MEMORIA FC #14 – Alex Ferguson, o Rei da Escócia
26 de outubro de 2015
Categoria: 4-3-3 e Memória FC

Imagine você, um campeonato onde desde a temporada de 84/85 o título se revezou entre dois clubes apenas, acha que a liga espanhola é polarizada? Conheça a liga escocesa.

Uma liga com mais de 125 anos de existência, uma das mais antigas de todo o mundo, certamente está entre as pioneiras do futebol profissional e organizado nos moldes que nos acostumamos hoje em dia, tradicionalíssima e tinha tudo pra ser uma das ligas mais fortes do mundo atualmente, mas não é.
Apenas em 17 ocasiões os campeões não foram Celtic nem Rangers (contando com 1890/91 em que tivemos dois campeões no ano). Ou seja, em nada mais nada menos que 108 edições o campeão foi um dos dois gigantes escoceses.
Tradicionalmente, é um campeonato pra eles e outro pro resto
A disparidade é abissal e chega a surpreender até o mais pessimista admirador de futebol, nesta edição falaremos do último clube fora da dupla de ferro que conquistou a principal liga do país, o Aberdeen.
Um dos clubes mais ricos em história da Europa, foi fundado em 1903 porém nos anos seguintes seus feitos não foram tão notáveis, quando ensaiava um protagonismo recebeu o baque de uma guerra mundial, acabou sendo “desativado” em 1917 e voltou pra esfera amadora do esporte, felizmente ascendeu novamente a primeira divisão profissional novamente em 1919.
Um dos fatos curiosos sobre o clube é a relação direta com a criação da área técnica que conhecemos nos dias de hoje, a ideia surgiu do assistente técnico do Aberdeen em meados de 1937, Donald Colman sugeriu que a área fosse coberta e abaixo do nível do gramado, onde os reservas ficariam e poderiam assistir o jogo de um ângulo privilegiado, o Everton visitou o Pittodrie (estádio do Aberdeen) após essas mudanças e levou a inovação para a liga inglesa, o método é  usado até hoje.
O Aberdeen só crescia, sua curva de desenvolvimento era espetacular a cada ano que passava, prova disso são as copas nacionais que conseguiu vencer, chegou a ponto de vencer a liga escocesa de 54/55, sua maior glória até a chegada do “algo mais” que todo time precisa, no caso do Aberdeen esse ingrediente tinha nome, se chamava Alex Ferguson.
Ferguson geralmente é endeusado pelo mundo do futebol e normalmente figura entre os melhores técnicos a história de qualquer lista que se preze, realmente o que o rapaz fez pelos Red Devils não teve igual, porém pouca gente sabe como o escocês chegou em Manchester, antes de brilhar para o mundo, Ferguson derrubou um império.
Sem perder as contas, num espaço de 7 anos com Alex Ferguson o clube que antes não era acostumado com títulos ganhou 3 ligas escocesas (79/80 – 83/84 – 84/85), 4 copas da Escócia seguidas (de 82 a 86) e 1 copa da liga (85-86). O clube alcançou um novo patamar no futebol nacional sob a direção de Ferguson.
O multicampeão vermelho
Porém faltava aquela internacionalizada na marca, faltava o destaque continental, e ele veio.
O ano é 82/83 e nesta altura já temos um Aberdeen bastante consolidado no cenário escocês e com uma base bastante forte para os anos seguintes onde venceriam praticamente tudo dentro de seu país, mal sabiam eles que a Europa os aguardava bem antes da glória nacional.
Era a disputa da Uefa Cup Winners Cup (um nome de fato ridículo), esta era a nomenclatura do campeonato que hoje conhecemos como Liga Europa, a antiga Copa da Uefa, o torneio “classe b” dos clubes europeus, algo similar a Mercosul/Sul Americana que nós aqui da América do Sul já estamos acostumados.
O torneio entretanto contava com alguns dos maiores clubes do mundo como Real Madrid, Barcelona, Inter de Milão, Bayern, Juventus. Além de outros times conhecidos pelo grande público como é o caso do Tottenham, Paris Saint Germain e Galarasaray.
O torneio veio se afunilando até que nas quartas de final o Aberdeen teria a árdua tarefa de bater o supercampeão alemão Bayern de Munique, time que na época possuía nomes como Rummenigge e Breitner no plantel. O primeiro jogo foi um tímido 0-0 na Alemanha, o clube do Reino Unido teria que buscar a vaga em casa e assim fez, com dois gols em dois minutos o Aberdeen fez surpreendentes 3-2 na equipe alemã, eliminando-os do torneio, se terminasse por ai, já era um feito bastante significativo.
Na semifinal deram sorte no chaveamento e garantiram a vaga na finalíssima vencendo o já extinto Waterschei Thor da Bélgica (que de forma inimaginável eliminou o PSG), golearam em casa por 5-1 e acabaram perdendo fora pelo placar mínimo, nada que impedisse o clube escocês de pela primeira vez chegar a final de um torneio continental.
Só não contavam que o adversário daquela ocasião fosse o Real Madrid…
Real Madrid que torcia para não enfrentar seu rival espanhol e atual campeão da época Barcelona na semifinais, acabou sendo surpreendido assim como todos os outros quando viram o atual campeão caindo pro Austria Vienna que acabou tirando o time do Maradona da competição no critério de gols fora. Depois disso o esperado aconteceu e o clube merengue eliminou o time austríaco, se credenciando a disputa da final com os comandados de Alex Ferguson.
O jogo começou bastante corrido e o corajoso time escocês já abria o placar de forma prematura, aos 7 minutos Eric Black fez 1-0 Aberdeen, alegria que durou bem pouco pois na marca de 14 minutos o lendário atacante espanhol Juanito igualou o marcador em Goteborg, na Suécia.
O jogo a partir daí se tornou uma bomba relógio, sem gols nos minutos posteriores a partida chegou a prorrogação, a chuva já agraciava a todos presentes trazendo ainda mais a temática de drama diante daquele jogo, quando John Hewitt, substituto do autor do primeiro gol escocês, marcou o gol que daria o primeiro e único título europeu do Aberdeen na sua história.
Heróico, histórico!
 O dia ficou marcado como “O dia em que cantaram na chuva”, pois o clube lançou a música “European Song” para destacar os feitos continentais conquistados por Ferguson e seus comandados, música que é cantada e lembrada até hoje pela incrível torcida do time britânico.
Como se não pudesse ficar melhor, o clube venceu também a Supercopa da Europa frente ao Hamburgo que na época era o campeão da Uefa Champions League, inclusive foi o adversário do Grêmio no mundial de 83. O Aberdeen após a conquista ao menos por algum tempo foi o melhor time da Europa, Ferguson chegou mais longe do que todos pensavam.
No ano seguinte o clube voltou a figurar entre os quatro melhores desta mesma competição, mas infelizmente foi vencido pelo Porto em um placar agregado de 2-0. Mas não importava, a história já havia sido escrita.
Ferguson como já disse acima, depois deste europeu desbancou os dois maiores clubes da Escócia, instaurou uma pequena dinastia e foi o líder de um dos times mais surpreendentes da década, sua saída em 1986 levou o clube de volta a realidade cruel e trouxe novamente a tona o domínio da dupla de ferro na liga escocesa.
O Aberdeen foi o último time fora do eixo Celtic – Rangers a conquistar uma liga, depois de 84-85 não houveram outros vencedores diferentes dos dois.
Ferguson mesmo sem saber, provou pro mundo que não precisa de dinheiro nem de times estrelados para conseguir a glória, seu sucesso posterior na Inglaterra foi merecido, mas para isso, trilhou as estradas tortas e complicadas do prêmio máximo escocês.
Saúdem a lenda!
Com vocês, Sir Alex Ferguson, o Rei da Escócia.
Postado por Renan Castro 23 anos, administrador, torcedor do Flamengo, natural de Nova Iguaçu - RJ, fã de aviação e dono de três quadros: Vestindo o Futebol, Ícones Alternativos e Memória FC.