Por que o 4-4-2 entrou em desuso no Brasil? Uma análise sobre o perfil tático do nosso país
10 de novembro de 2019
Categoria: 4-3-3 e Futebol e Nacional

Luiz Felipe Scolari, um dos técnicos mais emblemáticos do futebol brasileiro (Foto por Buda Mendes/Getty Images)

Para a maioria dos leitores do Blog, não há dúvidas que a tática do futebol brasileiro, à exceção do trabalho de alguns pouquíssimos treinadores, é ultrapassada como um dinossauro. O único padrão de jogo que existe na maioria dos times é no aspecto defensivo, afinal, como diz a máxima: é muito mais fácil destruir (jogadas) do que construir.

Quando recuperam a bola, os jogadores do Campeonato Brasileiro não têm muitas instruções do que fazer com ela, além de algumas coisas básicas: os laterais e pontas avançam, o centroavante se posiciona de costas para a defesa adversária, e um dos meias aparece como opção de passe entre os zagueiros.

A partir daí, costuma acontecer ou o famoso “chutão” para o ataque, ou uma troca de passes lenta e cautelosa até que o time que tem a bola se poste no campo ofensivo, mas quase sempre dando tempo para a defesa adversária também postar-se e preparar-se para impedir qualquer ação efetiva.

Pois bem, e onde entra o 4-4-2 nessa história?

Na verdade, a ausência do esquema do título do texto no futebol tupiniquim é apenas sintoma desses problemas, e será utilizado como pano de fundo para uma leitura mais profunda do que acontece aqui em contraste com as tendências do futebol mundial.

O 4-4-2 já foi um dos esquemas mais populares do mundo e tem três variantes historicamente muito relevantes: 4-4-2 losango (4-3-1-2); 4-4-2 quadrado (4-2-2-2); e 4-4-2 em linha. Hoje em dia, a versão em losango é pouco utilizada; a versão quadrada é praticamente inexistente; e a versão em linha perdeu um pouco de espaço para o 4-2-3-1, mas aparece com bastante destaque no Atletico Madrid e em alguns times ingleses.

O 4-4-2 em linha é, na verdade, muito semelhante ao 4-2-3-1 em vários aspectos, entretanto, tem também algumas diferenças: a a principal delas é que, no 4-2-3-1, o “segundo-atacante” do 4-4-2 joga mais recuado, requer menos velocidade, tem mais capacidade de cadenciar o jogo e é normalmente chamado de “meia-armador”. Defensivamente, a ideia é a mesma: defender em duas linhas de quatro, com dois jogadores soltos pressionando a saída de bola.

Voltando algumas décadas na histórias, o 4-4-2, quando surgiu, era um esquema bastante limitado, utilizado majoritariamente pelos ingleses, em que as ações ofensivas baseavam-se em bolas rifadas para 2 centroavantes fortes e altos disputarem e tentarem finalizar. Quando Eric Cantona chegou ao Manchester United, revolucionou o uso dessa dupla de ataque: Cantona passou a ser usado por Alex Ferguson como um atacante de mais movimentação, que dava mais opções de jogadas aos meias e, com esse diferencial, os Red Devils tomaram conta do futebol inglês nos anos 90.

Antes receita do fracasso dos ingleses na Champions League, o 4-4-2 tornou-se um esquema mais moderno, fazendo o Manchester United ser o primeiro clube inglês a ganhar a Orelhuda em 14 anos.

Com o tempo, essa versão do 4-4-2 foi repensada e originou o 4-2-3-1, que, desde então, é um dos esquemas mais prevalentes no futebol mundial. Hoje, a eficiência do 4-4-2 depende muito de um padrão de jogo variado e eficiente que se baseie, preferencialmente, num toque de bola rápido que procure acionar ou o segundo-atacante em profundidade ou o centroavante no jogo aéreo. E é por nisso que o futebol brasileiro não consegue se adaptar.

O treinador Alex Ferguson (E) e o atacante Eric Cantona (D), principais nomes da revolução tática que recuperou o respeito do futebol inglês e a eficiência do 4-4-2.

No Brasil, poucos times têm jogadas baseadas em toques rápidos, programados e treinados, portanto, todos acabam dependendo do famoso “armador”. Sim, aquele seu tio tem razão quando diz que o time de vocês não pode jogar sem um meia de armação, mas isso não quer dizer que todos os times do mundo precisem.

Normalmente, como já explicado, os atacantes usados no 4-4-2 não têm a característica de cadenciar o jogo e, portanto, não existe nesse esquema um jogador capacitado a funcionar como um desafogo no sentido de segurar a bola entre as linhas para que as jogadas possam ser pensadas com calma.

Qual a solução encontrada pelos treinadores ultrapassados que ainda têm espaço no Brasileirão? Na maioria das vezes, arranja-se pelo menos um jogador minimamente habilidoso para jogar como esse desafogo e, assim, monta-se um 4-2-3-1. Algumas vezes, concentram-se as ações desse jogador por um dos lados do campo, avança-se um dos volantes para dá-lo apoio no toque de bola e recua-se o outro volante para fazer a função de “pit-bull” na intermediária, resultando num 4-3-3 (ou 4-1-4-1). A partir daí, é apostar na individualidade dos seus jogadores e, sobretudo, na imaginação do “armador”.

Na Europa, a maioria dos grandes times usou nessa década um 4-3-3 em que os meias e pontas revezam a função de “armar” jogadas: ou seja, sem um “armador” fixo, afinal, para que tornar a criação de jogadas tão dependente de um mesmo jogador?

Isso não quer dizer, entretanto, que um dos meias não possa prevalecer na criação, ou que nenhum deles sirva, quando necessário, como uma válvula de escape para um time que vê suas triangulações tradicionais anuladas pela marcação adversária. O 4-4-2, utilizado por Diego Simeone no Atletico Madrid, não tem nenhum jogador que seja um grande perito nessa característica, ainda, assim, devido ao moderníssimo padrão de jogo aplicado pelo técnico argentino, a equipe consegue ser eficiente e competitiva.

O 4-4-2 caiu em desuso no Brasileirão, portanto, porque sua eficiência depende de uma complexidade tática que a maioria dos técnicos brasileiros não sabe aplicar. Isso é um sintoma não necessariamente grave, mas bastante explicativo a respeito do atraso tático que existe no futebol de um país que sempre se destacou por talentos individuais.

Os clubes do Brasil estão precisando recorrer a técnicos estrangeiros para se atualizar, e o sucesso de treinadores como Jorge Sampaoli e Jorge Jesus – que nunca estiveram entre os maiores destaques na Europa – deixa cada vez mais evidente o quão arcaicos são nossos técnicos. Sim, é possível jogar no 4-4-2 aqui no Brasil e em qualquer lugar do mundo, e não está errado jogar com um “volante pitbull” ou um “camisa 10 clássico”, o problema é tornar-se inoperante na presença desse esquema ou na ausência desses estilos de jogadores.

Postado por Luis Spode Estudante de Medicina, mas que nas horas vagas estuda mais futebol que anatomia. Apaixonado pelo esporte bretão, mas ainda mais apaixonado pelo Sport Club Internacional.