‘Modelo NBA’, categorias de base e empréstimos: as tendências do mercado de transferências pós coronavírus
28 de agosto de 2020
Categoria: 4-3-3 e Futebol

Trocas como a de Arthur por Pjanic deverão ser mais frequentes nas próximas janelas de transferência

Com os efeitos da pandemia de COVID-19, os clubes devem utilizar modelos de negócios menos explorados

Anteriormente chegando a movimentar €7,35 bi apenas em 2019, segundo a FIFA, o mercado de transferências deve passar por um redimensionamento nos próximos meses: menos transferências e menores valores envolvidos, e outras consequências irão testar a criatividade e inteligência dos dirigentes que buscam reforçar suas equipes, ou ao menos não enfraquecê-las.

Por isso surgem alguns modelos de negócio que anteriormente não eram tão explorados, mas que podem se tornar mais frequentes nos noticiários esportivos já a partir desta janela europeia, que vai em grande parte até dia 5 de outubro para as principais ligas, e brasileira, entre outubro e novembro.

Dentre os principais movimentos nesta janela devemos ver mais negociações envolvendo jogadores sem contrato ou por empréstimo, soluções “caseiras” e trocas de jogadores, além de equipes de divisões menores negociando mais atletas, todos estes movimentos explicados abaixo:

Soluções internas: jogadores pouco utilizados e categorias de base

Com menos receitas, os clubes devem recorrer a uma maior utilização de seus jogadores, sejam estes os que já integravam o elenco principal, os que retornam de empréstimo ou vindos das categorias de base.

Na Europa podemos observar mais jogadores que retornam de empréstimo, sejam mais aproveitados em seus clubes, ao invés de sofrerem novos e sucessivos períodos de emprestados. No Manchester United, por exemplo, há a expectativa de que o goleiro Dean Henderson, que fez boa temporada cedido ao Sheffield United, fique no clube e brigue por posição com De Gea. Já no Liverpool, jogadores antes cotados para deixar o clube como Shaquiri, Harry Wilson e Grujic podem não ser negociados, muito por influencia das restrições econômicas causadas pela pandemia, como reporta o jornal Daily Express.

Outra situação são como as de Ozil do Arsenal e Bale do Real Madrid, que podem mais uma vez permanecer em suas equipes, apesar de todas as contestações que sofrem já há algumas temporadas. Se isto ocorrer de fato, a explicação estaria não no cuidado de Gunners e Merengues em utilizá-los com mais frequência, mas sim pela falta de compradores que teriam que arcar com os altos vencimentos dos jogadores em um período de complicações financeiras.

Já as categorias de base podem receber maior atenção, até pela possibilidade de aumentar receitas com a venda destes jogadores, como aponta o estudo da Deloitte:

“Embora os jogadores nutridos nas categorias de base dos clubes possam ter falta de experiência, podem oferecer uma alternativa valiosa nessas circunstâncias únicas e, depois de ganhar experiência de jogo, alguns também podem ser vendidos a preços premium ”.

Principalmente nas equipes sul-americanas este deve ser um movimento maior. No Brasil, Vasco, Palmeiras, Santos e Cruzeiro, são alguns que já sinalizaram que os jovens jogadores terão papel importante em suas equipes, em campo, ou como fonte de receita em futuras negociações.

Da esquerda para a direita, os jogadores Gabriel Veron, Gabriel Menino e Patrick de Paula vêm tendo mais espaço na equipe principal do Palmeiras após se destacarem nas categorias de base (Foto: PDT Verdão)

Jogadores emprestados: empréstimo com opção/obrigação de compra

Segundo relatório da FIFA, 24,1 % das transferências internacionais realizadas em 2019 envolveram empréstimo de jogadores (veja mais no gráfico abaixo). Neste ano, esta proporção pode aumentar por serem negociações de termos flexíveis (duração, valores, cláusulas…), que geralmente não envolvem grande dispêndio de dinheiro, terem curtos prazos de duração (inclusive com opção de extensão), e até por haver a possibilidade dos vencimentos dos atletas serem divididos entre as equipes envolvidas no negócio.

Representando menos de 1/4 das transferências, os empréstimos podem ser uma alternativa mais explorada pelos clubes nas próximas janelas de transferências (fonte: FIFA)

Empréstimos de jogadores pouco utilizados, que já são comuns, podem ser uma oportunidade para as equipes, tanto para a que pretende reduzir sua folha salarial e dar minutagem à seu jogador, como para o clube que não pretende gastar grandes quantias com transações em definitivo.

Outro ponto positivo do empréstimo é que ele pode ser atrelado à uma opção ou obrigação de compra do atleta. Isso alivia o balanço financeiro das equipes compradoras que postergariam o pagamento da maior parte do pagamento, como no caso de Mbappe, contratado pelo Paris Saint-Germain em 2017 inicialmente por empréstimo, para não infringir o fair play financeiro da UEFA.

No futebol brasileiro já vimos indícios, apesar de pontuais, de equipes que utilizaram mais um benefício do empréstimo: a devolução de jogadores antes do prazo estabelecido. Caio Henrique, que estava no Grêmio, retornou ao Atlético de Madrid para ser opção ao Renan Lodi na lateral-esquerda e Iván Angulo, que fez apenas uma partida pelo Cruzeiro, foi chamado de volta ao Palmeiras após o time negociar o atacante Dudu (este também negociado nos moldes empréstimo com opção de compra + bônus).

Trocas

Já para o, diretor esportivo da Juventus, Fabio Paratici, o futebol pode “importar” negociações de troca, muito frequentes na NBA:

“Haverá muitas trocas, uma situação que aproximará o futebol da NBA. É provável que alguns clubes, por exemplo na Alemanha, se beneficiem da situação geral de crise devido a uma economia mais forte do que em outros países”, declarou à TuttoSport

Assim como no escambo antigo, as trocas entre jogadores oferece aos clubes pouco ou nenhum gasto monetário. Se uma parte julgar que o valor dos jogadores envolvidos não se equivale, pode haver uma compensação financeira (jogador + quantia em dinheiro). Recentemente Barcelona e Juventus utilizaram deste meio para protagonizar uma “troca” entre Arthur e Pjanic. As aspas são porque, para fins contábeis (um interessante tema para um próximo texto), ambas as equipes compraram os atletas em negociações independentes.

Mais um exercício de imaginação, do que uma observação do mercado, até trocas triplas poderiam ocorrer em casos específicos. Para mostrar que este modelo não seria tão absurdo, vamos voltar à janeiro de 2018. Na época, após vender o atacante Diego Costa no início do mês, o Chelsea acertou,no último dia da janela, a contratação de Olivier Giroud do Arsenal. O Arsenal, então, trouxe o gabonês Pierre-Emerick Aubameyang do Borussia Dortmund, que por sua vez se acertou com Michy Batshuayi que veio por empréstimo… do Chelsea!

Charge representa o “ciclo fechado” de transferências envolvendo entre Chelsea, Arsenal e Dortmund (fonte: Zezo Cartoons)

Apesar de terem sidas transações separadas, esta espécie de “efeito borboleta” poderia acontecer, mas são pouco prováveis, já que por definição, os três clubes deveriam ter interesse nos jogadores rivais e ainda teriam que chegar à um acordo em relação ao termos contratuais, algo raro, não impossível. Na NBA, citada por Paratici, por exemplo, neste ano houve uma troca quádrupla envolvendo Houston Rockets, Minnesota Timberwolves, Atlanta Hawks, Denver Nuggets e 12 jogadores, a maior dos últimos 20 anos. Mas trocas tão abrangentes quanto esta já seriam demais para serem plausíveis no mundo do futebol.

Jogadores sem clube

O movimento mais evidente desta janela, a contratação de jogadores sem clube, também representa uma diminuição de custos para qualquer uma das partes, dependendo do caso. Por definição, um jogador profissional pode ficar sem contrato por três motivos: por ter expirado, ser terminado unilateralmente ou por haver uma acordo de rescisão mútua entre as partes.

Enquanto os clubes compradores observam a vantagem de poder negociar diretamente com o jogador e não ter de comprar seu passe diretamente com o clube detentor de seus direitos, um clube que rescinde com seu funcionário enxugará sua folha salarial.

O primeiro motivo, o mais comum, será objeto de observação por vários clubes europeus que vêem nomes como Thiago Silva, Cavani, David Silva, Vertonghen, Gotze e Willian terem seus vínculos encerrados com suas ex-equipes. Os dois brasileiros já se acertaram com novos clubes – Thiago no Chelsea e Willian no Arsenal, enquanto David Silva fechou com a Real Sociedad e Vertonghen foi para o Benfica.

Já as rescisões contratuais devem fazer mais parte do futebol nacional, como nos casos de e Mariano que se acertaram com Corinthians e Atlético Mineiro, após se desligarem de seus clubes. Já Éverson, que entraram na justiça contra o Santos, alegando entre outras coisas, falta de pagamento de salários, é sondado pelo Atlético Mineiro, que também sonda a situação de Hulk, que terá seu contrato encerrado com o Shanghai SIPG em dezembro.

Equipes menores negociando atletas

Por fim, com efeito mais disseminado, poderemos ver vários clubes negociando seus melhores atletas à preços menores e condições piores (ex: em mais parcelas, menos porcentagem em caso de revenda, etc.) que antes da parada. Isso ocorre pela diminuição no poder de barganha(menor condição de reivindicar boas condições em um negócio) de clubes vendedores que ficarão à mercê de equipes com maior poder financeiro, situação replicável em diferentes escalas. Vamos à um exemplo:

Um clube europeu de “grande porte” — como Liverpool, Barcelona, PSG, Bayern, etc. —  terá maior chance de negociar boas condições com clubes de “médio porte” — como Valencia, Porto, Genk, etc. —  que por sua vez, farão valer dessa mesma ferramenta na mesa de negociações com equipes “menores” —  como Eibar, Ausburg, Metz, etc. —  e assim por diante, inclusive no futebol brasileiro.

Theodoro Montoto
Postado por Theodoro Montoto Paulistano de 21 anos, estudante de administração da FAAP-SP que acredita que se a arte imita a vida, viver o futebol seria um bom ponto de partida para começarmos a entender ambas as coisas. Escrevo sobre gestão e marketing esportivo no futebol