MEMÓRIA FC #38 – O presidente da Argentina e uma história xeneize
18 de setembro de 2019

 

Mauricio Macri, 60 anos, atual presidente da Argentina, candidato à reeleição neste ano. Boca Juniors, o time mais popular do país hermano e um dos times mais vencedores do continente. Por 12 anos, falar de um era, praticamente, falar de outro.

Todos devem lembrar, ou ao menos conhecer, a máquina de vitórias que o Boca construiu do final do século passado até o começo deste milênio. Um time que assombrou diversos esquadrões brasileiros, enfileirando goleadas por onde passava e sendo absoluto até mesmo contra os europeus (Real Madrid que o diga). Pois bem, o presidente do clube xeneize nesta época era ninguém mais ninguém menos que Macri, o atual presidente da Argentina.

Macri vem de família italiana, nasceu em condições bem confortáveis de vida, estudando nos EUA e construindo carreira empresarial nas companhias da família, se tornando presidente da Sevel, empresa automobilística local. Sempre foi um torcedor “boquense” ferrenho, mas seu envolvimento com o esporte começa efetivamente em 1995, quando se elege presidente do seu clube do coração (com apenas 35 anos) e emenda o período mais vitorioso da história do Boca. Ao todo, foram 17 (!) títulos, com os mais importantes sendo: 2 Mundiais, 4 Libertadores, 6 Campeonatos Argentinos e 2 Copas Sulamericanas. Essa quantidade (e relevância) de troféus é tão absurda, que, paralelamente falando, um clube brasileiro com esses campeonatos seria facilmente um dos maiores times do nosso país.

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Um tal de Palermo.

Além dos resultados em campo, Macri também deu atenção ao desenvolvimento da estrutura do Boca. Realizou uma significativa reforma no La Bombonera em 1996, com novas centrais de comunicação, segmentação de setores, aumento de capacidade e até uma nova fachada. Reduziu gastos de diversas maneiras e investiu no marketing, com a intenção de atrair capital para o clube por meio de patrocínios e afins. Foi no mandato do Mauricio também a criação do Museu do Boca Juniors, em 2001.

No futebol de base veio o que talvez seja a mais significativa medida da era Macri em Buenos Aires: o investimento nas canteras boquenses. Foi no seu período como presidente que o clube formou jogadores como Riquelme, Tévez, Battaglia, Gago e Burdisso, por exemplo. Mantendo por um bom tempo grande parte dos formados no time principal, algo primordial para um clube que busca a evolução.

Claro que nem tudo são flores, o mandatário teve alguns desafetos relevantes nesse longo período de presidência. Com Maradona, por exemplo, são diversas farpas que perduram até hoje, polêmicas que vão desde ideologia política até críticas pessoais à família Macri e ao dinheiro que acumulam. Já Marcelo Delgado e Bermudez, dois dos principais jogadores do Boca na época, denunciaram ocasiões em que o mandatário teria sido corrupto (alguns anos depois), ele sequer falou sobre. Mauricio também teve problemas com Riquelme e Carlos Bianchi, embora tenha retomado relações com os mesmos anos depois.

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Macri teve problemas no comando do clube.

Também houveram algumas medidas um tanto elitistas que foram tomadas nesta era. Macri, por exemplo, passou uma emenda que só permitiria a candidatura à presidência do Boca de sócios que tivessem um patrimônio igual ou maior ao valor que corresponde a 30% do patrimônio do clube. Ele também não respeitou o estatuto boquense, (que ele mesmo havia mudado) que previa apenas uma reeleição, já que se reelegeu por duas vezes.

A relação com a principal torcida organizada do time (a La 12) era nebulosa. No livro “La Doce”, de Gustavo Grabia, que conta a história da torcida desde a sua fundação, é mencionada a ligação entre Mauricio e a T.O. O então presidente mantinha vínculos próximos com Rafa Di Zeo, um dos chefes da torcida e famoso no país pelas atividades ilegais, com passagens pela polícia. A era Macri foi o período em que a La 12 mais cresceu.

Em 2005, Mauricio foi eleito deputado federal por Buenos Aires, em 2007 foi o escolhido do povo para a prefeitura da capital da Argentina, sendo obrigado por lei a deixar o comando do Boca, coisa que só foi feita em definitivo no ano de 2008. Tempos depois, Macri passaria a ser conhecido no mundo inteiro como presidente da Argentina. No Boca, ainda exerce uma grande influência política, já que o clube atualmente tem como presidente um “apadrinhado” do ex mandatário, Daniel Angelici. Então, é normal que ocasionalmente haja alguma notícia que relacione Macri ao Boca, como no incidente com o gás de pimenta arremessado pela torcida boquense nos jogadores do River, na Libertadores de 2015. Macri tentou articular uma punição mais branda para o clube azul e amarelo, sem sucesso.

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Influência e articulações, o marco da politicagem.

Com toda certeza o sucesso esportivo com o clube mais popular do país alavancou a carreira política do Macri, sem toda essa história com a torcida e as fortes relações com as organizadas, o atual chefe de estado da Argentina, herdeiro de família rica e milionário, jamais conseguiria o contato necessário com os mais necessitados para uma eleição deste calibre. Pra quem acha que política e futebol não se misturam, este é um ótimo estudo de caso para uma mudança de opinião.

Postado por Renan Castro 23 anos, administrador, torcedor do Flamengo, natural de Nova Iguaçu - RJ, fã de aviação e dono de três quadros: Vestindo o Futebol, Ícones Alternativos e Memória FC.