Livres para jogar #3 – Duas horas de sentimentos
21 de outubro de 2019

Leu o capítulo anterior da série? Se a resposta for não, clique aqui para conferir. Se for sim, boa leitura!

 

O futebol na penitenciária é um grande paradoxo: há muito e pouco em jogo ao mesmo tempo. Por isso, o grande momento de uma partida pode não ser um golaço, um drible ou uma defesa “como um gato” de um dos goleiros. Na pequena quadra dos detentos, pequenos atos ganham uma enorme proporção.

Como em qualquer lugar do mundo, é claro, os gritos ganham mais decibéis na hora que alguém supera o arqueiro e acerta os pequenos retângulos pintados nas paredes. Quando é o gol da vitória, então, é possível ouvir os gritos até mesmo da segunda quadra da Canhanduba, onde presos de outros dez barracos também desfrutam da paixão nacional.

Há, porém, muita vibração coletiva e individual em outros casos. Para Jonatas, por exemplo, o drible é o que coloca um sorriso no rosto. E o lance não precisa ser necessariamente dele. Qualquer lance que possibilite o clássico “olé” se transforma em brincadeira de todos os presentes. E em estresse. “Aí que umas pinha ficam brava. Toma canetinha[1] e a galera começa a zoar muito. Na próxima ele já dá uma “arrastada”[2]””.

Se o drible causa euforia em todos que acompanham a partida, internamente, presos também vibram com a consequência deles. Uma entrada naquele “jogador mais folgadinho” é suficiente para que duas horas de jogo valham a pena. Revidar é um alívio.

A maioria joga para tirar o veneno[3]”, diz Jonatas, antes de relatar outro paradoxo. Se alguns aliviam suas angústias, outros aumentam ainda mais a temperatura do sangue quando pisam em quadra. A consequência são lances mais duros e muito trabalho para o Disciplina do Futebol. “Na hora do jogo dá uma neurose, o cara discute. Se ficar um mês sem discussão é muito. Sempre tem um chorão, igual no futebol normal”.

Na contramão desses detentos que jogam bola para aliviar o estresse, alguns iniciam sua carreira no futebol dentro da reclusão para socializar. Fã de lutas e já no regime semiaberto, Isaias Santiago se rendeu ao esporte bretão para fazer amizades no período de cárcere. “Nunca fui muito do futebol, mas como é a paixão do brasileiro, acaba sendo o esporte mais jogado aqui”.

Nestes casos, não há sangue quente ou qualquer neurose. Gazoni, que também já faz parte do grupo dos regalias[4], lembra com carinho das partidas de futebol no interior da penitenciária. Segundo ele, a prática esportiva tem dois benefícios claros para o detento, a parte física e mental: “São duas horas mais leves para compensar o peso das outras 22”.

Apesar dos argumentos parecerem encaixar com qualquer modalidade, não há reivindicações por uma rede de vôlei ou tabelas de basquete na penitenciária. Para falar a verdade, Jonatas já acenou com a possibilidade, mas sua proposta foi recebida de forma bem negativa. De acordo com o detento, as respostas foram unânimes: “Que basquete, mano? Ninguém vai jogar. Aqui é só futebol”.

Assim como nos grandes centros e no decorrer da história do esporte, o futebol, por vezes, caminha lado a lado com a política na cadeia. Enquanto buscam os gols necessários para vencer, os detentos se mantêm atentos às pequenas janelas de cima das galerias, que assistem de ângulo privilegiado à peleja. Quando o policial responsável pelo setor passa por lá e ameaça dar uma olhada no que está rolando em quadra, o jogo para e as reivindicações começam.

Sem entender uma demissão ou ainda esperando a primeira chance de trabalhar em uma das três empresas sediadas na Canhanduba, os presos clamam por seus direitos. Antes espalhados nas posições da quadra, os jogadores formam uma fila rapidamente para explicar sua situação atual.

Neste momento, surgem diversas histórias. Enquanto um pede por uma chance rápida na Fischer, empresa que faz fogões dentro da penitenciária, o outro não escolhe local. “Eu só quero um trampo pra pagar o aniversário da minha filha, doutor. Dá uma atençãozinha pra mim”. O aceno positivo do policial, garantindo que novas vagas vão abrir, surtem o efeito de um gol. Alívio, alegria, esperança. Tudo se mistura, como no futebol.

Com os protestos feitos, a bola volta a rolar entre os presos. Os motivos para jogar pouco importam. Seja para fazer amigos, relaxar, se exercitar ou deixar o pé naquele colega de cela folgado, todos vivem intensamente as duas horas mais leves do dia. Na cadeia, nascendo quadrado ou não, o sol significa uma coisa: sair da inércia e viver uma série de emoções.

[1] Bola entre as pernas;
[2] Entrada mais forte no adversário;
[3] Estresse, cansaço mental;
[4] Presos em regime semiaberto.

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Postado por Andrew Sousa Formado em Jornalismo justamente pela paixão pelo esporte, sente enorme prazer em poder escrever sobre o que ama. Apaixonado por um bom domínio e alguns jogadores ruins, vive o futebol desde o primeiro dos seus 23 anos.