sentimento vez ou outra ganha atenção. Na cabeça do apaixonado por futebol, é difícil imaginar-se deixando o clube do coração de lado por uns trocados a mais. O contrário também acontece.

Embora gaúcho, Tiago Nunes já deu demonstrações de ter ligação sentimental com o Corinthians. No dia 24 de setembro desse ano, em entrevista à Rádio Transamérica, o então treinador do Athletico lembrou da infância nas mesas de futebol de botão.

Ronaldo (Giovanelli) sou fanzaço, era meu goleiro no time de futebol de botão. Tinha meu time do Corinthians e não perdia de ninguém na rua. Aquele time campeão paulista pelo Corinthians com Henrique, Célio Silva, Elivélton, Zé Elias… Zé Elias era meu capitão mas não passava do meio no meu futebol de botão. São times que ganharam e marcaram. Sou apaixonado por futebol”, afirmou.

O Corinthians parecia um desejo de Tiago desde a infância (Foto por Lucas Uebel/Getty Images)

Apesar de negar a torcida pelo clube paulista, uma outra entrevista expôs um pouco da sua vontade de comandar o Timão. Cinco dias depois da declaração, no dia 29, Tiago participou do Bola da Vez, da ESPN, e falou de como as propostas mexiam com sua cabeça.

“Toda proposta é tentadora, porque mexe com o nosso imaginário. Todas são realmente tentadoras, porque você fica se imaginando naquele clube, no clube que você jogava futebol de botão na infância e tudo mais“, afirmou, dessa vez sem citar o Corinthians.

Como condenar um amante do esporte que coloca o peso da sua paixão na balança? Quem não toparia aliar maior projeção no mercado, salário mais alto e o peso de “revolucionar” uma filosofia vencedora com um amor de infância? Todos querem realizar sonhos.

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No fim, os treinadores que “abandonam um barco em bom rumo” tem inúmeros motivos para fazer isso. A cobrança por continuidade é justa, mesmo nesse cenário. É justamente a insegurança, afinal, que os faz optar pelo “duvidoso”. Se os torcedores querem o fim desse costume, precisam torcer para seus clubes mudarem a mentalidade e darem alguma certeza para quem está na beira do gramado.

Aqui, ainda quero destacar que entendo os que ignoram todos os contrapontos citados e acham que é uma simples hipocrisia por parte dos treinadores. Em 2015, neste mesmo Blog, me posicionei dessa forma para criticar escolhas de Doriva, Eduardo Baptista e Argel Fucks, que abandonaram trabalhos onde tinham certo respaldo para irem para um clube maior em cenário completamente distinto. Mudei e, por isso, levanto fatores que agora levo em conta – se quiser ler o texto antigo, só clicar!

Postado por Andrew Sousa Formando em Jornalismo justamente pela paixão pelo esporte, sente enorme prazer em poder escrever sobre o que ama. Apaixonado por um bom domínio e alguns jogadores ruins, vive o futebol desde o primeiro dos seus vinte anos.