Longe dos Holofotes #07 – Vander Vieira
17 de novembro de 2016
Enquanto pais, tios, avós e primos se divertiam numa “farofada” a beira da quadra, dentro dela, Vander Vieira dava seus primeiros passos no futebol. Depois de um mês numa escolinha do clube, o garoto, aos seis anos, fora promovido ao fraldinha do Madureira, do Rio de Janeiro. Com o destaque inicial, o esporte foi virando rotina, e não demorou muito para os motoristas dos ônibus passarem a conhecer o menino, o deixando ir ao treino sem pagar.
No ano seguinte, em 1996, o primeiro salto na até então curta carreira: o Fluminense. No entanto, já em 1997, a equipe de futsal do Madureira o recebia de volta. Após o retorno, a quadra deu lugar ao campo de futebol, e logo na primeira competição que disputou, chamou a atenção do que viria a ser o seu novo clube: o Flamengo. Porém, sua mãe o retirou do esporte por um período, já que o garoto estava indo mal na escola. Resolvido o problema, ele retornou ao rubro negro, dessa vez para ficar.

O Flamengo foi o primeiro grande desafio nos gramados.

Sem atuar pelo profissional do clube, Vander chegou a ser emprestado para times cariocas como o América e o Duque de Caxias, entretanto, só foi realmente atuar no Ipatinga, de Minas Gerais. Antes disso, o atacante teve uma curta passagem pelo Democrata de Governador Valadres. Apesar da pouca idade e de tanto tempo na sua terra natal, a adaptação não foi um problema, já que o atleta se apoiou na figura de sua mãe, que o acompanhou na mudança, e de sua fé em Deus.
“Foi bem tranquilo, quando temos objetivos a ser alcançados, vamos sem pensar nesse lance de adaptação. A sede de vencer vem da confiança nas promessas de Deus. Nessa transição tive a ajuda da minha mãe, que foi morar comigo, então ficou tudo mais fácil.”
 
Apesar da facilidade nesse primeiro momento, o próximo passo da sua carreira foi muito mais difícil. Ainda no segundo ano pelo clube mineiro, uma proposta do Botev, da Bulgária, chegou, e o atacante se viu obrigado a aceitar. Isso porque, naquele momento, convivia com a dura rotina de salários atrasados, tão recorrente no Brasil. Se financeiramente foi fácil aceitar o novo desafio, esportivamente a fase não era das melhores. Vindo de uma lesão grave no joelho, a desconfiança da própria capacidade atrapalhava e pressionava Vander, deixando-o sem saber se conseguiria de fato render na Europa.

Vander nos tempos de Botev: jogador se surpreendeu com a Bulgária.

Chegando lá, a surpresa positiva: o país era maravilhoso. A estrutura do seu novo clube era do nível de alguns times de série A de Campeonato Brasileiro e o suporte para o atleta era até melhor. Isso tudo acarretou em excelentes momentos na carreira profissional e pessoal do brasileiro, que até hoje é grato ao país de sua primeira experiência fora de terras tupiniquins.
“Foi uma época de superação e muita fé em Deus. É um lugar que tenho um enorme carinho e admiração desde o primeiro momento até o último.”
 
Foram duas boas temporadas no Botev até sua conturbada saída para o AEK Larnaca, do Chipre. Conturbada por conta de alguns problemas no clube búlgaro, que acabaram atrasando demais a sua transferência, efetivada apenas no último dia da janela. Toda essa incerteza acabou dificultando um pouco no início e Vander teve de novamente se agarrar a fé e a família para vencer mais essa dificuldade. Dessa vez, sua mãe não acompanhava, mas sua esposa e seus filhos sim. As coisas se acertaram e sua passagem pelo AEK foi memorável.

Apesar da dificuldade inicial, a passagem pelo AEK foi excelente.

O destaque na primeira temporada chamou atenção do maior clube do país: o APOEL. Como era de se esperar, o carinho dos torcedores do
antigo clube, onde Vander era um dos melhores jogadores, se transformou em raiva.
“Os torcedores gostavam muito de mim e ficaram realmente tristes com a minha transferência. Chamaram de mercenário e outros adjetivos, mas, mesmo lendo tudo aquilo, Deus me manteve quieto e vi que a escolha foi certa em me transferir.”
 
Agora no maior do país, o atacante brasileiro sente que deu um grande salto, não só pela questão financeira, mas pelas constantes oportunidades de atuar em campeonatos continentais. Na atual temporada, por exemplo, o APOEL acabou caindo ainda nos playoffs da Champions League, mas vem surpreendendo na Europa League, já que lidera o grupo B, que conta com Olympiacos, Young Boys e Astana. Foram quatro jogos e três vitórias do time cipriota.

O brasileiro realizou o sonho de disputar a UEFA Champions League, e chegou a marcar nos playoffs, diante do Rosenborg.

“Fui abençoado por Deus em poder disputar por duas vezes os playoffs da Champions e jogar fase de grupos da Liga Europa. Estou vivendo um momento especial na minha carreira. Acredito e tenho fé que vamos fazer história, podemos ir muito longe. É um
grupo de jogadores maravilhosos, uma união e respeito muito grande, sou feliz em fazer parte desse elenco.”
 
Já com 28 anos, Vander não pensa em retornar ao Brasil. O atacante prefere encerrar a carreira na Europa, e ainda tem muitos objetivos no
velho continente. O principal deles é deixar um legado, dentro e fora de campo.
“Meu próximo passo é deixar sempre um legado legal aonde jogar, um exemplo de um cara que faz aquilo com paixão e alegria, que ama jogar futebol, esse dom maravilhoso que Deus deu pra que eu possa glorificar o nome dele.”

Fé e perseverança marcam a trajetória do brasileiro de 28 anos.

 
Mesmo liderando seu grupo em uma competição europeia e tendo passado por gigantes como Flamengo e Fluminense, Vander é mais um dos inúmeros brasileiros que saem pelo mundo atrás do sonho de jogar futebol. Mais do que isso, o atacante é um grande exemplo de que acreditar é o principal fator para alcançar os seus objetivos, mesmo que longe dos holofotes. O apoio da família e sua fé foram os grandes combustíveis de uma carreira de superação, conquistas e grandes momentos.
“O importante da
carreira é ser paciente, ter fé em Deus e fazer tudo por amor a ele. As bênçãos
vêm com a gratidão pelo que ele faz na sua vida. O que vale não é o que você
faz agora, mas o que você vai deixar no futebol. Tento deixar um cara alegre,
ousado em campo, mas que respeita todos e faz tudo isso com muito amor. Muito
obrigado pelo espaço, agradeço de coração em poder falar abertamente da minha
carreira e também do quanto Deus é essencial na minha vida.”
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Postado por Andrew Sousa Formado em Jornalismo justamente pela paixão pelo esporte, sente enorme prazer em poder escrever sobre o que ama. Apaixonado por um bom domínio e alguns jogadores ruins, vive o futebol desde o primeiro dos seus 23 anos.