Os países vizinhos e a cultura eugenista refletida no futebol
26 de novembro de 2019

 

Este é o quarto texto da série de posts que aborda o negro no futebol brasileiro, os outros três podem ser lidos ao clicar no link abaixo:

Primeiro texto

Segundo texto

Terceiro texto

Higienização e apagamento da história afro, na Argentina se mantém o mito de que “não existe” gente negra. Um país que serviu de abrigo para milhares de nazistas fugitivos e criminosos de guerra (leia mais aqui), um país que se força a cultivar uma tradição europeia colonizadora, deseducando gerações inteiras sobre preconceito racial e, de quebra, normalizando o racismo no futebol, que, como sempre, reproduz o reflexo do que é a sociedade na qual é inserido.

Para entender a construção do conceito racismo na sociedade argentina, é necessário interpretar uma narrativa um tanto quanto diferente da compreensão brasileira. Não há uma difusão honesta quanto à história da própria origem daquele povo, os negros foram, aos poucos, sendo apagados dos autos e memorandos, e não há resgate histórico algum disso. Houve, com sucesso, um embranquecimento massivo da população e, diferente daqui, não se tem a percepção genocida do que representa esse tipo de processo. Em suma, como menciona o historiador Felipe Pigna em uma matéria da BBC de 16 de junho deste ano, houve de fato uma manipulação histórica no gênesis da sociedade hermana, segue:

“A invisibilidade dos negros na história é tremenda, eles praticamente não são mencionados. Houve uma manipulação que se tornou história oficial nas escolas, e permaneceu como história canônica, na qual nem mulheres, nem povos nativos, nem afrodescendentes tinham lugar.”

Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-48600318

No nosso país vizinho, hoje, o preconceito racial abrange imigrantes de uma maneira bastante forte, também. Trazendo para o segmento esportivo, o Boca Juniors, time de maior torcida da Argentina, é –consequentemente- o maior alvo de preconceito dos torcedores rivais no futebol local, alguns chamam os boquenses pejorativamente de “Boliguaios”, uma mistura de Bolívia e Paraguai, pela quantidade de imigrantes que torcem pelo clube da capital.

A definição do que seria uma pessoa negra também é distorcida lá, se comparada em paralelo com a nossa. Por exemplo, Riquelme, um dos jogadores mais bem sucedidos da América do Sul neste século, seria tranquilamente visto como branco no Brasil. Na Argentina, recebe xingamentos racistas, como mostra uma matéria da UOL, de 09/05/2013. Leia aqui.

Como resultado de toda essa cadeia de processos, temos, atualmente, clubes “advertindo” suas torcidas para que, ao viajar de visitante em algum jogo continental, não praticar atos racistas, pois o clube teme algum tipo de punição. Algo como “não pise na grama, aqui eles levam isso um pouquinho mais a sério que nós”. O Racing é um dos exemplos, mas existem outros diversos acontecimentos similares.

“Se segurem gente, só hoje vai…”

No Uruguai, país que completa a tríade do berço futebolístico na América no Sul, o negro, apesar de menos apagado e bem mais representado que na Argentina, também é segregado. No país que concebeu Varela ao futebol mundial, apenas 0,8% dos cargos hierárquicos são ocupados por negros (segundo estudo da ONU, em 2013), que se fazem 10% de toda a população uruguaia, como diz um censo realizado em 2011. Na seleção de 2014, por exemplo, havia apenas dois jogadores pretos, Álvaro Pereira e Abel Hernández.

Em um país predominantemente branco, a falta de consciência racial tende a ser mais evidente e, embora estejam debatendo pautas progressistas com mais frequência que os outros membros da tríade, os efeitos de uma brancura acachapante na paisagem uruguaia deflagram atitudes racistas, principalmente dentro de estádios de futebol. Não são raros casos de racismo provindo -normalmente- dos dois maiores clubes uruguaios, Nacional e Peñarol. Este ano mesmo, no dia 8 de maio, torcedores do Peñarol imitavam macacos para os adeptos do Flamengo, em jogo pela Libertadores da América. Veja aqui.

Claro que nem um pouco alheio a toda essa linha do tempo e amplamente influenciado por uma cultura branca, se encontra o estado do Rio Grande do Sul e a região sul do Brasil em geral. Fronteiriço com os dois países acima, os estados desta parte do Brasil possuem a mais branca das histórias brasileiras. Desde Cisplatina até Farroupilha, o Sul do Brasil se apresenta como um território que pouco cultiva o elo com o seu país mãe e procura valorizar tradições mais locais e celebrar traços originários do que são, hoje em dia, países vizinhos.

A relação com o Uruguai, como dito acima, se produz via terra e, consequentemente, reprodução, devido à proximidade entre as duas províncias na época imperial (momento em que, tecnicamente, pertenceram a uma mesma nação). Império esse que por muito tempo financiou a vinda de imigrantes alemães para o Sul, para povoamento de território, essa colonização alemã pode ter seus impactos observados até hoje, em cidades como Nova Petrópolis (RS) Pomerode (SC), Blumenau (SC), entre várias outras. A influência em alguns locais chega a ser tão grande, que o idioma alemão é amplamente falado e até mesmo admitido como um dos idiomas oficiais do local, como em Canguçu (RS).

No futebol, como não poderia deixar de ser, segue-se a tônica que o DNA da sociedade daquele lugar possui. Os clubes sulistas possuem uma forte tradição com as “Barra Bravas” hispânicas, torcidas que cantam todo o jogo em apoio ao clube do coração, similar ao que conhecemos aqui como torcida organizada, porém, o ritmo dos cantos, os instrumentos usados e a maneira de torcer, é o que difere uma da outra. A Geral do Grêmio é o maior exemplo desse tipo de torcida, e a maior do Brasil no quesito.

As torcidas dos clubes sulistas também costumam manter alianças com agremiações de países vizinhos, como é o caso da Guarda Popular, do Internacional, com a La Barra del Rojo, do Independiente – ARG, por exemplo.

Diante de tanta influência e troca de cultura, era natural que alguns comportamentos naturalizados em territórios próximos viessem a ter sua parcela de contribuição para a herança de atitudes abomináveis. Coincidência ou não, o Rio Grande do Sul é o lugar com mais incidência de casos de injúria racial no país inteiro, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Em segundo lugar está o Paraná, outro estado da região sul, Santa Catarina vem em quarto, atrás apenas do Rio de Janeiro. Somados, os estados da região possuem quase metade do total de casos do país inteiro, alarmante.

Difícil.

Se tratando de esporte, a tendência se mantém, no Relatório da Discriminação Racial de 2017, produzido pelo pessoal do Observatório Racial do Futebol, pode ser vista a liderança do Rio Grande do Sul -novamente- em casos de racismo no ano, acumulando mais que o triplo do segundo colocado. Foram 10 casos registrados (ou seja, que foram oficializados) contra “apenas” três do seu vice, um grave problema.

Logicamente que a construção da identidade sulista passa por vários outros fatores que se dividem em contextos e abrangem outras circunstâncias, mas é sintomático que uma relação tão próxima com povos majoritariamente brancos, que renegam origens, renegam a negritude da sua história e normatizam discursos segregacionistas,  traga uma visão distorcida e embranquecida do preconceito racial, fato esse que facilita a ocorrência de casos de racismo pela região.

Postado por Renan Castro 23 anos, administrador, torcedor do Flamengo, natural de Nova Iguaçu - RJ, fã de aviação e dono de três quadros: Vestindo o Futebol, Ícones Alternativos e Memória FC.