O pesadelo juventino: uma ‘squadra’ que desmoronou
10 de março de 2021
Categoria: 4-3-3 e Futebol e Internacional

 

As principais equipes do futebol mundial na atualidade jogam, em sua maioria, baseadas numa estrutura de futebol, inserida em um projeto de equipe que preza muito mais pelo coletivo do que pelo individual. Isso não significa que joguem da mesma maneira, ou com a mesma ideia de jogo, mas o fator comum é um sistema que sustente ocasionais individualidades, e não o contrário. Prova disso são os dois últimos campeões da Champions League: tanto Liverpool quanto Bayern não eram caracterizados pelos seus brilhos individuais, mas sim pela estrutura construída por seus treinadores alemães. Ainda que os Reds tivessem Salah, Mané e Firmino ou que os bávaros contassem com Lewandowski em ano de melhor do mundo, o ponto chave para as temporadas mágicas que viveram era a equipe, e não um centroavante ou um trio de ataque, por melhor que fossem.

No caso da Juventus, que acaba de ser eliminada nas oitavas da Liga por uma equipe inferior pelo segundo ano consecutivo (Lyon em 2020 e Porto em 2021), essa característica também era presente na equipe supercampeã de Massimiliano Allegri, em especial em 2015 e 2017, anos em que a Velha Senhora foi vice-campeã europeia. Em 2015, Pogba e Tévez chegavam inspirados. Já em 2017, o ano foi da dupla argentina Dybala e Higuaín. Mas o maior responsável pelo sucesso de ambas as equipes era Allegri – ou melhor, o sistema montado por ele.

O vice da Juventus em Cardiff, 2017

Essa equipe supercampeã desmoronou. Ou melhor, a boa ‘squadra’ da alvinegra italiana sucumbiu. As razões para isso são diversas, complexas, e para entendê-las é preciso retornar a um jogo chave – e polêmico – no penúltimo ano de Allegri no comando da equipe: Real Madrid 1-3 Juventus, Santiago Bernabéu, 11 de abril de 2018, jogo de volta das quartas de final da Liga dos Campeões. A Juventus tentava o milagre de reverter um 3 a 0 dentro da casa do melhor time do mundo – e quase conseguiu. O “quase” talvez tenha sido exatamente o problema. Numa temporada que já não era das mais brilhantes, Allegri começava a ser questionado, e a porta para uma reformulação foi escancarada por Cristiano Ronaldo e cia no amasso merengue em Turim. No entanto, a “quase” reviravolta atenuou o baque, dando ares de “não está tão ruim assim”.

O gol salvador de Cristiano, que eliminou a Juve em 2018

Mas estava. Allegri tinha seu ciclo próximo do fim – na temporada seguinte a eliminação foi para o Ajax, após uma “quase” eliminação para o Atlético de Madrid nas oitavas, com Cristiano, agora do lado juventino, sendo decisivo para evitar a queda precoce. Allegri saiu, veio Sarri, e a equipe que já não vivia seus melhores momentos, desmontou. O pouco de padronização que restou do trabalho anterior inexistiu na temporada com o ex-técnico de Napoli e Chelsea. Ele conquistou o nono título italiano seguido, mas sem nenhum brilho e muito menos uma equipe coesa. O estopim foi a eliminação para o Lyon na Champions, onde ficou evidente a falta de ideias e de construção – coletiva – da Juventus, extremamente dependente de lampejos individuais de Cristiano Ronaldo.

A decisão da diretoria foi trazer Andrea Pirlo, um mago como jogador, mas que nunca havia trabalhado em uma equipe profissional como treinador. Mais que isso, havia acabado de terminar seu curso final para poder assumir uma equipe de elite. A tragédia era anunciada, e a escolha obviamente não fazia sentido algum. O resultado não poderia ser outro: não só a Juventus segue sem um coletivo consistente como também cada vez menos consegue explorar suas individualidades, que agora até são melhores, já que o elenco sofreu certo rejuvenescimento ao longo dos últimos anos. Não só caiu mais uma vez nas oitavas, como mais uma vez caiu para uma equipe consideravelmente inferior e nada brilhante (o Lyon, mesmo tendo chegado às semifinais, era extremamente burocrático, e o Porto também não foge disso). Não só está longe do sucesso na Champions como provavelmente perderá sua hegemonia italiana, visto que a Internazionale tem vantagem confortável na liderança – e só disputa o campeonato nacional.

Pirlo, em seu primeiro ano como treinador, faz trabalho questionável

O caminho para o sucesso no futebol mundial cada vez mais tem sido um projeto coletivo, que explore o individual, mas não seja centralizado nele. Quase todas as equipes vencedoras (e não vencedoras, mas de destaque) nos últimos anos são caracterizadas por ideias de jogo, por construção tática, e não por um ou dois craques que carreguem o time nas costas. A Velha Senhora parece ter ficado ainda mais velha, não reconhecendo isso – ou talvez até tenha reconhecido, mas tem passado longe de acertar em suas escolhas. Julian Nagelsmann, Roberto De Zerbi e Erik ten Hag estão aí. Outros nomes pela Europa também fazem bons trabalhos e/ou tem potencial para fazer. A Juventus ainda parece ver o seu posto de treinador como um detalhe e o seu projeto de equipe como algo secundário. Enquanto assim continuar, é provável que seu sucesso não seja do tamanho do clube. E que, assim, também siga desperdiçando os últimos anos de alto nível de um dos melhores jogadores de todos os tempos.

Pedro Guevara
Postado por Pedro Guevara