Modão Caipira #69 – “Já que tá que fique”: XV de Piracicaba volta às competições nacionais
5 de novembro de 2019

(Foto: Elcio Fabretti/XV de Piracicaba)

Na abafadíssima noite de finados em Piracicaba, 10.270 pessoas lotaram o estádio Barão da Serra Negra na esperança do XV de Piracicaba confirmar o bom resultado em Mirassol e garantir a vaga na final da Copa Paulista.
E com gol de Gilberto Alemão de cabeça, aos 27 do primeiro tempo, a classificação a final veio.

Agora em sua terceira final de Copa Paulista da história e com o planejamento visando a reformulada Série D 2020 o Nhô Quim tem 180 minutos contra o São Caetano pra buscar o bicampeonato da competição. Mas o importante é a volta de Piracicaba ao cenário nacional de competições, pois mesmo não levando a taça o XV terá a opção de jogar a Copa do Brasil – que caso se dê bem no sorteio poderá se aproveitar da generosa premiação ao passar de fases na competição.

Após grande reestruturação em 2008, o XV de Piracicaba vem galgando novamente seu espaço dentre os times do interior paulista, os acessos consecutivos que fizeram o time pular da terceira divisão estadual para a primeira em dois anos no começo da década já os destacava como uma equipe de futuro. Mas em Piracicaba existe uma lenda que o Nhô Quim é um time amaldiçoado, pois o Barão da Serra Negra foi construído em um terreno onde já foi um cemitério.

Essa lenda ainda é reforçada pois na grande maioria das decisões em casa o XV fracassa, seja por azar ou por falta de competência. As vezes o azar ocorre de outras maneiras como em 2016, ano de seu rebaixamento para a A2 do Campeonato Paulista – ano que 6 times caíram pra poder ajustar o calendário com menos times visando a Copa de 2018 que estrangularia as datas do estadual. Com a 17° melhor campanha no geral e não sendo o último colocado do seu grupo, mesmo assim o time piracicabano foi limado da primeira divisão. Coisas que acontecem com o XV. Mas na segunda parte da temporada o time supera o baque e levanta a inédita taça da Copa Paulista.

Escolhendo a Série D pra disputar em 2017, o Nhô Quim voltaria à disputar o Campeonato Brasileiro após 14 anos fora. Com a contratação de Márcio Fernandes – conhecido como “Rei do Acesso” – e manutenção do time campeão da Copa Paulista o clima na cidade era o melhor possível, até mesmo o torcedor mais calejado com o recorrente azar do time estava esperançoso quando saiu o sorteio do grupo – que colocou São Paulo (RS), Brusque (SC) e Operário (PR) no caminho da equipe

Mas o XV sofreria novamente com seu azar, apesar da boa vitória na estreia contra o São Paulo do Rio Grande do Sul, descobrira da pior forma que seu grupo não era um dos mais fáceis – jogaria contra o futuro campeão da Série D – e perderia os dois jogos para o Operário. Também perderia o seu jogo fora contra o Brusque – campeão da Série D 2019 – terminando o seu grupo com nove pontos após uma espetacular vitoria por 4×3 no estádio do São Paulo (RS), mas com a vitória do Brusque sobre o Operário o Nhô Quim dava adeus a sua jornada pela quarta divisão nacional.

Após um 2018 difícil com o quase rebaixamento para a A3 e péssima campanha na Copa Paulista, 2019 chegou e após bater na trave o acesso pra A1 em 2020, o clima na cidade era que a Copa Paulista serie levada “nas coxas”, mas o time de Tarcísio Pugliese emendou ótima campanha e hoje com justiça volta à figurar no calendário nacional.

Dessa vez não teve azar para tirar a vaga do XV (Foto: Elcio Fabretti/XV de Piracicaba)

O futebol tem fama de não ser justo – ainda mais com o XV que já viu muitas vezes suas vitórias escaparem nos acréscimos do segundo tempo, seu melhor jogador se machucar no aquecimento da final ou seu zagueiro artilheiro perder o pênalti derradeiro. Mas dessa vez, fez-se a justiça com o time alvinegro de Piracicaba. A torcida que mesmo calejada com suas “Quinzadas” apoia financeiramente o time – pagando 1 Real a mais na conta de água – viu o time ironicamente num dia de finados vencer uma decisão em casa. Tem em seu futuro uma Série D reformulada onde haverá mais calendário ao time piracicabano ou uma Copa do Brasil com premiações milionárias à cada fase avançada.

Muitas vezes lembrando seu mascote – o caipira Nhô Quim – um time turrão e rústico, que joga com seus dois zagueiros dando bico pra todo lado, volantes de pegada e com dois atacantes – um rápido e um alto e forte – mas que também é malicioso e esperto, abusando de bolas paradas com jogadas ensaiadas e sabendo cozinhar um jogo quando tem a vantagem. Time que é simbolo da cultura caipira e o com o hino popular mais simpático do Brasil. Vai ecoar novamente Brasil afora: “viemo numa kombi véia, sem óio de breque, de orc de raibã” sua apaixonada torcida que espera gritar no ano que vem “carcanhá de bode, tocera de grama, já que tá que fique.” no radar do futebol nacional.

Postado por Caíque Andrade 23 anos, dividido entre a ciência exata da química e o esporte mais imprevisível do mundo.