Meu querido rádio
28 de janeiro de 2020
Categoria: 4-3-3

(Foto por ANDREAS SOLARO/AFP via Getty Images)

A cena repetia-se todas as quartas e quintas-feiras, às vezes, também aos sábados e domingos. Nestes dias, com um radiozinho cinza em mãos que ganhara há pouco tempo de meu pai, corria para a cama superior da beliche que dividia com meu irmão e sintonizava na transmissão futebolística. Era de lá que eu começava a ouvir o sagrado pré-jogo e a conferir as escalações para a partida. 

Naquele tempo — nem tão distante de nós assim — não existiam smartphones com placares ao vivo dos jogos e os alarmes de gols que hoje se popularizaram. Para quem dispunha de internet banda larga em casa, era possível acompanhar as transmissões boleiras com mais detalhes. Não era meu caso. Afinal, não tinha internet instalada nem interesse em abrir mão das imaginações futebolísticas que o rádio me proporcionava. TV a cabo? Ainda nem cogitava ter. 

A cada grito silabado de “deeeee-fen-deeeeu Marcos!”, minha mente já criava a imagem da intercessão divina que espalmou a bola para a linha de fundo. Era tudo muito real. Me sentia na arquibancada do antigo Palestra Itália.

Volta e meia tento racionalizar e tentar entender as razões que me fizeram ficar tão apaixonado pelo sagrado radiozinho. A primeira delas, mais óbvia, era a falta de outros recursos para acompanhar os jogos. Mas não era só isso. A narração intensa da partida, o clima descontraído na cabine de transmissão, e o fato de eu não ver o que estava acontecendo, contribuíam diretamente para meu encantamento. “Partiu pela ponta esquerda, driblou dois jogadores de uma só vez, cortou para dentro e bateu! Pra fooooooooora!”. Como havia sido o drible? O quão longe a bola foi do gol? Havia um companheiro em melhor posição para receber um passe? Algumas destas questões só seriam respondidas no outro dia pela manhã, durante a exibição dos melhores momentos da partida no primeiro telejornal. 

(Foto por Buda Mendes/Getty Images)

Apesar de tanto envolvimento durante anos, é estranho — e até triste — pensar em como meu distanciamento do rádio aconteceu tão rapidamente. Talvez pelo meu acesso às transmissões televisivas, antes raro, ou até pela popularização dos smartphones e o contato com a internet, também incomum outrora, me vi longe das narrações radiofônicas por um tempo. Hoje, ao lembrar do que senti durante aqueles momentos, esbarrei na relativa tranquilidade que a vida me proporcionava. Eram tempos mais tranquilos, ao menos na cabeça de uma criança de dez anos. Bons tempos em que não conhecia tantos termos e siglas. STF, TRJ, MPF, Refis, Selic? Melhor ainda era desconhecer a aplicação da até então confusa sopa de letrinhas. Bons eram os tempos em que eu não sentia medo do porvir. Que não temia o desgaste da tal democracia. Aliás, qual era o significado mesmo deste palavrão?  

A única certeza que hoje consigo elencar de tudo isso é que o rádio, em essência, é um captador e transmissor de emoções. Talvez por conceber isso é que ele tanto me atraiu quando mais jovem. Muita emoção para quem estava apaixonado pelo mundo — e por muita bola na rede.

Em janeiro de 2020, data em que redijo estas linhas, considero que já chegou a hora de ficar mais próximo do que tanto me deu. Não acompanharei mais os jogos de meu time por meio daquele radiozinho cinza e com antena, é verdade; agora, será por meio de aplicativos de celular e também dividirei minha atenção com a TV. Mas tentarei estar mais próximo, seja das transmissões radiofônicas ou do tempo em que tudo parecia mais pacífico.  

Postado por Rudiney Freitas Estudante de Jornalismo apaixonado por esportes, em especial pela mais imperfeita perfeição criada pelo homem, o futebol. Procura entendê-lo também como fenômeno social e nega até a morte que tudo “é só um jogo”. Twitter: @rud1ney