Precisamos ser anti
13 de novembro de 2019

Foto: Shakhtar Donetsk

Era ainda o início da tarde de domingo no Brasil quando as imagens do jogador Taison recebendo xingamentos racistas e reagindo dentro do campo começara a pipocar na internet. O que já era péssimo se agravou depois do clássico mineiro, quando o jornalista Lucas Von Dollinger flagrou ofensas racistas de um torcedor a um dos seguranças do Mineirão. Diante de tamanha intolerância uma pergunta surgiu no meio de vários espectadores: até quando teremos que lidar com essa ignorância?

A ação de injúria racial é crime no Brasil, com punição de multa ou reclusão de um a seis meses. Na Europa há regulamentação da UEFA para interromper a partida e punir torcedores e clubes (em casos recorrentes) na tentativa de conter as ações, mas em alguns países podemos ver autoridades se negando a cumprir as regras.

Na Itália, como ilustram as imagens abaixo retiradas do perfil do jornalista Léo Bertozzi, que cobre o futebol daquele país, os torcedores chegaram ao ponto de minimizar as ações racistas comparando-as apenas a atos para desconcentrar os jogadores adversários.

Na Itália a vítima tem punição maior que o clube (Fonte: Twitter @lbertozzi)

No caso da torcida da Internazionale, a Curva Nord, chegou ao ápice de defender as ações da torcida do Cagliari contra seu próprio jogador (Romelu Lukaku), publicando uma carta em que pedia ao atacante que “se corrija” na alegação de que foi vítima de racismo – veja texto na íntegra abaixo.

A relativização do crime que Taison foi vítima ocorreu até mesmo em perfis brasileiros:

Racismo é crime, mas… (Fonte: Twitter)

Estudos recentes de Jamie Cleland e Ellis Cashmore ilustram como esse comportamento funciona no ambiente virtual. Basta postagens e manifestações de supremacia contra negros e muçulmanos para que outros racistas se manifestem. Para os autores, corroborados pelo ensaio de Daniel Burdsey, ignorar os atos não é suficiente. Como afirmou o próprio Taison, depois de sofrer a violência, “não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”.

Parece ridículo encontrar quem defenda a ação de injúria racial como uma “ferramenta” para desestabilizar jogadores adversários. Mas se os europeus usam esse argumento, para alguns brasileiros é a mesma linha usada para defender a prática da homofobia nos estádios.

A relativização da violência, será mesmo que xingar não ofende? (Fonte: Twitter)

Somos uma sociedade em mudança e que evoluiu em diversos setores, reconhecer a necessidade de evolução no futebol não é equívoco, não é “acabar com o futebol”. Será que é necessário ofender jogadores e torcedores para valer a pena uma ida ao estádio? Em parte, isso já afastou uma boa quantidade de pessoas que hoje assistem essas manifestações com clara repugnância.

Por parte dos órgãos reguladores é preciso cumprir as regras, punir clubes, determinar jogos sem torcida, punição em pontuação e outras ações pré-definidas nas normas. Ao torcedor não basta mais não ser racista, ou não ser homofóbico, é preciso lutar contra qualquer uma dessas manifestações. Precisamos ser parte de um movimento que reprima essa violência. Precisamos ser anti – antirracistas e antihomofóbicos.

(@F_Nunes19)

Postado por Felipe Nunes Estudioso, de bem com a vida e pai do João Miguel