Throwback Thursday#03 – O batalhão otomano ataca
22 de março de 2018

Rüstü, Alpay, Davala, Akyel, Bülent e Sükür; Bastürk, Ünsal, Tugay, Penbe e Hasan Sas. Fazendo história.

Hoje é quinta, dia de #tbt. A história escolhida foi aquela que, sem sombra de dúvidas, é o maior feito da história do futebol da Turquia – o terceiro lugar na Copa de 2002.

O primeiro feito real do futebol turco foi conseguir se classificar para a Copa de 1950, após terem aplicado uma goleada de 7 a 0 na Síria – e depois, tristemente, não poderem ir ao mundial do Brasil por problemas financeiros. Quatro anos mais tarde, a Turquia caiu no grupo de Hungria e Alemanha. O ponto alto foi outra goleada por 7 a 0, desta vez na Coreia do Sul, mas um 7 a 2 num playoff contra os alemães – cortesia do regulamento bizarro daquele Mundial – pôs fim à aventura turca no mundo das Copas.

Os quase quarenta anos seguintes viram uma série de fracassos para competições de seleção, até o final da década de 80, quando os filhos da diáspora para a Alemanha na década de 60 já compunham a primeira geração de turcos-alemães nos campos de futebol. Hoje jogadores como Özil, Can, Toprak e Sahin não são novidade, mas em 1990, a diferença entre um jogador profissional nascido na Turquia e de um nascido na Alemanha era imensa. A qualidade da nutrição e dos profissionais a que tinham acesso muito antes de serem profissionais fazia a diferença, e no choque cultural, ficou claro que os turcos só tinham a ganhar se importassem o know-how do futebol de primeiro mundo.

Isso ficou claro a chegada de Sepp Piontek em 1990. O técnico alemão havia comandado a Dinamarca e consolidado a Dinamáquina, e a Turquia estava ansiosa em repetir o feito. Aproveitando a melhora da economia turca nos anos 90, trouxeram também Scott Piri, preparador físico americano que jogou nos primórdios da MLS. Os jogadores, acostumados à vida de sultão, se queixavam dos treinamentos puxados de Piri, mas recuaram após os resultados começarem a aparecer.

O primeiro deles, a classificação para a Eurocopa de 1996. Jogando numa formação similar à da Alemanha de 1990, um 5-3-2 ancorado no rochoso defensor nascido na Alemanha, Temizkanoglu. Já estavam no time o histórico goleiro Rüstü Reçber, recordista de jogos pela seleção turca, bem como o possante zagueiro Özalan Alpay e seu companheiro, o incansável Bülent Korkmaz, patrimônio tombado do Galatasaray. Também os versáteis laterais esquerdos Ergün Penbe e Ercan Abdullah, os volantes Tugay Kerimoglu, Korkut Tayfun, Muzzy Izzet (“inglês”) e Tayfur Havutçu (“alemão”), o habilidoso ponta Arif Erdem e o centroavante Hakan Sükür, goleador máximo da seleção até hoje. Na época, porém, o destaque ofensivo era o habilidoso e mercurial meia Sergen Yalçin, talvez o mais talentoso jogador ofensivo do futebol turco.

Seleção turca na Euro 96. Destaque para Sükür (9), Alpay (3), Rüstü (22), em pé, e Tugay (5) e Yalçin (16), agachados.

O time, treinado por Fatih Terim, surpreendeu e se classificou eliminando ninguém menos que a terceira colocada da Copa de 1994, a Suécia. No torneio, não pôde fazer frente a Portugal e a outra seleção emergente, a Croácia. Ficaram em último, com três derrotas em três jogos. Seguiu-se a isso a eliminação no grupo 7 para a Copa do Mundo de 1998, atrás de Holanda e Bélgica – a diferença foi o confronto direto com os belgas, que venceram tanto em Istanbul (com um hat-trick de Luis Oliveira) e em Bruxelas, em jogo marcado pela expulsão tola de Yalçin (que o rendeu 13 meses de geladeira da seleção). No entanto, o encerramento do ciclo de algumas pessoas foi benéfico para o futebol turco. Já longe do auge, o goleiro brasileiro Taffarel se juntou à lenda romena Gheorghe Hagi e a seu escudeiro, o defensor Popescu, numa aventura pelo Galatasaray que entraria para a história.

Com estes jogadores, mais o zagueiro Capone e o atacante Márcio Mixirica – recrutados do Juventude campeão da Copa do Brasil de 1999 – o Gala sagrou-se o único time turco a vencer uma competição continental – a Copa da UEFA (atual Europa League) em 2000. Esse time tinha nada menos do que 12 (!!) dos 23 convocados para a Copa de 2002: os já citados Korkmaz, Erdem, Penbe, Tugay e Sükür (em fase esplêndida), mais o zagueiro Emre Asik, Fatih Akyel e Hakan Ünsal, que atuavam como zagueiros ou laterais, o temperamental meia Emre Belözoglu, o ala direito Ümit Davala e o endiabrado atacante Hasan Sas. Além de despachar o Arsenal de Wenger nos pênaltis, esse Galatasaray ainda foi uma dor de cabeça para muitos times grandes na Champions League, como quando eliminou o Milan na fase de grupos em duas edições seguidas. O técnico era o mesmo Fatih Terim, que acabaria recrutado para o gigante italiano, onde não teria vida longa.

Tristeza do Arsenal, alegria do Gala – a Copa Uefa vai a Istanbul!

Desfalcados do pitbull Bülent (jogou até o fim a final da Copa UEFA com o ombro deslocado), os turcos se classificaram para a Eurocopa seguinte num grupo simples. No torneio, não foram páreo para os italianos, mas empataram com os suecos e chegaram ao confronto final contra os belgas, donos da casa, com alguma chance – embora os adversários jogassem pelo empate. Mas não deveriam. Sükür não tomou conhecimento de uma Bélgica envelhecida e marcou duas vezes para classificar o time para as oitavas, onde enfrentariam a forte seleção portuguesa, que tinha Figo e Rui Costa rampantes. A missão, que já era difícil, foi bastante prejudicada pela expulsão supeita de Alpay, no primeiro tempo, num entrevero com Fernando Couto que dificilmente justificaria o cartão vermelho. Os valentes turcos acabariam capitulando para dois gols de Nuno Gomes, com direito a um pênalti desperdiçado por Erdem.

Credenciados pela boa fase da geração de ouro do Galatasaray, os turcos contaram também com a sorte ao pegar mais uma vez um grupo fácil nas eliminatórias para 2002, com Suécia, Eslováquia, Macedônia, Moldávia e Azerbaijão. Perdendo o grupo para os escandinavos, a Turquia foi para a repescagem contra a Áustria. Um solitário gol de Buruk em Viena obrigou os austríacos a irem para o ataque em Istanbul. Má ideia. Os turcos passearam por 5 a 0, com direito a dois de Erdem e um do jovem meia Yildiray Bastürk, outro turco-alemão que chegava para ocupar o espaço do decadente Yalçin, que perderia a briga contra técnicos e lesões.

A Turquia chegou na Copa mostrando claramente a que veio. Na estreia contra ninguém menos que o Brasil, a encardida seleção de Senol Gunes frustrou o ataque brasileiro e ainda abriu o placar após o sempre correndo Sas receber de Basturk nas costas de Lúcio. Os turcos só seriam, de fato, vencidos, às custas de um pênalti marcado em falta fora da área pelo juiz Kim Young-Joo. A indignação, justa e generalizada, culminou em Ünsal expulso por chutar a bola em Rivaldo (mais o teatro deprimente do brasileiro). A um empate com a Costa Rica seguiu-se a um compreensivo 3×0 contra os chineses, saco de pancada do grupo (3 derrotas, 9 gols sofridos, nenhum feito), enquanto a Costa Rica era barbarizada pelo Brasil, 5 a 2 com direito a bicicleta de Edmílson. Graças ao maior saldo (fizeram mais na China e tomaram menos do Brasil), os turcos progrediram.

O pior cego é aquele que decide apitar jogo do seu time, né Alpay?

Nas oitavas, o adversário era o anfitrião Japão. Davala, que passou a carreira ostentando cabelos longos, tosou-os em um emblemático moicano, que ficou famoso na celebração de seu gol após um escanteio – suficiente para decidir o jogo. Nas quartas, os turcos engoliram a surpresa da Copa, o Senegal, criando um sem número de oportunidades desperdiçadas por um Sükür, em sua pior atuação numa Copa. Seu reserva, Ilhan Mansiz, não teve a mesma gentileza com os africanos. Na prorrogação, aproveitou cruzamento de Davala para chapar para o gol. De ouro. A evidência cabal que a diáspora foi crucial para o crescimento do futebol turco – ambos, assistente e artilheiro, nasceram na Alemanha.

O sonho dos azarões acabou nas semi-finais, onde tiveram a chance da revanche contra o Brasil. Mansiz chegou a dar uma lambreta em Roberto Carlos, mas a vingança dos injustiçados turcos parou por aí. Ronaldo, de biquinho, pôs o Brasil em vantagem que exército nenhum conseguiu reverter – e não foi por falta de tentativa, como Tugay, Izzet, Bülent e Alpay descobriram ao caçar Denílson. O conto de fadas turco ainda acabaria com uma vitória sobre os outros anfitriões, os coreanos, que desfalcados de Byron Moreno e Gamal Ghandour, não conseguiram impedir a Turquia de fazer 3 a 2 – com Sükür fazendo seu único gol na Copa a meros 11 segundos do apito inicial, um recorde que permanece até hoje.

well, f**k

A geração, de modo geral, não se deu bem fora dos gramados turcos. Erdem, Korkut, Abdullah e Havutçu, já veteranos, se aposentaram da seleção. Alpay foi bem no Aston Villa até ser demitido por brigar com Beckham num jogo entre as duas seleções; Belözoglu e Sükür foram para a Internazionale e não vingaram, junto com Buruk, que pouco atuou depois de 2002 devido a intermináveis lesões. Davala teve destino parecido: saiu para a Itália, pouco jogou e se aposentou aos 32 anos – pelo menos fez parte do elenco do Bremen campeão da Bundesliga. Akyel saiu e voltou do futebol local por anos, sem muito brilho, e Ünsal fez oito jogos pelo Blackburn antes de voltar correndo para o Galatasaray.

Rüstü foi contratado com pompa pelo Barcelona, mas perdeu quietamente a posição para o jovem Valdés. Mansiz se aposentou também com 32 anos e optou por virar patinador artístico. Bülent, Sas e Penbe ficaram na Turquia, de forma que os únicos jogadores da geração com sucesso em outras ligas foram Bastürk, que fez toda a carreira na Bundesliga, Tugay, que ficou até 2008 no Blackburn (na época que os Rovers jogavam a primeira divisão) e o jovem Nihat Kahveçi, que pouco entrou em campo na Copa, mas foi o principal jogador na Euro 2008, bem como parte de uma dupla matadora com Kovacevic, no vice-campeonato surpreendente da Real Sociedad em 2002-03 (com direito a baile no campeão Real Madrid no Anoeta).

Logo, o apogeu não tardaria a virar queda. Após uma pequena vingança contra o Brasil (eliminaram os reservas da Seleção da Copa das Confederações de 2003), os turcos foram pateticamente eliminados da Euro 2004 ainda na repescagem, pela Letônia. Destino semelhante teriam para 2006, quando coroaram a derrota por gols fora no play-off contra a Suíça com uma batalha campal, que rendeu aos turcos portões fechados em todas as partidas na qualificação para a Euro 2008, na qual foram longe – Semih Senturk marcou nos acréscimos da prorrogação para levar aos pênaltis uma classificação épica nas quartas-de-final contra a Croácia, que por sua vez foi seguida de uma eliminação categórica para a Alemanha.

Desde então, nunca mais voltaram a um Mundial, conseguindo aparecer novamente em um torneio apenas na Euro-2016, eliminando a Holanda. Uma geração renovada, com apenas Arda Turan, Mehmet Topal e Hakan Balta como remanescentes de 2008. Não foram páreo, porém, para a Espanha e para a revanche dos croatas, tendo que se contentar com apenas três pontos contra os tchecos. É uma pena. Para um povo tão fanático por futebol, com uma população grande e times tradicionais, a Turquia não tem conseguido produzir grandes jogadores nem boas gerações. Que isso possa mudar. Em breve.

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Postado por Victor Martins Santista, farmacêutico, trintão. Gosta de futebol bem jogado e de debates filosóficos. Tem aversão a clichês e boçalidade.