MEMÓRIA FC #17 – O preço da troca de identidade
26 de março de 2016
Categoria: 4-3-3 e Memória FC

Até que ponto o nome de um clube de futebol carrega a identidade e tradição que a instituição herda? Um simples nome pode mudar tudo?

Sim, amigos. Pode

Wimbledon Football Club, um clube inglês fundado em 1889. Porém só iniciando suas atividades profissionais quase 100 anos depois, em 1977 quando entrou para a que era considerada a quarta divisão da época, a última. De uma forma subitamente rápida, o clube londrino ascendeu a partir de 1982, chegando à primeira divisão inglesa já em 1986!

E claro, assim como os jogadores, os torcedores do Wimbledon também não tinham grandes expectativas quanto a grandes aspirações na elite inglesa. Além de o clube ser debutante, seu treinador na época, Dave Bassett, era frequentemente criticado publicamente por algumas personalidades do meio esportivo por conta do seu estilo. Era considerado muito básico e pouco sofisticado diante dos grandes treinadores da Inglaterra na época, sendo inclusive duramente alfinetado por um dos maiores astros do futebol britânico da década, Gary Lineker.

Entretanto, mesmo cercado de incertezas e críticas, dois anos após debutarem na primeira divisão, eles conseguiriam o primeiro (e único) título de primeiro escalão a nível nacional.

Em 1988, o clube de Londres contrariou todas as expectativas. Chegou a final da FA Cup frente ao Liverpool e venceu os reds pelo placar mínimo, conquistando o título da copa doméstica diante de 37 mil fãs enlouquecidos. Foi o ápice da história do clube. A final contou com contornos dramáticos, inclusive com direito a pênalti perdido pelo lado dos reds, Aldridge chutou nas mãos do goleiro Dave, que se tornou o primeiro goleiro na história a pegar um penal na final de uma FA Cup.

A histórica conquista do “antigo” clube.

A única notícia ruim de tudo isto, foi a de que o Wimbledon, mesmo sendo campeão da FA Cup, não poderia participar da atual Liga Europa, pois naquela época os times ingleses haviam sido proibidos de jogar campeonatos continentais. Isso se deve a fatídica tragédia de Heysel, pouco tempo antes.

Após todo esse frison do iniciante na primeira divisão, o time londrino com o passar dos anos adquiriu o apelido de “Crazy Gang” ou “Gangue Louca”. Esse nome tem origem de um grupo de comediantes ingleses que fizeram muito sucesso na década de 30 na terra da rainha. O paralelo foi estabelecido pois os jogadores do Wimbledon eram vistos frequentemente pregando peças nos colegas de time, nem mesmo o treinador escapava das armadilhas feitas pelos jogadores.

Com certo nome já consolidado na primeira divisão, o Wimbledon se viu bastante afetado com a mudança que ocorreu no começo dos anos 90. Que o fez perder seu estádio, por não ter assentos e a medida que foi dada como obrigatória para os clubes da primeira divisão. Com isso, o clube foi obrigado a fazer um acordo com o seu rival local, o Crystal Palace, e passou a mandar seus jogos no Plough Lane. Porém, as categorias de base do clube continuavam sem problemas em seu estádio original.

E assim continuou por toda a década de 90, o time se manteve na primeira divisão, algumas temporadas com dificuldade e outras com campanhas até surpreendentes, mas já era um nome um tanto quanto carimbado entre os 20 clubes da elite inglesa.

Mas começo dos anos 2000 seria uma época de mudanças e bastante turbulenta para o clube.

Começando com o primeiro rebaixamento da primeira divisão, depois de 14 longos ininterruptos anos jogando na elite o Wimbledon enfim não resistiu. Após algumas campanhas ruins, já era uma premissa a se considerar que a queda fosse questão de tempo, e infelizmente a premissa estava correta. O clube caiu após perder para o Southamptom e ver o Bradford City triunfar sobre o Liverpool pelo placar mínimo, garantindo a presença na elite.

Em agosto de 2001, o Wimbledon manifestou pela primeira vez publicamente o interesse em trocar de cidade, queria se mudar para a cidade de Milton Keynes, alegando que isso facilitaria os planos para a construção de um estádio nos padrões ingleses. Por incrível que pareça os órgãos regulamentadores aceitaram a ideia, porém, com uma condição: para que o clube permanecesse na segunda divisão, teria que mudar o nome e esquecer todo seu passado com o nome anterior.

O estádio de fato saiu, mas, valeu a pena?

Essa condição tornou a medida extremamente impopular frente a já tradicional torcida do time londrino. Assim que o processo foi regularizado e a mudança começou a entrar em vigor, o clube passou a se chamar Milton Keynes Dons, ou MK Dons. Como a maioria dos torcedores do Wimbledon não digeriu a troca de nome de forma positiva foi criado em junho de 2002 o AFC Wimbledon, no intuito de deixar viva toda a história do antigo nome, mesmo que isso significasse abandonar o agora MK Dons de vez.

O AFC Wimbledon hoje em dia ocupa a quarta divisão inglesa e possui alguns dados interessantes desde a sua fundação, como por exemplo, a maior série invicta em ligas inglesas da história. O clube ficou 78 jogos sem uma simples derrota, de fevereiro de 2003 a setembro de 2004.

Já o MK Dons, chegou a ser rebaixado para divisões anteriores, porém atualmente voltou a pertencer à segunda divisão inglesa, a Championship. Eles ficaram temporariamente famosos na mídia após golearem o time reserva do Manchester United na Capital One por 4×0 alguns anos atrás. Em 2007 conseguiram realizar o antigo sonho do estádio, dando o nome de “Stadium MK”. Bastante criativo.

A histórica vitória do MK Dons.

Obviamente se criou uma rivalidade entre os dois clubes. Durante a curta existência do AFC, já enfrentaram o MK por três vezes durante a sua história. Perdeu duas vezes, porém venceu o último confronto entre eles por 3-2 em 2014. Em entrevista para a revista britânica FourFourfTwo em 2004, o então diretor do MK Dons deu uma declaração um tanto polêmica. Alegando que o MK era o verdadeiro Wimbledon e que os fãs traíram o clube, ao simplesmente deixar de torcer pela instituição pelo fato de mudarem cidade e de nome.

Será que realmente vale a pena mudar toda uma identidade local e identificação com o torcedor por conta de um estádio ou qualquer outro benefício que venha receber em algum outro lugar?

Adebayor Akinfenwa é o grande responsável pela pequena fama do AFC Winbledon.

A tradição é uma coisa que não se pode comprar, bem como o amor de verdadeiros torcedores. Pode parecer uma coisa bastante boba, apenas uma troca de nome, mas imaginem o seu time mudando de estado e trocando de nome só para facilitar alguma coisa que antes era um tanto complicada. Você continuaria torcendo para ele? Se sentiria traído?

De fato, é um assunto bastante complexo. Mudanças sempre terão consequências, algumas boas, outras ruins. Difícil mesmo, é ver o seu time antigo campeão da FA Cup, tendo cedido jogadores pra duas copas do mundo (98,02) e frequentado por 14 anos seguidos a primeira divisão, jogar em outra cidade. Com outro uniforme, ostentando no peito outro escudo.

Não dá pra imaginar essa decepção, se fosse com o meu time. Esse é o preço a se pagar, por amar o futebol.

Postado por Renan Castro 23 anos, administrador, torcedor do Flamengo, natural de Nova Iguaçu - RJ, fã de aviação e dono de três quadros: Vestindo o Futebol, Ícones Alternativos e Memória FC.