MEMÓRIA FC #18 – Futebol, o estopim de uma guerra
23 de abril de 2016
Categoria: 4-3-3 e Memória FC

O futebol já se provou ser muito mais que apenas um esporte, mas as vezes eu ainda consigo me surpreender com certas coisas que já tiveram como pivô nosso tão amado futebol.

Já vimos um jogo da Costa do Marfim de Drogba parar a guerra, já vimos a seleção brasileira ser alento a uma população praticamente miserável quando jogamos contra o Haiti, são tantas coisas lindas que esse sentimento mútuo pela plenitude do esporte nos proporciona, que poderia ficar aqui o dia inteiro apenas citando episódios onde o futebol foi motivo de um sorriso sincero de pessoas que passam por dificuldades.

Mas quando ocorre o inverso, pode ser o estopim de algo macabro.

A paixão pelo futebol é tão grande que eu particularmente não posso acreditar em nenhuma explicação científica quanto a isso. O futebol faz sorrir, faz chorar, faz pular, faz vibrar, e infelizmente, faz matar.

Década de 60, América Latina. El Salvador começa a crescer economicamente e em meio a trancos e barrancos, o crescimento vai se tornando desordenado e sai do controle. A população salvadorenha começa a ficar exagerada, visto que o território que ocupam é um espaço de terra bastante pequeno para uma nação que se proliferava com rapidez. O atraso de uma regulamentação agrária mais rígida começa a incomodar a população do país latino, aliado a isso com o excesso de mão de obra, nativos começam a deixar o país, rumo à vizinha Honduras.

Já do outro lado da fronteira, inicialmente os hondurenhos não se atentaram a grande migração vinda de El Salvador, infelizmente quem percebeu antes foram as grandes empresas multinacionais e até algumas nacionais, que visualizaram a oportunidade de contratar uma mão de obra mais barata, para fazer o mesmo que o hondurenho fazia, e isso foi aos poucos tirando o emprego do cidadão nativo, que aí sim percebeu os efeitos da migração salvadorenha em seu território.

Com o passar do tempo o panorama, antes ruim, ficou terrível. Em 1962 uma mudança na lei agrária estabelece que apenas hondurenhos poderiam trabalhar e se aproveitar das terras que a eles pertenciam, quem não fosse nascido no país, ou quem não tivesse a comprovação da sua nacionalidade, estaria sujeito à expulsão da nação, um absurdo.

As coisas passaram a ficar feias entre os dois países, só faltava o estopim.

Em 1963 veio o golpe militar em Honduras, cai o presidente Morales e assume o Coronel Arellano. A partir daí, começa uma rejeição xenófoba por parte da grande massa da população hondurenha para com os salvadorenhos, encorajada pela mídia que tratava os estrangeiros como grande causa da crise política-social que o país vivia. Começam a expulsar salvadorenhos a força, na base da violência e da tortura, chegaram a cometer assassinatos contra os mesmos, a Mancha Brava era a “polícia da tortura” do governo e era quem cometia tais atrocidades, tivemos algo parecido com esse grupo por aqui, alguns vão pescar esse recado.

Depois de alguns anos com salvadorenhos sendo perseguidos pela população e pelo governo, já estava no script que uma guerra entre os dois países tinha passado de verde para madura. Só precisava de um estopim.

A chance veio nas eliminatórias para a copa no México de 1970. Honduras e El Salvador, por ironia do destino, teriam que se enfrentar em um mata-mata para ver quem avançaria adiante para a final, na busca pela chance de participar de uma Copa do Mundo.

A partida que valia muito mais que uma vaga na Copa do Mundo. Era, de fato, uma guerra.

No dia 8 de maio de 1969 foi realizado o primeiro jogo do embate entre os dois países, agora rivais. Na véspera, foi registrado uma série de eventos nos arredores do hotel no qual ficou a delegação salvadorenha, já que o jogo foi na capital de Honduras, Tegucigalpa. Foguetes, pedras nas janelas dos quartos, tambores e cânticos de guerra fizeram parte da longa noite da equipe de El Salvador.

Se tratando do jogo em si, foi um duelo bastante parelho e cheio de equilíbrio entre as equipes, porém El Salvador tomou um golpe mortal do jogador hondurenho Roberto Cardona, que com seu gol, garantiu a vitória de Honduras pelo placar mínimo em casa. A derrota foi difícil de digerir, mas ficou ainda pior quando em El Salvador, Amélia Bolanios que assistia ao jogo no momento em que seu país sofreu o gol, se suicidou com um tiro no peito.

Isso foi como acender um isqueiro perto de um barril de gasolina. A mídia como não poderia deixar de ser, massacrou Honduras, culpando o país vizinho pela morte da torcedora, direcionando todo o ódio da opinião pública salvadorenha para o outro lado da fronteira, o clima de guerra já estava formado.

Pra vocês terem ideia, o enterro da mulher foi transmitido em rede nacional para todo o El Salvador, com direito a pelotão militar presente, a equipe que foi derrotada dias antes e o presidente da nação. Sim, o presidente de El Salvador foi a um enterro de uma civil.

Apenas sete dias após o primeiro jogo, era a vez da seleção hondurenha pisar em solo salvadorenho para jogar o segundo jogo, o clima não era de decisão, era de guerra. Um nacionalismo extremo tomou conta de todos os cidadãos de El Salvador, chegou a ponto de nos hotéis que recebiam hondurenhos, servirem comida podre e estragada para eles, ou até mesmo fezes, sim, FEZES. O tratamento era o pior possível. Na noite anterior a partida, os vidros do hotel em que estava à seleção visitante foram quebrados, e foram jogados pedras, ovos podres e ratos mortos. A noite dos jogadores hondurenhos foi pra se esquecer.

No dia seguinte, para chegar ao estádio em segurança e salvos, a seleção de Honduras precisou de veículos blindados que atravessaram a força em meio à multidão enfurecida. No estádio, tremulava a bandeira do país, ao lado do rosto de Amélia. Via-se a bandeira de Honduras sendo queimada em diversas partes do estádio, ao ser tocado o hino hondurenho, foi-se ouvida uma das vaias mais ecoantes da história de um estádio. A atmosfera era pesadíssima.

Ao rolar a bola, a seleção salvadorenha encarou o jogo como se fosse o último de sua história, jogando com uma entrega absurda do início ao fim, botando na conta um sonoro 3-0 contra os rivais, levando a decisão para um terceiro jogo, em campo neutro, no México.

Boatos que após a partida a derrota acabou sendo vista com bons olhos pelos Hondurenhos, que temeriam pelas suas vidas caso vencessem ou empatassem aquele jogo. No pós-jogo, dois torcedores hondurenhos foram brutalmente assassinados e mais de 100 carros foram queimados, além de inúmeras pessoas feridas, o confronto se espalhou por todo o país.

Pouco tempo após esses eventos brutais, a fronteira entre os dois países é fechada.

No dia 27 de junho foi feito o jogo de desempate no México, com uma segurança digna de presidente, El Salvador derrota novamente a seleção Hondurenha por 3-2. Deixando o país vizinho definitivamente fora da Copa do Mundo de 1970. Era motivo pra comemoração e talvez até mesmo uma trégua entre as duas nações.

A trégua não ocorreu, muito pelo contrário. Dois dias antes de começar o jogo de desempate, já haviam sido cortadas as relações diplomáticas entre os dois países que iriam jogar, El Salvador denuncia Honduras para a ONU, por genocídio. O circo já estava armado para que independente do resultado do terceiro jogo, uma guerra se iniciaria.

Pouco mais de duas semanas depois, El Salvador declara guerra a Honduras, iniciando uma série de ataques que foram retaliados durante quatro dias. Milhares de civis morreram nos confrontos e isso chamou a atenção de países com mais expressão no cenário político global, virando manchete internacional.

O gol da vitória de El Salvador e estopim da guerra.

Devido à alta mortalidade dos ataques, era claro que se fazia necessária algum tipo de intervenção externa, e assim aconteceu. No quinto dia de guerra, a OEA (organização dos estados americanos) entra em ação. Ameaçando os dois países com uma série de sanções pesadas e exigindo que os dois entrassem em um cessar fogo imediato. Os combates foram encerrados, até que no dia 20 de julho, foi oficializado o fim da guerra.

El Salvador conseguiu se classificar a copa do mundo, mas no torneio fez feio e acabou saindo na primeira fase não conseguindo marcar sequer um gol.

Deve ser de mútuo entendimento que a guerra entre os dois países teve como principal motivo os problemas de migração e xenófobos das duas partes. Mas é impossível negar o impacto que uma partida de futebol pode causar. Ser estopim de uma guerra sangrenta não é algo para se orgulhar, mas é preciso destacar o poder que esse esporte pode exercer nas vidas de quem o idolatra.

Um dos poucos episódios tristes sobre futebol.








Postado por Renan Castro 23 anos, administrador, torcedor do Flamengo, natural de Nova Iguaçu - RJ, fã de aviação e dono de três quadros: Vestindo o Futebol, Ícones Alternativos e Memória FC.