O tapetão europeu e a lata de Coca-Cola
21 de outubro de 2020
Categoria: 4-3-3

A lata de Coca-Cola que causou toda essa história está no museu do Borussia (Foto: Reprodução/Facebook do clube)

 

O futebol é um esporte. Contudo, ele é gerido, regrado e fiscalizado, criando um pano de fundo, denominado de bastidores.

E eis que os bastidores do futebol são um jogo. Não há vinte e dois homens disputando o espaço no relvado pelo domínio de uma bola, mas sim, possivelmente dois ou três intelectuais e burocratas buscando interpretações de regras e brechas normativas.

Diferente do tecelão, que cria tapete como arte, esses burocratas os criam como um grande imbróglio, que desperta a fúria e indignação de grande parcela dos amantes do esporte e eternos odiadores do jogo – desde que conveniente odiá-lo.

Fato é que o futebol e os bastidores são coexistentes. Quando um está ocorrendo, sempre há a possibilidade do outro aparecer. E isso não é algo moderno.

Há 49 anos, um dos grandes escretes alemães se formava. O Borussia Monchengladbach se tornou o primeiro time a ser bicampeão da Bundesliga, contando com um elenco brilhante, com Gunter Netzer, Ulrik Le Fevre e o lendário Jupp Heynckes, cuja carreira na grande área seria tão importante quanto na técnica.

Jupp Heynckes foi um dos grandes jogadores do Gladbach na década de ouro do clube (Foto: Transfermarkt)

No entanto, alçar voos maiores era o objetivo daquele time na temporada 1971/72. À época, dentre os clubes alemães, apenas o Eintracht Frankfurt havia visitado uma final europeia. Nenhum outro, nem mesmo o poderosíssimo Bayern, que dominaria o certame europeu anos após, tinha logrado êxito continental naqueles tempos. E aquele momento parecia ser auspicioso para os Potros.

Ocorre que, após uma excelente primeira fase, atropelando os irlandeses do Cork Hibernians FC, o clube alemão enfrentaria um casca grossa nas oitavas de final: a Internazionale. Os nerazzurri eram bicampeões da competição europeia na década de 60, introduzindo o catenaccio, e contava com alguns jogadores daquela época de ouro, como Giacinto Facchetti, Sandro Mazzola e o brasileiro Jair da Costa.

A primeira partida ocorreria no Bökelbergstadion, na data de 20 de outubro de 1971. Os italianos sabiam do poderio alemão, mas nem com essa ciência poderiam prever tamanha traulitada. Logo no início da partida, Heynckes brecou na entrada da pequena área, se livrando de Giubertoni e batendo na saída do goleiro Vieri. O lateral Boninsegna até empataria o jogo para os italianos aos 20 minutos da primeira etapa, mas o dinamarquês Le Fevre escoraria a bola dois minutos após o empate, lançando o Gladbach novamente a frente.

Com 2-1 no placar, o fato gerador de uma das maiores viradas de mesa do futebol ocorreria naquele momento. O autor do gol nerazzurri, Boninsegna, se preparava para cobrar um lateral, quando caiu no relvado após ser atingido por um objeto. O craque Sandro Mazzola levou ao árbitro uma lata de Coca-Cola que, supostamente, seria o que acertou a cabeça do winger italiano. A confusão engrossou no relvado, com os italianos pedindo a imediata suspensão do cotejo. O árbitro, o holandês Jef Dorpmans resolveu apaziguar os ânimos e retomar a partida após consultar o lendário Matt Busby, delegado da partida naquela oportunidade.

Dali, a Internazionale não pode anotar a placa do caminhão que o atropelaria e o catenaccio foi devidamente destroçado pelo escrete dos Potros. Nos 15 minutos finais da primeira etapa, Le Fevre, de cabeça, Netzer, em uma aula de cobrança de falta e Heynckes, no oportunismo, colocaram o Gladbach com 5 gols no placar. O segundo tempo seria apenas protocolar, mas, ainda assim, os alemães ampliaram a vantagem, com um toque de classe de Netzer e um pênalti, sofrido por Heynckes e cobrado por Sieloff. 7 a 1 foi pouco. Literalmente falando, foi nada.

A Internazionale mexeu suas peças e acionou a UEFA requerendo a vitória por 3-0. Segundo seu departamento jurídico, encabeçado por Giuseppe Brisco, os alemães deveriam ser responsabilizados pelos atos de seus torcedores. No entanto, a princípio, a alegação não tinha qualquer base nos regulamentos da federação continental.

A decisão saíra antes partida no San Siro e, surpreendentemente, a UEFA estontearia os bastidores do futebol. A entidade resolveu anular o jogo e remarcá-lo no Estádio de Berlim. No jogo em solos italianos, a nerazzurri saiu de seu ferrolho e aplicou um 4 a 2 no Gladbach. Insuficiente para a classificação? Antes, sim. Mas a burocracia traria os contornos finais na terceira partida que, na verdade seria “a primeira”. Cada um dos sete gols marcados pela equipe dos Potros foi apagado. A grande atuação de Heynckes, esquecida. A capitania de Netzer, afundada.

Com uma enfadonha reversão de hipóteses, agora a Inter jogaria com o regulamento em baixo do braço: dois gols de vantagem e já habituados ao estilo de jogo do Borussia Monchegladbach. Já do lado alemão, uma apatia pela decisão desaforada que presenciou. Em dezembro daquele mesmo ano, a partida seria disputada. E o resultado seria um 0 a 0 insosso, que culminou na classificação dos italianos.

Quis o destino que o Gladbach não avançasse naquele ano. A Inter, por outro lado, seria devidamente punida pelo Ajax comandado pelo irretocável Rinus Michels e orquestrada por Johan Cruijff, em uma das finais mais dominantes já presenciadas. Infelizmente, os holandeses não puderam enfrentar o futebol positivo dos Potros, mas fizeram valer seu favoritismo frente aos italianos.

O Borussia ainda prolongaria sua boa fase na década de 70, com a chegada do dinamarquês Simonsen. Além do tricampeonato da Bundesliga de 1974/75 a 1976/77, ganharia duas Copa UEFA em 1975 e 1979. Fatalmente, o sonho da Copa Europeia bateria na trave, quando enfrentou o Liverpool de Bob Paisley, em 1977, no início do domínio inglês da competição, que perduraria até 1982.

Na década de 70, os alemães foram campeões de muita coisa: por seleção, Copa do Mundo, Eurocopa; por clubes, Copa Europeia (Bayern). Contudo, uma puxada de tapete evitou a coroação de algo que poderia ter sido um pouco mais revolucionário. Um pouco mais inesperado. Apesar do doce sabor da Coca-Cola, uma lata arremessada transformou a trajetória do Borussia Monchengladbach um pouco mais salgada.

Os gols da goleada histórica (com narração em alemão, é bem verdade, mas aproveite para treinar sua fluência em mais um idioma, hehe):

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Postado por Luan Manicka Estudante de Direito. Acostumado desde pequeno a assistir jogos na Arena da Baixada, onde o fanatismo por futebol começou. De estadual, até as ligas europeias em um final de semana. Cornetada aqui, elogio ali e algumas opiniões mais ácidas.