Para todos meus heróis: os insólitos
31 de março de 2020
Categoria: 4-3-3

(Foto por: DANIEL GARCIA/AFP/GettyImages)

Insólito. adjetivo. incomum, raro, anormal. que se opõe aos usos e costumes; que é contrário às regras, à tradição.

Abrir a boca para falar de heroísmo é evocar os sentimentos mais reais da humanidade. A admiração, e euforia, o medo e a coragem. Escrever um texto sobre heróis é trazer a tona um vasto estofo literário que desenha desde os primórdios da sociedade os heróis perfeitos. Divagar sobre façanhas heroicas no futebol seria falar sobre o óbvio. O que Cristiano Ronaldo e Messi fazem (ou faziam, fique em casa) toda semana. Mas na realidade, a imprevisibilidade deste esportinho desmonta qualquer obviedade. Neste texto eu quero falar sobre os que fogem a regra, os marginais, os heróis de ocasião.

Geralmente, eles não fogem muito da lista dos principais jogadores dos times. O óbvio, o certo e o palpável. Afinal, eles são os principais por algum motivo. É lógico, quase matemático. Mas desde que a bola rola, existe um fator que aproxima o futebol muito mais da literatura que das ciências exatas. A aleatoriedade, virtude das boas histórias. Ou que exatidão define Gabiru? Que fórmula descreve Belleti? Existe lógica no Mineiro?

É o insólito. Aquilo que foge da normalidade e estapeia o rosto com mãos de realidade crua. Afinal, a realidade é aleatória, imprevisível e irônica. Ela é irredutível, visceral e verborrágica. Ela é sangrenta, cheia de virtude e ódio. O futebol é real. Real como um filme de Scorsese.

Sim, um filme do Scorsese. Em Taxi Driver, Travis Bickle (Robert De Niro) é um taxista medíocre vivendo em uma Nova Yorque decadente. Cansado de ver nas ruas o que ele julga ser a “escória” da sociedade. Ele se apaixona por uma moça, mas pelo fato de ser bastante perturbado, acaba estragando tudo. Toda a degradação moral e decepção de seu ser se maximizam e ele decide fazer justiça com as próprias mãos: matar um candidato a presidência dos EUA.  Mas durante sua desventura, ele acaba se aproximando de uma garota de 12 anos que se prostitui. De forma completamente aleatória, ele acaba salvando a garota, matando os cafetões e a libertando. Travis se transforma em um herói. Mesmo sem ter essa intenção.

Quando Mineiro foi a campo naquela final de Mundial, acredito que a última coisa que passava por sua cabeça era fazer o gol que colocaria o São Paulo no topo do mundo. No dia da final da Copa do Brasil de 2012, mesmo sendo escalado como centroavante, duvido que Betinho esperava ser protagonista do título do Palmeiras. Será que Gabiru avisou sua mãe antes do jogo dizendo que  faria o gol do título?

Mineiro esperava marcar o gol heroico? (Foto por: Shaun Botterill/Getty Images)

São todos Travis Bickle. Heróis de ocasião. Por vezes até escanteados da sociedade. No caso, na sociedade do futebol. Um volante, um centroavante julgado como fraco. Longe do Glamuor de um Ulisses, de um Tony Stark. Mais próximos de um Bilbo Bolseiro, um Sam. Os heróis insólitos são os Hobbits. Mineiro, Betinho, Gabiru, Galato, Branco, Romarinho… todos vieram do condado. Ou de uma Nova Yorque decadente

A verdade é que não controlar tudo é o que faz o sabor do futebol ser tão único. A existência do aleatório premia aqueles que amam de verdade. Mostra que um gol pode ser o momento mais democrático do mundo. Pode reunir o abraço de um empresário que desencoraja a quarentena e um rapaz que teve sua mãe morta por conta do corona. O gol não julga. Pode premiar tanto o atacante que custou 180 milhões ou o volante que veio de graça como pagamento de uma dívida. É tudo incerto demais.

E no final das contas que seja incerto. Imagina que chatice seria se todos os campeonatos fossem decididos pelos melhores? Seria a vitória dos crápulas, que querem reduzir a vida a um duro capacitismo. Há beleza na fragilidade, no erro que vira acerto. No café requentado. No bife que tem sal demais. Há beleza nos dentes tortos, no cabelo bagunçado… Há beleza no insólito… No improvável.

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Postado por Igor Varejano 19 anos. Estudante de Jornalismo. Do interior de São Paulo, morando em Minas. Vivo em ódio por amar o Palmeiras e o Liverpool. Futebol é o que move a humanidade. Bom, pelo menos a minha. twitter.com/varejanoiu