O zagueiro “quebra-linhas” e a próxima revolução tática do futebol
24 de outubro de 2019
Categoria: 4-3-3 e Futebol

 

Eu tenho certeza que você, amante do futebol, já se pegou algum dia pensando em como será o futebol daqui 20 ou 30 anos. Não apenas em questão tática, mas sim em como ele será sem Lionel Messi e Cristiano Ronaldo, por exemplo. Vai ser difícil assimilar que os dois maiores e melhores jogadores do planeta durante uma década inteira não estarão mais em campo. A geração atual cresceu vendo esses dois e se acostumou com isso. Com a tática não é diferente.

Por mais que a maioria da população não olhe muito para esse lado, são as revoluções táticas que moldam o futebol. Desde Jack Reynolds em 1915 até os dias de hoje, já foram mais de 100 anos do famoso “Futebol Total”. Obviamente com inúmeras mudanças, mas com as bases e conceitos ainda sendo os mesmos: Ofensividade, velocidade, organização e intensidade. O “Futebol Total” é apenas um exemplo para mostrar o quanto um conceito de jogo pode evoluir mantendo suas bases. Mesmo que vários legados fiquem para trás, é preciso que outros venham para dar sequência ao mesmo. Não só isso, é necessário que seja aperfeiçoado de maneira que o jogo esteja sempre em constante evolução.

Ainda tímida, a próxima grande sacada dos treinadores de clubes propositivos deverá ser a utilização de zagueiros que quebram linhas com facilidade. Para isso, é necessário um zagueiro que não se limite apenas a dar passe para o lateral ou curto para o primeiro volante, que não dê apenas chutões desenfreados para frente tentando contar com a sorte de o atacante dominar a bola ou dar aquela raspada de cabeça, mas sim de um que tenha a capacidade de realizar passes mais longos, os famosos quebradores de linhas.

Sem chutão, mas um conceito diferente

Não é o tipo de zagueiro que você deve estar pensando. Aqueles do estilo Fernando Diniz, por exemplo, que tocam a bola atrás proibidos de dar chutão e que quando realizam a saída com sucesso, sob pressão, normalmente levam a bola a um dos volantes, e esses terão um campo mais livre do que o convencional para dar continuidade a estratégia.

(Foto: Transmissão SporTV)

Esse é o Audax de Fernando Diniz. Perceba que enquanto o time faz a saída de bola tranquila com 4 jogadores, o Corinthians traz 6 dos seus para tentar roubar a bola, ou seja, a ideia é trazer o time adversário para o seu campo, e ao liberar a bola dos zagueiros para o “líbero” (jogador com a bola na foto) esse teria um segundo terço de campo mais aberto para a realização da jogada.

(Foto: Transmissão SporTV)

Nessa segunda imagem é possível ver que o ponta corintiano que foi pressionar o zagueiro do Audax deixou o lateral Tche Tche completamente livre para receber o passe caso assim o jogador do Audax optasse. Isso é criar superioridade, espaço e um ataque mais “leve” no segundo terço do campo. Perceba que na imagem anterior o Audax tinha 4 jogadores contra 6 do Corinthians. Agora, um pouco mais a frente no campo o Audax já mudou isso para 6×5, e esse 5º jogador que aparece está completamente livre para receber a bola.

(Foto: Transmissão SporTV)

Por fim, a imagem que esclarece a introdução dada a esse estilo de jogo anteriormente. Perceba que agora, praticamente na segunda metade do campo, o Audax já tem mais jogadores que o Corinthians, são praticamente 5×3, visto que o ponta-esquerda corinthiano parece desistir da jogada. A linha de 3 meias que subiu para realizar a pressão foi quebrada, e o Audax terá agora no segundo terço de campo uma liberdade maior para atacar. Essa é a ideia do zagueiro “sem chutão”, se é assim que podemos dizer. É aquele que vai ajudar na realização do desafogo na saída de bola, puxando a marcação adversária e fazendo com que essa, ao ser quebrada pelo meia que recebe a bola entre os zagueiros faça com que o time tenha maior superioridade no ataque, tirando os zagueiros e laterais da sua zona de conforto.

Quais as diferenças desses dois estilos de zagueiros?

O zagueiro quebra-linhas é aquele que vai subir mais do que o normal, e surpreendentemente terá a capacidade de um meia para levar a bola até os atacantes, com o campo sendo reduzido para marcar o gol. No conceito anterior a ideia era que ao trazer o time adversário para o seu campo, o defensor, ao sair dessa pressão, faria com que o meia tivesse o campo mais livre para jogar, agora quem vai dar campo livre aos meias é o próprio zagueiro, pois o futebol parece estar evoluindo para jogos de ataque contra defesa, e a participação inusitada dos zagueiros para furar retrancas parece ser um bom escape para isso, caso bem treinado.

Dando um exemplo a nível nacional, para mostrar que nem tudo é ruim por aqui quando falamos em tática, podemos citar o zagueiro Léo Pereira do Athletico Paranaense. No primeiro jogo da final da Copa do Brasil de 2019 o clube do Paraná estava tendo muitas dificuldades para furar a retranca colorada, porém, em dois momentos se viu uma superioridade ou quebra de linhas do Athletico frente a defesa do Internacional. E um deles foi o passe longo, consciente e surpreendente de Léo Pereira para Léo Cittadini, quebrando até com certa facilidade aquela linha de quatro colorada que mais parecia uma muralha.

(Foto: Transmissão SporTV)

Perceba onde está o zagueiro Léo Pereira do Athletico, assim como seu parceiro de defesa Robson Bambu. Ambos a frente do círculo central e completamente livres, enquanto todos os outros jogadores estão cercados por zona ou de perto por algum defensor do Inter. Agora eu te pergunto, o que você acha que os jogadores do Inter pensaram que ele fosse fazer? O que você assistindo ao jogo pensaria que ele fosse fazer? Provavelmente que fosse tocar de volta para o seu parceiro de zaga, como manda a cartilha, abrir para um lateral ou esperar a aproximação de algum volante.

Aí é o “x” da questão, uma sacada tática ocorre quando você pega o adversário de surpresa, deixando ele sem alternativas para aquela situação, algo que ele não espera. Essa entrada do Cittadini ocorre vindo do lado direito, ou seja, ele começa aberto, vem para meio entre as linhas e pega de surpresa a defesa do Inter com o passe de Léo Pereira. Pronto, com uma simples infiltração o Atheltico quebrou aquela linha que estava até os 20 primeiros minutos do jogo tentando ser furada com uma incansável rotação. Perceba também que foram necessários apenas três jogadores para isso. Léo Pereira, Léo Cittadini e Marco Rubén, que segura Victor Cuesta em uma tradicional jogada de pivô, e permite que Cittadini tenha espaço para o chute. Esse é apenas um exemplo, obviamente que tudo isso é muito mais complexo e envolve treinamento e outras variações a esse tipo de jogo. Mas parece interessante, já que os zagueiros têm espaço nesse terço de campo, porque trata-los com inutilidade para esse tipo de situação?

É arriscado? Obviamente sim, e por inúmeras questões, uma delas é a exposição desse defensor e sua qualidade para a realização desse tipo de jogada, afinal, ele é sempre um dos 3 últimos homens, e qualquer erro ocasionaria em uma oportunidade de ataque para o outro time. Porém, toda mudança tática, todo o ciclo é arriscado, nada dá certo da noite para o dia, e o treinamento a esse tipo de situação é que leva ao sucesso e a uma nova alternativa de jogo.

“Mas isso já acontece há um tempo, inclusive vejo acontecer toda semana zagueiro quebrar linhas, dar passe longo e subir mais do que o convencional”

De fato, isso realmente já acontece, porém, de maneira tímida e ainda ineficiente por vezes. Na maioria das vezes se vê como uma subida anormal, e que por sorte pode dar certo, tanto que quando você vê um zagueiro sair mais para o ataque a torcida enlouquece, ou seja, a participação desse em jogadas de ataque ainda parece estranha, assim como sair tocando a bola com zagueiros e goleiro atrás parecia algo completamente absurdo, mas que com o amadurecimento da ideia hoje é tratado como algo normal pelo público geral. E é assim que as ideias táticas no futebol amadurecem. O ataque posicional, o primeiro volante “carregador de piano” e o lateral jogando por dentro, por exemplo, já aconteciam há muito tempo antes de se consolidarem e serem notórios, foi algo que ao ser aperfeiçoado acabou sendo mais eficiente e entrou no ciclo da revolução tática, mas que no início parecia ser loucura. O carrossel holandês de 74 creio que tenha sido um bom exemplo disso também.

Depois de desconstruir mitos de que lateral só joga no corredor, atacante só marca até meio-campo, volante só marca e centroavante só fica preso na área, chegou a hora de desconstruir o estereótipo de zagueiro clássico.

E para você? Qual será a próxima grande revolução tática do futebol?

Postado por Faruk Bakri Brasileiro de origem Palestina, 20 anos de idade, estudante de Engenharia de Petróleo e torcedor do Brasil de Pelotas. Um apaixonado pelo futebol e tudo que o cerca, tem como ídolos Johan Cruyff e Alex Ferguson dentro do esporte.