O futebol como método de ascensão do negro periférico
21 de novembro de 2019

 

Este é o segundo post da minisérie sobre o negro no futebol brasileiro. O primeiro você confere aqui.

“Para além das paixões clubísticas, a democratização da prática do futebol, materializada na ascensão de jogadores negros e mestiços, permitiu que esse esporte viesse ocupar uma posição central na construção da identidade nacional.”

Luis Fernandes, prefácio da edição de 2003 de “O Negro no Futebol Brasileiro”.

Como dito anteriormente, a profissionalização do futebol  brasileiro teve papel fundamental na inserção do negro, um ativo em potencial, nesse esporte. Diante da grande procura por bons jogadores, jovens pretos periféricos já antigamente alimentavam o sonho de um dia conseguir ganhar dinheiro com a prática do futebol. Hoje, na era dos contratos caros e das transferências milionárias, essa meta se fortaleceu ainda mais.

Segundo dados coletados pelo IBGE em 2017, apenas 12,8% dos jovens negros estão em uma faculdade, enquanto 26,5% dos jovens brancos estão matriculados no ensino superior, mais que o dobro. Considerando isso, é natural que jovens pretos tenham menos condições de crescer na vida, ainda mais se levarmos em conta outros dados do Instituto Brasileiro de Geografia, que em 2016 divulgou sua pesquisa onde atestava que dentre os 10% mais pobres do país, 78,5% eram negros e 20,5% brancos, informação essa que se inverte quando a pesquisa aborda os 10% mais ricos, 72,9% brancos e 24,8% negros, sintomático.

Diante da desigualdade comprovadamente alarmante, o negro tem no futebol uma das suas poucas chances de sucesso financeiro realmente relevante. Exemplos desta máxima não faltam: Daniel Alves, Romário e Adriano Imperador, são alguns dos nomes mais contemporâneos que se enquadram nessa situação. O futebol de várzea, criado e desenvolvido por pretos no começo do século 20, também se fortaleceu bastante com o tempo e hoje torneios grandes são organizados todos os anos, como a Taça das Favelas, iniciada em 2012, que revelou e revela diversos jogadores para o profissional, sendo a esmagadora maioria deles, negros.

Aos que conseguem a proeza de ascender na carreira profissional, se reserva  um novo problema que acompanha a mobilidade social brusca que a vida de um jogador de ponta proporciona: a perda de identidade. Com toda certeza não há mal nenhum em se utilizar do dinheiro recebido, com méritos, para obter bens materiais valiosos, como carros, mansões ou relógios caros, entretanto a convivência com as elites e a perda de contato com a origem cria uma bolha de segurança onde por vezes se encontra o jogador negro. No rebote desse sintoma, aparece a condolência, a minimização, a normalização e, em casos extremos, uma espécie de negacionismo dos problemas raciais no esporte. O grande e triste exemplo disso vem de um cara que teve o dom de mudar a sociedade para sempre, um dos únicos atletas cuja a voz seria amplamente considerada em todas as camadas da sociedade, mas que escolheu a indiferença no papel de um mundo menos racista, falo de Pelé.

  • FATOR PELÉ

O Rei, a divindade mor desse esporte bicentenário é negra, o que mais poderia ser tão representativo que isso, né? Chamado de gasolina quando criança, já famoso ele era chamado de “crioulinho” pela imprensa da época, sofreu racismo na Argentina e Suécia. Já revelou, também, ter rompido um namoro com uma moça branca pelo fato da família dela não aceitar um relacionamento com um homem negro, como conta essa matéria da UOL.

Um homem que cresceu com experiências como essas deveria ter uma consciência ativa na luta pelos seus irmãos de cor. E quando me refiro ao verbo dever, não presumo a obrigação necessariamente voluntária de ser um militante da causa, mas a cobrança de que o duro aprendizado de toda uma vida sofrendo e sendo rotulado pela cor da pele, tenha gerado um mínimo de combatividade enquanto personalidade pública e um dos seres humanos mais influentes da história moderna.

Pelé é o motivo de um dos poucos estereótipos “bons” para a cor negra, que é o do negro craque de bola. Mesmo sem nunca verberar em tom combativo, Pelé se tornou a aspiração pra todo e qualquer negro de periferia no Brasil (e no mundo), um símbolo preto de ascensão social e financeira, um ícone que é sinônimo de futebol, seu nome se mistura com o do esporte, e esse é o maior legado do Edson para com o povo negro, a eternização da sua importância no segmento.

Por outro lado, Pelé por vezes -e principalmente após se aposentar- se apresentou com um discurso deveras negacionista quanto à luta racial dentro do esporte, como ilustra uma matéria reproduzida em 2014 no Portal no Ar, onde o Rei critica e até confronta o caso de racismo ocorrido com Daniel Alves, na Espanha.

Trecho da matéria.

Outro evento parecido aconteceu no episódio Aranha, em 2014, quando Pelé veio à público dizer que “quanto mais se falasse naquilo, mais racismo ocorreria”. Leia mais aqui.

Infelizmente situações como essa não faltam, ele chegou a declarar que “hoje em dia, qualquer coisinha é racismo” e que “racismo é esporádico”. Para a ESPN e Gazeta, respectivamente, você pode conferir na íntegra ao clicar nas frases entre as aspas.

Em alguns momentos, se percebe uma tônica um tanto quanto conservadora ao analisar o discurso do Rei, já que inúmeras vezes ele retrata que no tempo dele era pior, mas não utiliza uma atitude condenatória ao falar disso, dando a impressão de que, se ele pôde aguentar toda aquela hostilização, o negro do século 21 não deve reclamar do preconceito que sofre, visto que, na ótica dele, acontece em uma intensidade bem menor nos dias de hoje. Frustrante.

Minha percepção se personifica mais ainda em casos como o do evento de abril de 2015, realizado pelo Governo do estado de São Paulo, que promoveu uma campanha contra o racismo no futebol com craques já aposentados. O ex-jogador alegou -mais uma vez- conflitos de agenda para comparecer no palácio dos bandeirantes, estranhamente essa é uma problemática frequente para justificar a falta do Pelé em encontros como esse, sua postura foi cobrada até mesmo por Wladimir, um dos maiores jogadores da história do Corinthians, que também estava no evento:

“Um depoimento, com uma postura mais efetiva do Rei sem dúvida encontraria uma resistência maior da comunidade contra o racismo, não tenho dúvida” 

Até mesmo jogadores estrangeiros já chamaram a atenção para a indiferença do Pelé enquanto negro para com o movimento no futebol. Thuram, campeão do mundo com a França, já fez duras críticas ao Edson em 2018:

“A verdade é que Pelé jamais se posicionou. Ele jamais se posicionou sobre a problemática do racismo no Brasil. E, portanto, ele é alguém que poderia ter feito avançar as coisas. Mas, para se posicionar e melhorar as coisas, eu acho que é preciso gostar das pessoas”.

Thuram é uma voz bem presente dentro do movimento negro no futebol mundial.

Matéria sobre o evento da prefeitura de SP.
Matéria sobre a declaração do Thuram.

O homem que é o mártir da aspiração negra e a maior referência quando se pensa em futebol como um todo, infelizmente perdeu o seu contato com a origem. Hoje, talvez o futebol tivesse um caminho um tanto quanto menor para percorrer nessa linha, caso as coisas tivessem sido diferentes.

É uma pena.

Postado por Renan Castro 23 anos, administrador, torcedor do Flamengo, natural de Nova Iguaçu - RJ, fã de aviação e dono de três quadros: Vestindo o Futebol, Ícones Alternativos e Memória FC.