Rentável e criticado, como funciona o sistema de empréstimos do Chelsea?
17 de março de 2021
Categoria: 4-3-3 e Futebol e Internacional
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Chelsea é um dos clubes que mais emprestou jogadores na última década: 57 apenas para as cinco principais ligas europeias (fonte: Talk Chelsea)

 

Um dos clubes que mais emprestou jogadores na última década, o Chelsea usa as negociações como fonte “alternativa” de receita

Na última década os clubes das cinco principais ligas europeias emprestaram cada vez mais jogadores entre si: de 2,30 atletas por clube, em média, na temporada 2009/10 para 3,12 em 2018/19; aumento de 35%, de acordo com o CIES Football Observatory.

Grande parte do número foi inflacionado por grandes equipes como Juventus e Manchester City, mas ainda assim nenhuma delas emprestou mais do que o Chelsea Football Club. O clube inglês foi responsável por ceder 57 jogadores apenas para equipes do primeiro escalão da Alemanha, Espanha, França, Inglaterra e Itália nos últimos dez anos, o segundo que mais realizou negociações deste tipo no período, atrás apenas da Udinese (62). Este número seria ainda maior se considerássemos equipes de divisões inferiores e de outros países, mas mesmo assim, é de se surpreender que as principais ligas europeias tenham em média, toda a temporada quase seis jogadores cedidos pelo Chelsea.

A prática porém, é alvo de críticas de vários envolvidos com o futebol, que acusam o clube inglês de tentar apenas lucrar com as operações, emprestando os jogadores para que posteriormente sejam vendidos, sem nem perspectivas de atuar pelos Blues, relegando o ganho esportivo a um segundo plano. Por outro lado, poucos podem questionar que a estratégia é rentável, principalmente quando conhecemos mais afundo o porquê desta atuação e o tamanho da estrutura montada pelo Chelsea para gerir seus “ativos” emprestados mundo afora.

Contexto

A opção de fazer dos empréstimos uma fonte relevante e recorrente de receita faz sentido quando analisamos a fonte de receitas do Chelsea. Como a maioria do clubes, sua principal renda vem dos direitos de transmissão, que representaram 39% do arrecadado na temporada 2018/19 (a última temporada completada antes da pandemia de COVID-19), seguido da receita comercial*. Naquela temporada a venda de jogadores gerou mais € 83 milhões (gráfico abaixo), abaixo da média de € 120 milhões nas últimas cinco temporadas. Logo, esta conta representaria em anos recentes, entre 14% e 21% dos recebidos pelo Chelsea.

*envolve patrocínio e merchandising

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Números em milhões de euros (Fonte: Statista e transfermarkt, imagem elaborada pelo autor)

A receita de “matchday” (ingressos) porém, é historicamente baixa comparada a de seus rivais (gráfico abaixo). Isto porque enquanto o estádio Stamford Bridge tem capacidade para 42 mil torcedores, os londrinos Emirates Stadium (Arsenal) e Tottenham Hotspur Stadium comportam mais de 60 mil pessoas.

Com 30% menos torcedores em cada partida que Arsenal e Tottenham, os Blues então, aumentam o preço dos ingressos, se posicionando entre o top3 clubes de ingressos mais caros da Premier League: média de 87 libras esterlinas/jogo (R$ 646,00).

Outra desvantagem do seu estádio é a comercialização de camarotes e áreas exclusivas, que são menores e menos modernas que os de seus concorrentes nacionais. Para efeito de comparação o Stamford Bridge foi construído em 1877, enquanto Emirates e Tottenham Stadium foram inaugurados em 2006 e 2019, respectivamente, projetados para fazer desta fonte de receita, algo significativo.

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Receitas de “matchday” dos três principais clubes londrinos entre 2016 e 2019 em milhões de euros (Fonte: Deloitte Money Football League 2020/ imagem elaborada pelo autor)

Para compensar esta defasagem então, o Chelsea optou por fazer do seu sistema de empréstimos uma fonte de renda alternativa. Baseada em uma grande rede de observação de jovens jogadores ao redor do mundo, ter uma legião de emprestados ainda serve como uma “proteção contábil” contra sanções de fair play financeiro da FIFA pois representam ativos que podem ser rapidamente vendidos (liquidez) em caso de necessidade fiscal.

Assim, vender (e emprestar) jogadores se tornou parte importante do modelo de negócios do clube, que utiliza dos empréstimos para aumentar seus retornos financeiros. Na última década por exemplo, o Chelsea gerou £ 450 milhões apenas em venda de atletas.

Rentabilidade

Justamente por contratar um elevado número de jogadores, é muito difícil que todos eles acabem vingando e dando frutos esportivos e econômicos. Porém, os valores envolvidos na venda de poucos atletas que de fato dão certo, compensam várias outras transferências equivocadas; em outras palavras, o Chelsea precisa de poucos acertos para gerar receitas relevantes.

Para cada leva Lucas Piazon’s (caso explicado mais adiante) que não deram o retorno esportivo e financeiro, os Blues concretizaram grandes vendas de jogadores que já estiveram emprestados em algum momento. Contratados ainda desconhecidos, apenas Lukaku, Courtouis e Kevin De Bruyne, por exemplo, renderam mais de 60 milhões de euros em lucro nas vendas para Everton, Real Madrid e Wolfsburg, respectivamente.

Mesmo jogadores pouco midiáticos que não foram aproveitados e foram emprestados sucessivas vezes como Tomas Kalas, Kenneth Omeruo e Christian Atsu, quando negociados, resultaram em lucro. Kalas, por exemplo, foi contratado na temporada 2010/11 por € 100 mil e, após ser emprestado para cinco equipes, foi vendido por € 9 milhões ao Bristol City. Omeruo e Atsu juntos, também representaram um ágio de € 9,5 milhões**.

** contabilizando apenas os valores de transferências, desconsiderando pagamento por eventuais empréstimos (Ex: O Leganés da Espanha pagou ao Chelsea € 800 mil para ter Omeruo emprestado para a temporada 2018/19).

Os emprestados envolvem ainda os próprios jogadores das categorias de base, que já a algum tempo obtêm bons resultados, ganhando cinco vezes consecutivas a FA Youth Cup (competição sub-18) desde a temporada 2013/14. Tammy Abraham, Loftus-Cheek e mais recentemente, Tomori, para citar alguns, são jogadores formados no clube e que em algum momento foram cedidos à outras equipes, em sua maioria, inglesas de divisões inferiores.

Porém quem mais agradece a grande quantidade de emprestados, é o Vitesse, da Holanda. Desfrutando de uma relação de amizade entre os donos Roman Abramovich e Alexander Chigirinsky, na última década 27 jogadores saíram do Chelsea para jogar no clube holandês, dos quais apenas um não foi emprestado.

Economicamente, nem apenas as vendas são úteis ao clube, mas também os valores pagos nos próprios empréstimos, além do economizado com salários dos atletas. Nas últimas cinco temporadas para exemplificar, apenas com estes valores, o Chelsea arrecadou quase 70 milhões de euros (gráfico abaixo), representando 11,6% do arrecadado com vendas de atletas no período. Excepcionalmente elevados, apenas os empréstimos de Álvaro Morata e Zouma, ambos sem espaço na equipe na temporada 2018/19, renderam € 26 milhões.

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Vendas x empréstimos do Chelsea, em milhões de euros (Fonte: transfermarkt)

Departamento de empréstimo

O Chelsea empresta tantos jogadores que no início dos anos 2010 criou um departamento apenas para gerenciar o desenvolvimento esportivo e pessoal destes atletas. A área é composta apenas por ex-jogadores dos Blues: o ex-goleiro Carlo Cudicini (responsável pelo departamento), o ex-volante Claude Makelele, o ex-atacante Tore Andre Flo, e o ex-lateral Paulo Ferreira.

Este último detalhou um pouco mais sobre seu trabalho, em entrevista ao portal Tribuna Expresso, e mais recentemente aos canais ESPN:

“ Vamos ao clube (em que o jogador está emprestado) e fazemos esse acompanhamento mais de perto, para, se não jogarem, perceber o porquê e tentar fazer com que o atleta tenha minutos e jogue o máximo possível, para que possamos trazer alguns de volta ao clube (Chelsea). É esse o objetivo”

“Nós fazemos este acompanhamento humano ao jogador. Procuramos criar uma boa relação com o jogador, porque às vezes a performance não é a melhor e o atleta pode ter algum problema fora do campo que nós não sabemos, e às vezes também temos que ter este cuidado (…) Procuramos dar este acompanhamento também para que eles não se sintam ‘largados’ pensando que o clube não se preocupa com eles”.

Além da estrutura interna, o Chelsea ainda realizou uma série de vídeos no seu canal no Youtube sobre alguns de seus jogadores emprestados, mostrando um pouco de suas trajetórias, aspectos pessoais e esportivos. Em alguns dos vídeos há ainda depoimentos de alguns membros do departamento como Tore Andre Flo e o próprio Paulo Ferreira.

“A vida emprestado” é o título da série do Chelsea no Youtube (Chelsea FC/ Youtube)

Críticas

Definido como “cordeiros de engorda para o abate” pelo na época, treinador do Bristol City e hoje diretor de futebol do Crawley Town, Steve Coppell, o robusto sistema de empréstimos sofre críticas constantes, principalmente daqueles que acreditam que o lado humano dos jogadores é particularmente afetado.

As constantes mudanças de clube, que muitas vezes implicam também em mudanças de país, forçam o atleta e sua família a se adaptarem a outras culturas, clima e língua, além do desempenho esportivo também ser afetado, ao dar pouco tempo hábil para adaptação aos novos companheiros e aos estilos de jogo dos novos clubes.

Um dos símbolos dos constantes empréstimos e poucas oportunidades na equipe londrina é Lucas Piazón, contratado em 2012 e emprestado sete vezes para seis países diferentes. O brasileiro passou pelo Málaga (ESP), Vitesse (HOL), Eintracht Frankfurt (ALE), Reading (ING), Fulham (ING), Chievo Verona (ITA) e Rio Ave (POR) até ser contratado em definitivo, de graça, pelo Braga no mês passado.

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Lucas Piazon foi contratado em definitivo pelo Braga após sucessivos empréstimos (Fonte: Braga TV)

Piazon se mostrou insatisfeito com sua situação em diversas entrevistas, tanto em termos pessoais, como em termos esportivos:

“Já estou no Chelsea desde 2011, rodei quase toda a Europa por empréstimo. Estou cansado de jogar aqui e ali, preciso de um lugar onde possa me sentir em casa. Quero saber que em julho vou para o mesmo lugar, para a mesma casa. Mudar toda hora é muito complicado”, disse em 2019.

No ano passado, quando ainda emprestado ao Rio Ave, explicitou também sua dificuldade em desempenhar um bom futebol enquanto mudava constantemente de clube, em entrevista ao portal português Mais Futebol:

“Prefiro ter estabilidade e passar mais tempo e um mesmo lugar, por vários motivos. Por exemplo, quando eu saí da Holanda para a Alemanha tive grandes dificuldades. O treinador do Vitesse era o Peter Bosz, que está agora no Leverkusen. A ideia dele era sempre ter bola, posse de bola, e quando cheguei ao Eintracht (Frankfurt) não tocava na bola (risos). O estilo era radicalmente distinto e tive dificuldades em percebê-lo. Mudei demasiadas vezes. Fiquei dois anos no Fulham e foi muito melhor, rendi muito bem. No Fulham e no Vitesse sinto que tive temporadas muito boas.”

Criticado e rentável, há, porém, uma intenção da FIFA em limitar o número de emprestados por temporada, para entre 6 e 8 jogadores por equipe. Para a federação, os grandes clubes que detém vários jogadores exerceriam um poder econômico, desequilibrando o mercado. Atualmente o Chelsea possui 33 jogadores cedidos à outras equipes e se, esta regulamentação for colocada em prática, terá de se adaptar e “criar” outras fontes de receitas para se manter economicamente competitivo no cenário inglês e europeu.

Theodoro Montoto
Postado por Theodoro Montoto Paulistano de 22 anos, estudante de administração da FAAP-SP que acredita que se a arte imita a vida, viver o futebol seria um bom ponto de partida para começarmos a entender ambas as coisas. Escrevo sobre gestão e marketing esportivo no futebol