Livres para jogar #4 – Dos Cavalinhos à Copa do Mundo
31 de outubro de 2019

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O término de uma partida não significa tirar completamente o futebol do imaginário dos presos. Mais do que jogar para lembrar dos tempos de liberdade, os detentos também mantêm o hábito de acompanhar grandes jogos pela televisão. Com a bola parada no canto de um dos barracos, os olhares se voltam ao pequeno eletrodoméstico na tarde de todos os domingos. Reunir-se para ver um jogo, porém, não é o único “ritual” dos homens que dividem as celas da Canhanduba.

– Ô, Seco, bora apostar? – grita Mascote, da porta do barraco 8.

– Claro, pô! – responde Jonatas, sem pensar duas vezes, na cela ao lado.

– 100 pila por jogo, fechou?

– De boa, vamo que vamo.

Palmeirense fanático, Mascote divide com Jonatas o amor por futebol. Para aliviar a tensão da dura rotina de trancafiado, aproveita desse sentimento para outro passatempo. No almoço da sexta-feira, consegue a tabela completa da rodada do Brasileirão. De volta à cela, não perde tempo e começa os palpites jogo a jogo com o colega de galeria.

O primeiro passo é a confiança. Mesmo separados por paredes, sem contato visual para fazer o clássico par ou ímpar, há um jeito democrático de começar as apostas. Em seu barraco, Mascote fura apenas um lado de um sabonete.

– Vai querer o lado com furo ou sem furo, Seco? – indaga.

– Sem furo!

– Ganhou, mano, você começa escolhendo. Quem ganha, Botafogo ou Sport?.

Embora simples, a prática envolve dinheiro. Ao contrário do futebol, não há comida ou drogas em jogo. São R$ 100 por partida. Ou seja, R$ 1.000 por cada rodada de dez jogos do Campeonato Brasileiro. Na ausência de toda a tecnologia de uma casa de apostas em Las Vegas, a dupla acaba perdendo as contas e, no fim, nem Jonatas nem Mascote pagam qualquer quantia.

“Tem rodada que ganha R$ 500, em outra perde R$ 300 e assim vai. No fim fica elas por elas”.

Sem pacotes de TV por assinatura para acompanhar de perto cada um dos jogos apostados, os colegas de galeria se mantêm atentos ao duelo transmitido pela televisão aberta. Quando a clássica bolinha, que avisa gols em outros embates, apita, a tensão toma conta. O narrador anuncia: o Sport abriu o placar no Rio de Janeiro. Festa em uma das celas!

– Olha o cenzinho vindo pro pai! – grita Jonatas.

– Calma que ainda tem jogo – retruca Mascote, pouco antes de os carcereiros baterem em uma das portas pedindo o fim da gritaria.

Como as bolinhas não mostram todos os gols da rodada, por conta de partidas em outros horários, há uma última conferência no fim da noite, durante os “Cavalinhos do Fantástico”. A cada resultado mostrado, mais vibração e brincadeiras. Junto disso, mais advertências dos policiais – que pouco incomodam os presos.

O clima de descontração das apostas ganha outro tom em domingos de clássico entre Corinthians e Palmeiras. Entre os tantos com quem dividiu barraco nos quatro anos e dez meses preso, Jonatas conheceu um alviverde de pavio curto. “Ele chegava a bufar quando falavam mal do Palmeiras, dava um debate grande”.

Nas rodas de discussão sobre o tema, no entanto, o camboriuense sempre esteve em vantagem. Em pesquisa empírica feita por conta, ele garante que há mais corintianos e flamenguistas do que qualquer outra torcida no ambiente de cárcere. Os números fazem sentido, já que são, de fato, os clubes com mais torcedores no país. Apesar do “empate técnico”, ele não perde a chance de puxar sardinha para suas cores.

A Fiel é incrível. Diferente de tudo. Tem gente que só se chama de corintiano. Às vezes se conhecem indo para o estádio. Não lembram o nome, mas nunca esquecem que torce para o Corinthians”.

Rivais ou não, as diferentes torcidas representadas dentro das celas tornam-se uma só em um período específico: a Copa do Mundo. Preso no Mundial de 2014, disputado no Brasil, Jonatas foi do céu ao inferno no período de disputa da competição.

Em jogos da Seleção Brasileira, os presos são dispensados do trabalho para acompanhar os 90 minutos dentro de seus barracos. Em um destes dias, inclusive, o corintiano lembra de um ato raro em que admirou um carcereiro. Por falta de televisão em uma das celas, Seu Juliano transferia os presos para um barraco com TV, sem autorização. “Para mim, policial é verme, mas ele fez um papel da hora”.

Ver todos os jogos do time comandado por Felipão vinha sendo prazeroso, mas acabou em decepção no fatídico 8 de julho de 2014. Dispensado da tarde de trabalho para acompanhar o embate entre Brasil e Alemanha, Jonatas queria retornar ao batente quando os visitantes abriram 4 a 0 no Mineirão. Sem permissão para tal, teve de acompanhar os 90 minutos, que terminaram em triunfo por 7 a 1 dos alemães. O gosto amargo daquela partida nunca foi esquecido pelo detento e pelos brasileiros.

Como durante as duas horas de banho de sol diárias, os presos se sentem livres assistindo à Copa. O futebol jogado ou assistido conecta-os com o mundo exterior como um portal. Em dia de jogo da Seleção, Jonatas não está vivendo apenas a mesma realidade que os 686.594 detentos[1] do Brasil. Quando a bola rola, ele se junta, em sentimento e ação, às mais de 3,2 bilhões de pessoas que assistiram o Mundial de 2014[2]. E isso humaniza.

A vibração no gol, a gritaria para xingar uma substituição do técnico e as conversas fora de contexto durante o intervalo. Fechando os olhos, Jonatas podia se imaginar na sala de casa com uma série de amigos, como tantas vezes fez antes de ser preso. Mais uma vez, o futebol foi o habeas corpus[3] para sua mente.

[1] De acordo com levantamento feito pelo G1 em fevereiro de 2018;

[2] Números oficiais divulgados pela FIFA, em 2015;

[3] Medida jurídica para proteger indivíduos que estão tendo sua liberdade infringida;

Postado por Andrew Sousa Formando em Jornalismo justamente pela paixão pelo esporte, sente enorme prazer em poder escrever sobre o que ama. Apaixonado por um bom domínio e alguns jogadores ruins, vive o futebol desde o primeiro dos seus vinte anos.