O cartão que vem do passaporte
24 de abril de 2020
Categoria: 4-3-3 e Futebol e Internacional

(Foto por Valerio Pennicino/Getty Images)

A máxima de que o futebol explica o mundo está em vários textos, inclusive em um dos livros mais vendidos na categoria futebolística. Mas você já pensou em quanto o mundo explica o futebol?

Muito além dos estereótipos clássicos de brasileiros como jogadores habilidosos e individualistas, alemães disciplinados e fortes coletivamente e jogadores do leste europeus como “duros” e frios dentro de campo, relacionando o modo de viver de cada sociedade e suas ações dentro de campo, Edward Miguel, Sebastian M. Saiegh e Shanker Satyanath (pesquisadores da Universidade de California Berkley, Universidade de California San Diego e Universidade de Nova Iorque) fugiram do achismo e construções vagas, reforçando outros estudos de que situações de extrema violência na sociedade resultam em ações violentas individuais, algo já relatado nas áreas da saúde e psicologia, porém agora dentro das quatro linhas do esporte mais popular da Terra.

Poucas situações no mundo contam com a diversidade cultural e étnica como o futebol europeu, aproveitando-se deste fato os pesquisadores coletaram dados das temporadas 2004/2005 e 05/06 das seis principais ligas europeias (Premier League, La Liga, Bundesliga, Serie A, Ligue1 e Champions League), assim contando com jogadores de 70 nacionalidades diferentes e analisaram o número de cartões amarelos e vermelhos, levando em consideração, suas idades, continente de nascimento, valor de transferência, posição dentro de campo, liga disputada, clubes, jogos disputados e gols. Para “detectar” o nível de violência de cada jogador/nacionalidade, utilizaram o número de cartões recebidos por estes.

Mas, por que o número de cartões amarelos/vermelhos? Majoritariamente, um cartão amarelo é dado após uma falta violenta, e eles coletaram alguns dados que mostram isso: nas temporadas 04/05 e 05/06 da Champions League, 66% dos cartões foram dados por esse delito, enquanto que nas temporadas 05/06, 06/07 e 07/08 da Serie A, 75% das advertências amarelas foram por essa ação. Dado a genialidade dos pesquisadores em encontrar a questão social e o campo de experimento correto, os resultados foram os esperados.

O número de cartões amarelos entre 2004 e 2006 estava positivamente correlacionado com o número de anos de guerra civil no país natal dos jogadores entre 1980 e 2005, com intervalo de confiança de 99%, ou seja, com fortíssima evidência estatística.

Como exemplo, o número previsto de cartões amarelos para um jogador africano na liga francesa aumenta em 3,6% quando a prevalência de conflitos civis em seu país de origem aumenta em quatro anos – o desvio padrão utilizado na pesquisa, acontecendo o mesmo para jogadores latinos na liga espanhola. Outro dado interessante é que quanto mais jovem o jogador é, menor a propensão em sair amarelado. Com dois anos a menos de idade, o número de cartões previsto diminui em 3%, praticamente neutralizando o efeito da exposição ao conflito.

O gráfico acima mostra a relação entre os anos de guerra civil para cada país entre 1980 e 2005 no eixo horizontal, com número de cartões amarelos por jogador em cada temporada, ambos controlados pelas propriedades anteriormente mencionadas – na linguagem técnica, chamadas de variáveis, e centrados na média, o tamanho do círculo de cada país é proporcional pelo número de jogadores. Claramente, o gráfico é positivamente inclinado reforçando os resultados reportados, assim como também evidenciam Israel e Colômbia, dois países que passaram por guerra civil em todos os anos do período estudado e apresentam a primeira e a segunda maior média de cartões amarelos por jogador/temporada entre os países (4,80 e 4,79, respectivamente), enquanto a média geral é praticamente metade dessa quantidade, ficando em 2,43 cartões. Um caso ilustrativo citado no artigo é o zagueiro colombiano Ivan Cordoba que jogava na Inter de Milão durante o período de análise, que nas duas temporadas acumulou 25 cartões amarelos.

Opinião do autor

Primeiramente quero reforçar que os resultados aqui relatados não indicam uma consequência direta de que um jogador nascido em ambiente de violência NECESSARIAMENTE irá se tornar um jogador violento dentro de campo e sim, que jogadores nascidos nesta condição tendem em média a levar mais cartões amarelos. Mas, de maior importância é a discussão de como isso deve ser estudado, analisado e prevenido dentro não somente de clubes, como categorias de base e escolinhas de futebol. Um trabalho psicológico junto a esses atletas é primordial para que tenham maior controle tanto dentro de campo como fora dele. Para minha surpresa, com os dados da amostra os jogadores brasileiros são considerados poucos violentos, em um país com recorde de homicídios por ano. Eu acreditava que a tensão social acabaria refletindo em campo, apesar da ausência de uma guerra civil declarada, porém em um futuro próximo desejo replicar a pesquisa com dados recentes e verificar a evolução. É óbvio que um ato violento precisa ser punido e repudiado por todos, porém um trabalho que previna e trabalhe com indivíduos mais suscetíveis a situações delicadas de violência pode gerar bons resultados tanto dentro de campo, como também para toda a sociedade.

Caso tenha ficado curioso, confira a pesquisa completa e uma matéria que resume bastante o conteúdo da mesma nos links abaixo (ambos estão em inglês):

http://emiguel.econ.berkeley.edu/research/civil-war-exposure-and-violence?fbclid=IwAR1Fl5iwYmnuE5gU439jNJDwkbK8sNub67OcC9zDPRDp4JHTqrcdON3n1F8

https://www.sandiegouniontribune.com/sdut-player-civil-violence-linked-2010jul04-story.html

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Postado por Iago Zanetti Nascido em Taiuva-SP, terra de Mestre Jonas (Santos, Grêmio, Portuguesa, Benfica) e agora residindo em São Paulo, é apaixonado por esportes, em especial o futebol. Formado em economia pela FEAUSP, tenta analisar os números do esporte bretão para tentar desvendar um pouco toda a magia que engloba essa paixão.