MODÃO CAIPIRA #52 – Rompendo barreiras e se apresentando ao mundo
7 de agosto de 2017
Categoria: Modão Caipira

Foto: Historias do XV

 

O ano de 1964 foi um dos mais intensos da história do XV de Piracicaba, pois nessa temporada o clube fez uma excursão passando por sete diferentes nações, entre América do Sul, Europa e Ásia. Na época, poucas equipes haviam feito esse tipo de viagem para disputar amistosos contra equipes de outros países, e o Nhô Quim foi o pioneiro entre os clubes do interior paulista. O XV jogou contra clubes que eram atuais campeões nacionais, enfrentou selecionados regionais e até a seleção que era atual campeã da Eurocopa: a União Soviética, de Lev Yashin.

A primeira viagem aconteceu em fevereiro, quando a delegação quinzista desembarcou em La Paz, na Bolívia. Eram 15 jogadores, o técnico, três diretores, um jornalista e um médico que formavam a delegação do time piracicabano. As duas primeiras partidas da equipe no país sul-americano foram contra o Bolívar. Contando com a dificuldade de jogar na altitude de mais de 3.500 metros, conseguiu um empate por 2 a 2 e uma vitória por 3 a 1 contra o tradicional clube boliviano. O destaque destas partidas foi o atacante Ladeira, que fez os dois gols no primeiro jogo e ainda anotou um dos tentos na segunda partida, que contou ainda com gols de Valdir e Varner. Este último ainda viria a ser destaque na segunda parte da viagem do time.

Presidente Rípoli entregando um presente ao presidente da Bolívia, na chegada do XV ao país sul-americano

Pra se despedir da Bolívia, enfrentou o Aurora FC, em Cochabamba. Em jogo que ficou conhecido por uma arbitragem extremamente confusa, o XV foi derrotado por 1 a 0, tendo um atleta expulso e, segundo relatos, a partida foi encerrada 13 minutos antes do tempo regulamentar, sem que a equipe de arbitragem desse qualquer tipo de explicação. Mesmo assim, num geral, os resultados da primeira parte da viagem foram bastante satisfatórios para o time de Piracicaba.

Cerca de dois meses depois, a equipe fez a segunda parte de seu tour pelo mundo, agora conhecendo países europeus e asiáticos. A primeira parada foi na União Soviética, onde disputou seis partidas.

O primeiro jogo foi contra o Pakhtakov, da cidade de Tashkent, atual capital do Uzbequistão. Num frio que não era comum para os jogadores brasileiros, com temperatura próxima de 0ºC, a equipe do XV foi derrotada por 1 a 0. Depois, o clube desembarcou em Alma Ata, atual capital do Cazaquistão, para enfrentar o FC Kairat Almaty. No placar, 3 a 1 pros anfitriões e mais uma derrota na bagagem quinzista.

A terceira partida foi realizada em Moscou, com certeza foi a partida mais marcante daquela viagem e uma das mais marcantes da história do clube de Piracicaba: enfrentou a seleção da União Soviética. Sim, a mesma seleção que era atual campeã da Eurocopa, que viria a ser vice-campeã da mesma competição alguns meses depois, e contava com um dos maiores goleiros de todos tempos, Lev Yashin, também conhecido como “Aranha Negra”. Apesar de toda a diferença óbvia de qualidade entre as equipes, onde qualquer um que fosse palpitar com certeza colocaria uma goleada como resultado provável, o resultado foi de 2 a 0 para a seleção soviética. Ninguém foi capaz de vazar o Aranha Negra, mas um dos fatos mais interessantes da partida é a presença de torcida a favor do clube brasileiro. Eram em torno de 20 pessoas, alguns estudantes que moravam em Moscou e membros do Partido Comunista do Brasil. Um deles era o escritor gaúcho Sérgio Faraco, que retrata algumas passagens sobre a partida em seu livro “Lágrimas na Chuva”.

Chegada da delegação XVzista na Europa (Imagem: A história do XV: Parte II – Delphim F. Rocha Netto)

Depois da grandiosa partida em Moscou, a delegação comandada pelo icônico presidente Romeu Ítalo Rípoli seguiu para Kichinev, para enfrentar mais uma seleção, dessa vez a da Moldávia. Acumulou mais uma derrota, dessa vez por 4 a 2. Depois, foi até Krasnodar para enfrentar o Spartack e perder por 3 a 1. O goleiro Orlando, em entrevista publicada pelo site da ESPN, disse que o frio inesperado e desconhecido até então era um dos principais culpados pelos resultados ruins, dizendo que “não estávamos preparados para lá, ficamos totalmente congelados. Até esquentar, já estava 2×0 pro adversário”.

Na Ucrânia, finalmente foi quebrada a série de derrotas. A última partida da equipe em solo soviético terminou em 0 a 0 contra o Tchernomoretz, na cidade de Odesa.

Saindo da União Soviética, a próxima parada foi na Polônia, onde disputou três partidas e empatou todas. As duas primeiras foram contra a seleção polonesa, uma em Katovich e outra em Bydgoszcz. A forte seleção polonesa, que oito anos depois viria a ser campeã das Olimpíadas de Munique, empatou a primeira partida com o XV pelo placar de 1×1, com gol de Varner para os brasileiros. No segundo confronto, um empate por 0x0.

A última partida em solo polonês foi contra a seleção do estado da Pomerânia, em Szczecin. E novamente o placar não teve mudanças, fazendo com que o Nhô Quim saísse invicto da Polônia. A delegação continuou sua viagem, parando na Dinamarca, onde disputou apenas uma partida, na cidade de Copenhague. O jogo foi contra um combinado de jogadores, denominado Danish-Staevenet, que venceu o time brasileiro por 2 a 0.

Depois de ter sua série invicta quebrada, foi a vez de desembarcar na Alemanha Oriental, onde enfrentou importantes equipes locais. Na primeira partida, em Leipzig, enfrentou o B.S. Chemie, que viria a ser campeão local naquele ano. O clube anfitrião venceu por 4 a 1. O segundo embate em solo alemão foi contra o Motor Jena, em Berlim, clube que era campeão da liga local do ano anterior. Mesmo assim, o XV não se intimidou e conquistou sua primeira vitória na Europa, pelo placar de 2 a 1. A última partida na parte oriental da Alemanha foi uma derrota por 3 a 1 para o Wismuth, em Aue.

Passando para o lado ocidental do território alemão, o XV disputou mais três partidas, dessa vez enfrentando equipes tradicionais e que têm destaque até hoje nas primeiras divisões do campeonato germânico. Primeiro, enfrentou o Karlsruher, e foi derrotado por 3 a 0. Depois, foi até Hannover para enfrentar a tradicionalíssima equipe local, e acabou perdendo por 2×0. Para finalizar sua passagem por território alemão, foi até Munique, enfrentar o Munchen 1860, vice-campeão local na temporada anterior. Mesmo com a força de seu adversário, o clube brasileiro se despediu da Alemanha com  uma vitória por 2 a 0.

O último país visitado pelo XV foi a Suécia, onde deixou sua marca de forma positiva, saindo com três vitórias e um empate, nos quatro jogos que disputou nas terras de Zlatan Ibrahimovic. O primeiro confronto foi contra o Gaevle IF, e o resultado foi um impressionante 5 a 5. Depois, foi até Ostersund para enfrentar o IKF, e goleou por 8 a 2, no placar mais elástico aplicado pelo clube em toda a viagem. A terceira partida foi contra a Seleção do Norte do país nórdico, e o Nhô Quim venceu novamente, dessa vez por 4 a 1.

A última partida realizada na longa viagem foi contra o Garker, na cidade de Harvick, e o time de Piracicaba se despediu em grande estilo, aplicando mais uma goleada, dessa vez por 5 a 0. Foi a última aparição em solo europeu, e deixou uma ótima impressão daquele time caipira nos frios países europeus.

O primeiro clube brasileiro a romper a cortina de ferro soviética, o primeiro clube do interior paulista a excursionar pela Europa, o clube que venceu campeões nacionais europeus e jogou contra seleções importantes do velho continente. Essas são algumas das importantes conquistas do XV de Novembro de Piracicaba no ano de 1964, em excursão dirigida pelo folclórico presidente Romeu Ítalo Rípoli, sem dúvida nenhuma uma das mais importantes figuras do futebol piracicabano.

Postado por Leonardo Tudela Del Mastre Natural de Sorocaba-SP, amante do futebol do interior paulista e torcedor de São Bento e Corinthians. Além do amor pelo interior, viciado no futebol como um todo. Formado em Processos Gerenciais pelo IFRS.