Não foi pela “filosofia”: Carille tropeçou nas próprias pernas
4 de novembro de 2019
Categoria: 4-3-3 e Futebol e Nacional

(Foto por MAURO PIMENTEL/AFP via Getty Images)

A goleada do Flamengo sobre o Corinthians por 4 a 1, neste domingo, selou o que parecia inevitável. Sem vencer há oito jogos e com raríssimos bons momentos durante a temporada, Fábio Carille deixou o comando da equipe alvinegra.

O assunto, é claro, repercutiu não só entre a torcida do Timão, mas entre todos que acompanham futebol nacional. E para a grande maioria, a queda veio pelo desgaste da tal filosofia defensiva que deu tantos títulos ao clube nos últimos anos. Mas não foi bem assim.

Os problemas de Carille durante 2019 passaram longe de ser o estilo de jogo. A falta de identidade foi um dos maiores fatores. Acredite: o Corinthians desse ano não tem nada a ver com filosofia que tanto falam do clube.

Em sua era vitoriosa, que passa por Mano Menezes, Tite e o próprio Fábio, em sua primeira passagem, o Timão sempre teve um sistema defensivo organizado, muita triangulação, eficiência e movimentos coordenados no ataque.

Na atual temporada, não passava nem perto disso.

Apesar dos números satisfatórios por um certo período, a defesa sofreu contra boa parte dos adversários, mesmo superpovoada – nas últimas partidas, a primeira linha de marcação a frente de Cássio tinha absurdos seis jogadores.

Com tanta gente atrás, ganhando mais na quantidade no que na organização, o Corinthians não tinha força para atacar. Sobretudo pela deficiência de Ralf na saída de bola e a falta de um meia mais solto – Sornoza podia ser esse cara, mas foi, na maioria das vezes, escalado como uma espécie de volante. Pedrinho, por sua vez, seguiu atuando aberto pela direita.

E aí entra Fábio Carille e a autodepreciação de seu trabalho publicamente. A linha do tempo é deprimente para quem acompanhou tudo.

Primeiro, o comandante mostrou ânimo e ressaltou várias vezes ter o elenco mais equilibrado que já trabalhou em mãos. Segundo ele, a direção trouxe praticamente todos os atletas pedidos. Ficou claro, porém, que ele não soube escolher as peças para sua proposta de jogo – e o próprio mostrou isso, com as tantas indecisões.

Ramiro, muito exaltado pelo técnico, começou como titular por dentro, como volante. Pouco depois, voltou a jogar aberto, onde deu certo no Rio Grande do Sul. O esquema, porém, não pedia alguém com suas características por ali. Foi para o banco.

Sornoza começou como titular na ponta esquerda, função que absolutamente não o beneficia. Aos poucos, foi recuando. Como 10, não teve quase nenhuma chance. Restou ser uma espécie de “terceiro volante”, muitas vezes jogando atrás até mesmo do segundo volante – Júnior Urso, na maioria das vezes.

Pois bem. Poucos meses se passaram, o jogo não se encaixou, não havia time titular definido e o discurso, é claro, mudou. Carille passou a lamentar publicamente o fracasso em negociações com nomes como Rodriguinho, Gabigol e Roger Guedes.

Para piorar, deixou claro que o atual plantel não lhe dava as opções necessárias para o esquema que ele tem em mente. E o que fez? Segui insistindo no esquema, extraindo o mínimo de todos seus atletas.

Carille admitiu que suas peças não serviam para o esquema de jogo. O que ele fez? Manteve o esquema até ser demitido. (Foto por Marcelo Endelli/Getty Images)

As coletivas foram piorando e minando sua confiança – com torcida e, acredito, elenco.

Depois de um passeio do Del Valle em plena Arena Corinthians, jogou a responsabilidade para os garotos Pedrinho e Vital.

Na semana seguinte, a justificativa para usar Gustavo e não Boselli foi a bola aérea defensiva e a capacidade de dar casquinha nos chutões de Cássio. Como se não bastasse, afirmou abertamente que o argentino, mesmo em boa fase, estava abaixo tecnicamente. Outros jogadores, porém, seguiram blindados.

E isso também irritou. Conforme apuração de grandes veículos, algumas peças pouco utilizadas já não tinham mais clima com o treinador por achar seu sistema injusto. Até para quem vê de fora, há muito o que se questionar.

Os critérios pareciam bem diferentes. Quando Gabriel recebeu chances, foi muito bem. Bastou uma partida ruim para ser sacado. Ralf, por outro lado, fez partidas abaixo em sequência, mas ganhou confiança e se manteve intocável. O mesmo para Clayson, de péssima temporada e que ganhou, publicamente, um “voto de confiança” do treinador, que o manteve no time no pior dos momentos – enquanto Janderson pedia passagem.

Com tudo isso acumulado, os resultados passaram a não vir. A demissão parecia clara após derrota vergonhosa para o CSA, com uma das piores atuações recentes do clube. A direção preferiu bancá-lo para o embate contra o líder Flamengo. Desastre anunciado.

Surgiu, porém, a chance de uma nova coletiva. Explicar vários pontos, mostrar humildade. Não aconteceu. Em alguma realidade paralela, o técnico do Corinthians preferiu destacar que “não há inovação” no time de Jorge Jesus, afirmando ter feito coisa parecida em 2017. Parece ainda não saber – ou não aceitar – que precisa evoluir.

Carille dificultou demais o próprio trabalho e pagou o preço. Faltou capacidade de administrar o elenco que ele mesmo montou. Faltaram ideias ofensivas para apresentar um futebol acima do horroroso. Faltou tato na hora de dar suas entrevistas. Faltou humildade.

O problema não foi a filosofia, pois ela nem existiu em 2019. Faltou foi futebol. E muito.

Postado por Andrew Sousa Formando em Jornalismo justamente pela paixão pelo esporte, sente enorme prazer em poder escrever sobre o que ama. Apaixonado por um bom domínio e alguns jogadores ruins, vive o futebol desde o primeiro dos seus vinte anos.