Quebrando o silêncio: o abuso sexual de jovens no futebol brasileiro
21 de fevereiro de 2018
Categoria: Entrevistas

O abuso sexual de jovens no futebol precisa ser discutido e combatido

O cenário já é conhecido e, talvez, já faça parte do nosso folclore. São incontáveis as histórias de jovens pobres, sem muitas perspectivas, nascidos em comunidades carentes – e que, na maioria dos casos, representam a maior esperança de um futuro melhor para toda uma família -, que enxergam no futebol uma saída da atual condição em que vivem. Em alguns casos, as histórias mais parecem uma grande produção hollywoodiana, com uma árdua caminhada seguida de um desfecho feliz e bem sucedido. Desde jogadores que passaram mais de quinze anos morando embaixo das arquibancadas de um estádio até aqueles que tiravam leite de pedra para conseguir sobreviver na busca pelo sonho de ser um astro do futebol, fato é que o cenário desenhado para o jovem que sonha em ser um grande atleta é quase sempre o mesmo. O conto de fadas brasileiro envolve, quase sempre, um campo de várzea, pés descalços na terra e muita vontade de agarrar uma oportunidade para mudar de vida.

Foi justamente nesse cenário, no ano de 2015, que o suposto empresário Thiago Miguel dos Santos prometeu a 12 garotos do Planaltina Atlético Clube (DF) uma chance de viajarem para Salvador, a fim de realizar um período de testes nas categorias de base do Esporte Clube Bahia. Por sorte a farsa foi descoberta antes mesmo que o falso empresário pudesse embarcar com os jovens. Thiago acabou sendo preso ainda no aeroporto. Suspeita-se que ele estaria levando os garotos para serem abusados sexualmente e/ou explorados em algum centro de trabalho infantil. Em mais um caso de abuso sexual, desta vez em Passos (MG), também em 2015, o diretor do clube Esportivo de Passos, Itamar Albino, foi indiciado pelo abuso sexual de vários jogadores da base do clube – que, quando vindos de outras cidades, ficavam hospedados em sua casa. O diretor já havia sido preso em 2013, após diversas tentativas de abuso sexual para com os atletas do clube.

Assunto ainda pouco discutido, tratado como um verdadeiro tabu, o abuso sexual de jovens no futebol brasileiro parece ser tão comum quanto as histórias de contos de fadas que estamos acostumados a acompanhar. No entanto, algumas pessoas vem tentando reverter este quadro.  Já neste mês de fevereiro, o Sindicato dos Atletas lançou uma campanha nas redes sociais, com jogadores e ex-jogadores, para romper o silêncio e falar abertamente sobre um problema tão comum nas categorias de base brasileiras. O ex-goleiro Alexsander Montrimas é um dos nomes importantes na luta contra o abuso sexual de jovens jogadores e, agora, dedica boa parte da sua vida às discussões e ao combate nos casos de assédio no meio do futebol, dos quais o mesmo já foi vítima por algumas vezes, como conta em entrevista concedida ao jornal El País, em setembro de 2017. Em parceria com o Sindicato dos Atletas, Alexsander têm rodado o estado de São Paulo dando palestras educativas sobre o tema para jovens jogadores. No vídeo abaixo, Alê comenta sobre as experiências que teve enquanto atleta e suas motivações para a empreitada pós-carreira. Confira:

A equipe do Blog 4-3-3 entrou em contato com um dos jornalistas mais comprometidos com as investigações acerca de assédio a jovens atletas no futebol. Trata-se do mineiro Breiller Pires, comentarista do Bate-Bola ESPN e jornalista do El País. Suas grandes reportagens quase sempre colocam futebol e direitos humanos lado a lado. Já escreveu matérias sobre racismo, homofobia e violência no futebol. Sendo assim, seu envolvimento com a causa dos abusos sexuais no futebol é mais do que compreensível. Durante sua adolescência em Belo Horizonte (MG), Breiller passou por diversos clubes amadores e algumas categorias de base. Constatou uma triste semelhança em todos estes clubes. “Em todas as equipes que passei, ouvi o burburinho de que colegas e atletas de outras equipes seriam assediados por treinadores, massagistas e dirigentes. Quem convive no meio do futebol, sobretudo em categorias de base, sabe que o abuso sexual é um problema de grande proporção. Mas, por se tratar de um tema tabu, pouca gente se dispõe a falar”.

Desde que se formou em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais e passou a atuar como jornalista, Breiller têm dedicado um tempo às investigações de abusos no meio do futebol. Já em 2013, após alguns anos de apuração, publicou um dossiê com dezenas de casos na revista Placar. Com isso, dava início a uma série de investigações acerca do tema. “Desde então, tenho feito um monitoramento de novas ocorrências através de processos na Justiça. Sempre me disseram que era inviável provar a atuação de abusadores na base, já que as vítimas raramente denunciam e os clubes costumam encobrir essas práticas. No entanto, entendi que, através dos raros episódios que rendem denúncias formais, seria possível mostrar que, sim, assédio e abuso sexual são uma realidade no futebol”.

Breiller têm sido um dos nomes responsáveis por propagar o combate ao assédio a jovens jogadores no futebol

Quanto às dificuldades de se combater esse mal, Breiller alerta para a ilusão que permeia o mundo do futebol e que pode confundir até mesmo os pais. “O grande desafio é sensibilizar as pessoas, de forma didática, principalmente jovens atletas e familiares, alertando sobre os perigos que existem na aventura até o estrelato da bola. Há muita ilusão e, não raro, os próprios pais desacreditam as denúncias das vítimas na esperança de que os abusadores façam a carreira dos filhos deslanchar.”

Se o índice de denúncias referentes aos abusos sexuais contra crianças no Brasil já é baixo por si só (apenas 7%), quando o assunto é futebol, os números caem ainda mais. “Desde que iniciei o monitoramento de casos, em 2011, já registrei mais de 100 ocorrências relacionadas ao futebol. Mas, certamente, isso é só uma pequena amostragem. O número de casos que não se convertem em denúncias é muito maior”, conta o jornalista mineiro, que ainda aponta o machismo e a homofobia como os principais culpados pelo baixo número de denúncias. “Quando envolve o futebol, em que a maioria das vítimas é do sexo masculino, o abuso sexual ainda carrega o estigma da homofobia. Como o futebol ainda é um meio muito machista, as vítimas não só se sentem culpadas, mas também temem ter sua masculinidade questionada”.

Para combater o véu que ainda cobre e deixa impune abusadores por todo o país, Breiller acredita que a quebra do silêncio de grandes nomes do esporte pode encorajar as vítimas a denunciarem os casos de assédio e procurarem ajuda. “Ter ídolos e referências colocando o dedo na ferida, compartilhando suas experiências, pode encorajar vítimas a romperem o silêncio. Foi assim que um grande escândalo de abuso sexual foi descoberto na Inglaterra. Tenho certeza que a realidade do Brasil não é diferente. Que muitos jogadores consagrados por aqui também já sofreram assédio e abuso. A partir do momento em que isso deixar de ser um tabu, o futebol brasileiro passará por uma devassa e mais denúncias vão aparecer”.

Como se o combate já não fosse árduo o suficiente, a CBF, enquanto entidade máxima do futebol no país, pouco têm feito para opor-se aos abusadores – e o pouco que faz, ainda é feito de qualquer jeito. “Minhas matérias resultaram em investigações nas CPIs do Tráfico de Pessoas e da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Em 2014, às vésperas da Copa do Mundo, o então presidente da CBF, José Maria Marin, que hoje está preso após ter sido condenado no escândalo de corrupção da Fifa, firmou um pacto com o Congresso Nacional em que se comprometia a adotar 10 medidas para combater o abuso sexual no futebol. Passados quase quatro anos da assinatura do acordo, os deputados responsáveis pelas CPIs entendem que a confederação só cumpriu parcialmente duas das medidas prometidas. De acordo com a nova diretoria, a CBF, por conta própria, decidiu agir de forma diferente para atacar o problema, mas não informa com clareza quais ações desenvolveu. Cartolas da entidade preferem fingir que o abuso sexual não existe no futebol, varrendo o problema para debaixo do tapete”, informa Breiller.

E quanto aos clubes? Como agem quando se deparam com um caso de assédio? Para Breiller, os clubes são tão negligentes quanto a CBF no trato com abusadores e abusados. “Os clubes seguem as determinações e regulamentos da CBF. Enquanto a confederação não se posicionar, forçando-os a adotar medidas de proteção a crianças e adolescentes, as equipes seguirão omissas. Alguns aderem campanhas pontuais contra o assédio. O Sindicato de Atletas chegou a realizar palestras sobre abuso sexual em alguns times no ano passado. Mas ainda é muito pouco. Geralmente, quando protagonizam um escândalo de abuso sexual, os clubes agem nos bastidores para abafar o caso e desqualificar a fala das vítimas. Isso acontece tanto em clubes pequenos, que são ainda mais convidativos para abusadores, quanto nos grandes. Equipes como Vasco, Flamengo, Grêmio e Corinthians, por exemplo, já viveram episódios de abuso nas categorias de base, mas nenhum deles prestou colaboração efetiva com as autoridades para identificar vítimas e acolhê-las. Pelo contrário: se restringiram, no máximo, a afastar os suspeitos e fingir que nada aconteceu.”

Você pode conferir a entrevista com Breiller Pires na íntegra clicando aqui.

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Postado por André Oliveira Estudante de História, torcedor são-paulino, clubista e corneteiro.