Modão Caipira #72 – Afinal, quem pensou no XV?
27 de julho de 2020
Categoria: 4-3-3

 

“Cometer uma ingratidão intencional significa cravar um punhal na alma de quem lhe ama.”

Assim se sente o torcedor piracicabano que assustado acompanhou as notícias da troca do comando técnico do time, na fase derradeira do principal objetivo do clube no ano.

23 de julho foi a data em que foi aprovado o Protocolo de Readaptação Física e de Retomada Gradual dos Treinamentos pela Federação Paulista de Futebol. Depois de 4 meses sem futebol na A2 do Paulista, os times voltam a treinar em um momento em que o estado de São Paulo não tem queda na curva de contágio e mortes pelo Covid-19. Piracicaba continua na fase vermelha do Plano SP, porém o XV teve aprovação pra voltar aos treinos nesta sexta feira.

De negativo só a situação sanitária na cidade e os teste dos jogadores? Não. A rescisão do contrato do treinador Tarcísio Pugliese foi uma bomba e o que seguiu foram decisões polêmicas e até declarações absurdas do presidente XVzista.

Alegando problemas financeiros e a indefinição do calendário, em uma reunião virtual o treinador Pugliese ouviu do manda-chuva que seu contrato seria encerrado, após tentativas de negociações sobre o salário do treinador. Situação que estava pendente desde o começo da quarentena.

O time com o maior orçamento da A2, que semanas atrás realizou a maior venda de sua história – o goleiro Mateus Pasinato foi contratado em definitivo pelo Moirerense de Portugal por R$1,3 milhão e ainda segurou 20% do passe do arqueiro, alegava para o treinador que não havia condições de acertar o seu salário, por conta do cenário da pandemia.

Na fase derradeira do campeonato, onde faltam 3 rodadas pro fim da fase classificatória, um ponto separa o XV de Piracicaba (5°) do São Bento (9°) – primeiro time fora da zona de classificação. Tarcísio, apesar de contar com grande aprovação da torcida, nunca foi unanimidade dentro do conselho do clube. Os cardeais do conselho consideram o treinador “pé frio” e o culpam  pela derrota nos pênaltis nas quartas da A2 de 2019 e pelo vice da Copa Paulista do mesmo ano.

Com um trabalho cada vez mais maduro, Pugliese é ejetado do cargo de treinador do XV de maneira repentina. Foto: Carlos Velardi/EPTV

Quebrando o estigma de time fazendeiro, Pugliese fazia o XV jogar um pouco diferente do habitual. Os saudosos dos tempos de bola pro mato e chuveirinho na área estranhavam aquele time que tentava controlar o jogo pela posse de bola e buscava o espaço nas costas da defesa adversaria. Mas sofria com apagões e gols no final dos jogos. Um desses custando o titulo da Copa Paulista e a sonhada vaga pra Série D do Brasileirão.

Para o ano de 2020, Pugliese foi ao mercado e buscou nomes interessantes pra garantir o acesso no Paulistão. Montou um time mais técnico e com mais força física. Um meio campo onde Daniel Costa funciona como o regente das ações ofensivas e um perigo constante na bola parada. Salvo o começo conturbado, a tendência era de subida no desempenho, e com um time mais seguro defensivamente, foi buscando suas vitórias em bolas paradas e chutes de fora da área. Conseguindo resultados importantes como a vitória na Rua Javari contra o Juventus, uma virada em cima do Red Bull Brasil e 1×0 no quentíssimo jogo contra a Portuguesa Santista.

No momento em que a cidade fazia campanha virtual e por meio de faixas espalhadas pela cidade, o presidente Arnaldo Bortoletto declarou:

“Quem define o jogo são os atletas que estão lá dentro. É só dar onze camisas, que eles vão definir. Quem decide são os jogadores e não o treinador”

Na sequência ainda tinha deixado em aberto a absurda opção de levar o resto da A2 com o 3° goleiro assumindo a função de treinador. Arnaldo começa a nos fazer questionar se o problema dos recentes fracassos do time era realmente do treinador que ele tanto insistiu em queimar. Chega a ser cômico um time com as pretensões do Nhô Quim ser gerido por alguém que dá uma declaração dessa.

A diretoria de futebol, que se mostrou contra a demissão de Tarcísio, buscou Evaristo Piza, que estava no Botafogo/PB. E que já carrega em seu currículo uma boa passagem pelo time piracicabano. Em seu caminho Evaristo encontrará o líder da fase de classificação e os dois times que se encontram na zona de descenso. Pra coroar a situação, Piza perdeu o zagueiro Gilberto Alemão – capitão e líder do elenco. Desconfortável com a decisão da diretoria, o zagueiro que recém tinha renovado o seu contrato até o fim da A2, aceitou a proposta do Remo e desfalcará o Nhô Quim.

Evaristo Piza em sua primeira passagem pelo XV: 39 jogos, com 19 vitórias, 11 empates e nove derrotas (aproveitamento de 58,2%). Agora tem 5 jogos pra buscar o sonhado acesso. Foto: Marcos Ribolli

Como Arnaldo fará para pagar os vencimentos de Piza, que são maiores que de Pugliese, é uma duvida que paira na cidade. Mas há uma certeza: o egoísmo de um homem que acha que é maior que o centenário time, complicou um trabalho sólido que vinha sendo feito a mais de um ano. A ingratidão em chutar um treinador que negou uma vaga do lado de seu amigo Tiago Nunes no Corinthians e fez história levando o time pra uma segunda fase na Copa do Brasil – perdendo a classificação nos pênaltis, mancha muito mais o nome do XV de Piracicaba do que o de Arnaldo Bortoletto, que no fim do ano enfiará sua viola no saco e dará adeus ao cargo que provou nunca ter a altivez necessária a possuir.

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Postado por Caíque Andrade Estudante de jornalismo, corneta e alguém que sofre pra escrever em 280 caracteres