Longe dos Holofotes #17 – Dori
11 de março de 2017

As quadras do Espirito Santo viraram cedo a segunda casa de Dorielton, o Dori. Ainda com cinco anos, o garoto, apaixonado pela bola, já dava seus primeiros passos com os tênis de salão. Apesar da paixão, as quatro linhas pareciam pequenas para o atacante. Ele queria mais. Por isso, dois anos depois, resolveu ir para o gramado. As travas ganharam vez em seus pés, num clube da cidade. Por lá, no entanto, nada de salários como de costume. Mesmo assim, foi suficiente para dar os primeiros passos da carreira.

“Os jogadores que tinham que pagar. Não havia ajuda de custo nenhuma. Pagávamos uma mensalidade para jogar. Fiquei até os 13 anos. Acabei indo para uma peneira no Vitória, na Bahia, mas fui reprovado depois de uma semana. Tinha muita gente mesmo. Depois disso foi organizado um mini-torneio e o clube convidou dois grandes: Vasco e Fluminense. Acabei me destacando, principalmente contra o tricolor, mas fiz gols em todos os jogos”

As boas atuações de Dori saltaram aos olhos do olheiro do Fluminense, maior vítima do garoto no campeonato. O convite então foi feito, mas dona Lacy, sua mãe, não digeriu muito bem a situação. Afinal, não queria ver seu filho tão novo partindo sozinho para o Rio de Janeiro, onde passaria por um período de testes. Foi então que os tios do garoto entraram em cena para convencê-la. Dorielton partiu. Deixou o Espirito Santos e foi se aventurar em uma das maiores cidades do país.

Apesar da excelente fase na base, poucas oportunidades no profissional.

É aí que começa a parte mais difícil da carreira do atacante. Sem cabeça “pronta” para enfrentar a enorme mudança, sentia falta da mãe, amigos e família todos os dias. Passava pela cabeça que era hora de desistir, mas ele foi mais forte. Seguiu firme, passou na fase de testes e se contentou com as visitas quinzenais da mãe coruja.

“No meu primeiro ano de quinze em quinze dias minha mãe ia lá me visitar. Sou filho único, então, já viu né? Minha mãe tinha essa preocupação grande. Mas foi bem tranquilo minha daptação. Morei lá cinco ou seis anos. Moradia muito boa, quartos, comida, tudo muito bom. O clube tem grandes profissionais. Em relação a treinamento também, muito bom, campos perfeitos. Não tem como reclamar”

Apesar da enorme qualidade estrutural e da gratidão proporcional que tem pelo clube de sua juventude, Dori não esconde a chateação com a falta de oportunidades nos profissionais, problema recorrente na vida de garotos que sonham ter uma carreira no meio do futebol.

“Não vou mentir não, eu me sinto um pouco chateado com o Fluminense em relação as oportunidades que tive no profissional, por que foram poucas. Nós, garotos, quando subimos temos uma certa pressão. Ainda mais eu, que vinha me destacando. Então eu subi com aquela responsabilidade de fazer o mesmo que eu estava fazendo na base. E eles não me deram esse tempo. Então, por isso, fico um pouco chateado, mas não guardo nenhuma mágoa. Sou muito grato ao clube por tudo que eles fizeram”

Antes da China, Dori teve rápida passagem pelo Náutico.

Sem espaço no Rio de Janeiro, aceitou um convite inusitado: jogar na China. Se as mudanças de estado em território nacional já haviam sido um pouco complicadas, ir para o outro lado do mundo com apenas vinte anos foi uma atitude, no minimo, corajosa. O brasileiro já havia atuado na Suécia por cinco meses, mas, segundo ele, nem deu tempo de sentir as diferenças. Na China, no entanto, teve de se adaptar.

“Foi uma mudança absurda. Dentro de campo eu não senti tanto por que o que distingue mesmo é o nosso futebol ser mais cadenciado, já aqui é bastante dinâmico. Por conta da minha velocidade eu consegui me adaptar bem. Mas eu tive uma certa dificuldade em relação a comida. Foi extremamente complicado por que, na época, eu acha muito estranho. Agora eu já acho tranquilo. Mas eles usam muita pimenta, eu odeio pimenta, então foi complicado. Mas o tempo foi passando e deu para tirar de letra”

Quando chegou ao país, ainda sozinho, gostou do que viu. Depois de cinco meses trouxe a família com a intenção de ficar. Só não imaginava que seria por tanto tempo. Dori já está no futebol chinês a sete anos e não pretende sair. Com mulher e filhas adaptadas, o carinho e reconhecimento do povo, o atacante se sente em casa.

“Eu adorei a China. Sentei com minha esposa e falei “é aqui que a gente tem que fazer nossa vida, tenho certeza que aqui vai dar certo”. Dito e feito. Os chineses me tratam super bem. A partir do momento que você passa do segundo, terceiro ano aqui eles já te tratam de um jeito diferente, já te respeitam mais. Além disso, eles tem uma paixão muito grande por jogador brasileiro. Graças a Deus eu estou aqui há sete anos e para sair eu vou te dizer, é quase impossível”

Aos 27 anos, Dori já tem mais de 60 gols em sete temporadas na China.

Com toda a questão extra-campo indo bem, não há do que reclamar também do que acontece dentro das quatro linhas. As estruturas propiciadas pelos clubes são de qualidade e possibilitam com que os jogadores desenvolvam-se bem. Mesmo assim, ainda nota-se uma grande diferença para o que encontramos no Brasil.

“No Brasil é melhor por contar com mais profissionais. Por exemplo, aqui não tem nutricionista, fisiologista, fisioterapeuta, é muito dificil ter isso incluso. A não ser quando tem uma comissão técnica estrangeira, aí o treinador acaba trazendo tudo isso. Mas do chinês mesmo é o técnico, o preparados físico, o massagista, o doutor e um treinador de goleiros. É isso. Só essa parte que incomoda um pouco, mas de resto, tudo muito bom. Campo, alojamento”

Além do investimento estrutural, não é novidade para ninguém que os chineses contratam dia após dia grandes estrelas do futebol mundial, visando aumentar o nível da sua liga e, é claro, dar maior visibilidade ao seu produto. Para Dori, as coisas tem melhorado, mas ainda falta muito. O que não para reclamar é a visibilidade, objetivo principal dos dirigentes, segundo o brasileiro.

“De quando eu cheguei para hoje eu posso te falar que mudou bastante coisa. Mas ainda tem que melhorar muito. Porém, já vejo uma grande melhora. Tanto em relação a estrutura quanto em relação ao futebol. Acredito que com a chegada desses grandes jogadores, o futebol ficou mais bem jogado, mais bonito. Tecnicamente é claro que ajuda, mas o foco mesmo é a visibilidade”

Longe dos holofotes brasileiros, o atacante está feliz e realizado, assim como sua família, toda adaptada ao país.

Com carreira inusitada e muito respeitada em solo chinês, Dori não tem Champions League ou Libertadores no currículo, mas alcançou o seu maior objetivo: a realização pessoal. Sente-se um jogador de verdade, conseguiu dar uma casa para sua mãe, comprar sua casa própria e dar um certo conforto para sua família. Mais do que suficiente para quem vive de sua paixão. Longe ou perto dos holofotes, Dori sempre se manteve focado, com apoio dos familiares e trabalhando duro para atingir seus objetivos. Muito antes dos craques milionários, o atacante brasileiro do Nei Mongol Zhongyou FC já marcava seus gols e deixava um legado em território chinês.

“Para quem me acompanha, muito obrigado pelo carinho e admiração. Não tenham dúvidas que vou procurar continuar trabalhar forte para manter meu nível sempre bem alto. E para aqueles que sonham e querem ser jogador de futebol, continuem lutando, sonhando e não desanimem. Por maior que seja a dificuldade, nunca pense que é impossível. Difícil pode ser, impossível nunca. Para mim foi complicado mas eu consegui. Nunca desistam. Valeu!”
Postado por Andrew Sousa Formando em Jornalismo justamente pela paixão pelo esporte, sente enorme prazer em poder escrever sobre o que ama. Apaixonado por um bom domínio e alguns jogadores ruins, vive o futebol desde o primeiro dos seus vinte anos.