Os anos dourados do Santa Cruz Futebol Clube
24 de dezembro de 2019
Categoria: 4-3-3 e Futebol e Nacional

 

Fundado em 03 de fevereiro de 1914, o Santa Cruz Futebol Clube colecionou momentos de glórias e fracassos nos seus cento e cinco anos de história. Nas últimas décadas, o clube passou por dificuldades, como a queda livre e seguida da primeira divisão em 2006 até a quarta divisão em 2009 – onde permaneceu por três temporadas seguidas. Os dirigentes incompetentes criaram dívidas gigantescas, a ponto do atleta e ídolo do clube, Grafite, dizer durante sua última passagem pela equipe: “Tive que comprar café da manhã”. E as más gestões no futebol que fizeram com que o clube participasse apenas duas vezes da primeira divisão do Campeonato Brasileiro na era dos pontos corridos. Se o Santa é repleto de problemas atualmente, iremos colocar isso de lado e focar no título do texto.

Então, iremos voltar há algumas décadas no tempo. Vamos para o ano de 1969. O Náutico, rival do Santa junto com o Sport, havia dominado o cenário nacional e principalmente estadual nos anos 1960, sendo finalista da Taça Brasil, que, anos mais tarde, seria oficializado como Campeonato Brasileiro, em 1967 e era o atual campeão pernambucano, tendo ganhado seis títulos consecutivos – recorde que se gaba até os dias atuais – e buscava o heptacampeonato em 1969. Mas os deuses do futebol decidiram intervir e colocar um fim na hegemonia alvirrubra, e coroaram os tricolores como campeões pernambucanos daquele ano, que seria o começo de um período vitorioso e histórico.

 Se 1970 foi um ano trágico para os amantes do rock no mundo inteiro, pois faleceram dois dos maiores artistas do mundo, Janis Joplin e Jimi Hendrix, os torcedores da cobra coral voltavam a vislumbrar a equipe ser destaque no futebol brasileiro. A equipe começou o ano voltando a ser campeão estadual contra o maior rival da época, o até então badalado Náutico, empatando um e vencendo dois jogos dos três jogos finais daquele campeonato. A partir daí, o embalo foi grande. O clube venceu os campeonatos pernambucanos de maneira avassaladora, conseguindo ser pentacampeão estadual de maneira consecutiva nos anos de 1969, 1970, 1971, 1972, 1973 e 1974.

Em meio às celebrações de títulos e consequentemente presença no principal campeonato nacional, afinal os campeões estaduais mantinham sua vaga garantida na primeira divisão do campeonato brasileiro, o sonhado Estádio do Arruda foi inaugurado no dia  4 de julho de 1972. O jogo de estreia foi contra o Flamengo, do Rio de Janeiro e o Santa entrou em campo com a seguinte escalação: Detinho, Ferreira, Sapatão, Rivaldo e Cabral, Erb e Luciano, Cuíca, Fernando Santana, Ramón e Betinho – que seria o jogador a marcar o primeiro gol no estádio posteriormente.  A partida terminou com um empate sem gols. A renda foi de CR$ 193.834,00, com um público total de 57.688 pagantes.

A partir daquele momento, se concretizava um projeto que era sonhado desde a compra do terreno no bairro do Arruda, na zona norte de Recife, em 1952. O estádio, que simboliza o orgulho de deter recordes de públicos e jogos históricos ali realizados para os torcedores tricolores, foi batizado oficialmente de Estádio José do Rego Maciel. O Arruda foi o estádio a receber o maior público de um jogo de futebol em pernambuco, que foi Brasil x Bolívia, em 1993, pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 1994, com 96 mil pessoas no estádio.

Estádio José do Rego Maciel. “O Arrudão”.

No dia 31 de dezembro de 1974, às vésperas de romper o ano, os recifenses se concentravam na praia de Boa Viagem e as camisas brancas se misturavam entre as tricolores. Apesar de terem perdido o Campeonato Estadual daquele ano para o Náutico, que disputou a final como o jogo da vida, já que o seu maior feito, que era ser hexacampeão pernambucano seguidamente, estava em risco e conseguiu derrotar a esquadra tricolor. Mas, apesar disso, não havia quem ousasse questionar o porquê de os torcedores estarem vestidos daquela maneira. Se os alvirrubros e rubro-negros sentiam frustração de ver a equipe coral triunfar nos últimos anos, mal sabiam eles que quando o relógio da Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento de Santo Antônio batesse meia-noite, o ano do Santa iria ser mágico, histórico e único.

A equipe tricolor sofreu algumas alterações ao decorrer dos anos, porém, manteve jogadores importantes, como o caso do atacante Ramón – que foi artilheiro do campeonato brasileiro de 1972 – e o volante Givanildo – que é conhecido atualmente como Givanildo Oliveira, o rei do acesso -, que foi prata da casa e um dos líderes e símbolos daquela geração pentacampeã pernambucana.

O ano de 1975 parecia que iria frustrar os torcedores, afinal, a cobra coral amargou o terceiro lugar no estadual. Mas o amargo na boca dos torcedores durou pouco tempo. A equipe base que se apresentou para disputar a principal competição do país foi: Gilberto, Zé Maria, Levir Culpi – hoje, treinador-, Pedrinho, Mazinho, Orlando, Lima, Carlos Alberto, Givanildo, Luis Fumanchu, e Ramon.

 O grupo (A) do Santa na primeira fase foi considerado um dos mais difíceis naquele ano, pois tinha gigantes como o Grêmio, Flamengo e o Santos. Porém, o time paulista não aguentou a esquadra tricolor e o endiabrado Ramon e perdeu por 3×2. E quando o seu grupo enfrentou o grupo (B), já que o regulamento assim previa, foi vitorioso contra o Internacional – que viria a ser o campeão daquele ano -, e chocou o Brasil com uma vitória por 3×1 contra o Flamengo de Zico em pleno Maracanã. 

Os times e a imprensa do eixo Rio-SP olhavam para Pernambuco com medo, receio. Ampliavam e viam que em Recife aquela equipe havia sido vitoriosa e tinha uma base consolidada e com lastro para jogar de maneira igual a igual contra qualquer adversário.

Se alguém ainda duvidava que o Santa Cruz não era pra tanto, ou poderia ser um cavalo paraguaio naquele ano, as vitórias contra o Palmeiras de Ademir Da Guia, no Parque Antártica, calou todos os críticos e céticos. De fato, estavam presenciando uma das equipes mais fortes daquele campeonato brasileiro.

Recife estava em festa. O bairro do Arruda era palco de carnaval a cada semana, a cada vitória, a cada show que a equipe proporcionava. Porém, no dia 07 de dezembro, depois de embalar e encantar o Brasil inteiro, o Santa enfrentou o grande time do Cruzeiro, que tinha craques com nível para representar a amarelinha naquela ocasião, como Nelinho e Joãozinho. Recife se concentrou entre os bairros da Encruzilhada, Água Fria, Peixinhos e Tamarineira, pois rodeavam o Arruda. Naquela noite, o Arruda estava lotado, mais de cinquenta mil pessoas e os rádios do Brasil ecoavam o grito da torcida no estádio.

Fumanchu abriu o placar para o Santa de pênalti. Zé Carlos empatou e Palinha virou para o Cruzeiro. O estádio se pôs em silêncio e se ouvia gritos de celebração dos torcedores rivais aos arredores. Até que o juiz marca pênalti para o Santa e Fumanchu converte novamente, deixando tudo igual. Entretanto, enquanto se tinha gritos de festejos e fé no poder da equipe tricolor, aos 45 minutos do segundo tempo, Palhinha coloca o Cruzeiro na frente novamente, dando a classificação ao time celeste.

Apesar da derrota na semifinal, que era jogo único e foi disputado no Arruda pelo fato do Santa ter tido a melhor campanha na fase de grupos, o ano foi considerado vitorioso por muitos, já que o Brasil colocava o Santa como um time forte e que deveria ser temido nas próximas competições que disputaria.

Em 1976 a equipe tricolor voltaria a ser campeã estadual e décimo primeiro na classificação geral do Brasileirão. Em 1977, apesar de não triunfar no Estadual, subiu na tabela final do brasileiro e acabou na décima colocação. 1978 e 1979 o script se repetiu e o Santa foi bicampeão estadual, resultando no total de 8 conquistas entre 1969 e 1979. Um verdadeiro reinado em Pernambuco. 

O Santa Cruz da década de 1970 deixou um legado para o clube que é lembrado até hoje pelos torcedores. Uma esquadra que funcionava como uma ópera, onde cada jogador sabia a sua função dentro de campo e atuavam com primor, encantando os torcedores nacionais e internacionais, já que a CBD (Atual CBF) promovia a fita azul, que eram excursões mundo afora para que equipes invictas representassem o país pelo mundo. E o Santa representou bem, como se esperava daquele elenco. Venceu seleções do oriente médio, como o Qatar e Kwait, e clubes europeus como o PSG.

Os anos 1980 foram conturbados e o Santa viu o seu maior rival, o Sport, ser o centro das atenções e repetindo seus feitos, contudo, sendo campeão brasileiro em 1987 e jamais retomou a façanha de ser o principal clube pernambucano ou do nordeste em uma competição nacional.

É válido ressaltar que conforme dito no início do texto, o Santa Cruz passou por várias crises políticas e financeiras que acarretaram nas diversas quedas de divisões do clube e no ostracismo de mídia e projeção nacional. Apesar disso, sua torcida foi o centro das atenções, já que enquanto a equipe permanecia no estado mais crítico que um clube de futebol pode passar – que era jogar a última divisão oficial do campeonato brasileiro – conseguiu manter a melhor média de público mesmo na série D, que apesar de ser um campeonato curto, mostra que a paixão dos torcedores refletem a grandeza de outrora, especificamente, dos seus anos dourados da década de 1970.

Postado por Roberty Vieira 22 anos. Pernambucano. Estudante de administração e apaixonado por futebol, estatísticas e história. A melhor analise de um fato é procurar entender o seu antes e projetar o seu depois. Twitter: @robertyvsantos