Livres para jogar #1 – Aquecimento
16 de setembro de 2019
Categoria: 4-3-3 e Futebol

 

É dia de futebol. Mesmo sabendo que não há torcida, salários milionários ou belos uniformes, Jonatas e seus companheiros de time estão dispostos a derramar sangue, suor e lágrimas no concreto marrom que lhes serve de quadra. O jogo é importante. Todos são. Ansioso para se reencontrar com a pelota desde a noite anterior, o camboriuense (de Camboriú, Santa Catarina) acorda empolgado.

Ainda com o sorriso estampado no rosto, senta na cama. Não calça o meião, nem amarra as chuteiras. Sequer veste uma camisa com seu nome. Muito pelo contrário. Seu número está impresso em uma camiseta, mas ela foi deixada de lado, meio amassada, bem em cima do par de chinelos, que também não vai para a quadra. Como em todos os jogos, a bola não toca o couro de uma Nike ou a fibra de carbono de uma moderna Adidas. O contato é direto. Pé, bola. Bola, pé.

O jogo está prestes a começar e os ânimos estão aflorados. Por isso, a resenha ganha força. O bate-papo é uma mescla de táticas, previsões, lembranças das últimas atuações e, é claro, pitacos sobre quem serão as equipes. “Nada de patotinha, mano”, é o que pensa o corinthiano, que lembra com carinho do grupo de Tite, Emerson Sheik, Paulinho e outros, multicampeão pelo clube. Essa panelinha pode. Mas aqui não. Aqui tem que equilibrar.

Ainda na expectativa de tais definições, os jogadores pisam na quadra. Vai começar a peleja. Ou melhor, as pelejas. Ninguém aguentaria jogar duas horas a fio – embora isso quase aconteça em dia de campeonato. Tudo pronto. A bola vai rolar. Mesmo assim, os espectadores são os companheiros de time que ficaram de fora, aguardando a vez de entrar. Não há catracas, ingressos, arquibancadas ou torcedores. Longe dos milhões de reais que financiam grandes torneios e até mesmo das brasileiríssimas peladas entre amigos, aquele momento é mais do que a prática de um esporte ou o exercício de uma paixão. É uma válvula de escape. Não é um jogo qualquer.

É dia de futebol na cadeia. Para Jonatas, é o melhor momento de sua dura rotina. Afinal, as 24 horas de um encarcerado são divididas assim: 22 horas em um cubículo e duas de pátio. É fácil entender por que o período, conhecido por muitos como “banho de sol”, é tão importante para os detentos. É o momento de sair do escuro e, para a maioria, é simplesmente a hora de jogar bola.

Lá está ela, esperando para ser chutada. No entanto, é necessário que alguém coordene a partida, tome as decisões importantes. No comando de tudo, está o Disciplina do Futebol[1]. Dentro das quatro linhas, o nome e o número deste detento sequer são lembrados. Ele agora representa a autoridade máxima e atende apenas pelo cargo que foi lhe concedido democraticamente. Dias antes das partidas no pátio, os barracos[2] organizam o tradicional passa-pano[3] para definir quem será o responsável por controlar os ânimos durante os jogos.

Aos que não conhecem o ambiente de cárcere, a imaginação pode sugerir imediatamente que quem cuida da parte disciplinar dos jogos são os carcereiros. Ledo engano. Os agentes não conversam com os presos durante a hora de lazer e só interferem em caso de emergência. Com sotaque inconfundível, Jonatas resume: “Nós não caçamos com eles, eles não caçam com nós[4].

Ciente de sua grande responsabilidade, o Disciplina faz de tudo para evitar desequilíbrios na formação das equipes. Geralmente, porém, repassa seu poder para os goleiros. Os homens que defendem as pequenas traves pintadas nas paredes do pátio escolhem, um por vez, quem vai formar seu time. Nada de cinco, sete ou 11 jogadores. São dois na linha e um no gol. O espaço é pequeno e precisa ser bem aproveitado. “É meia quadra, três já fica apertado”.

Se a organização de escolha das equipes segue os padrões das tradicionais peladas entre familiares e amigos, a distinção dos times em campo é completamente diferente. Nas quadras e arenas espalhadas pelo Brasil, coletes ou até mesmo uniformes personalizados separam o “nós” do “eles”. Na penitenciária da Canhanduba, em Itajaí, Jonatas nunca precisou de cores para saber com quem estava jogando. “Todos se conhecem, olhamos no rosto mesmo”, explica o habilidoso alvinegro. Todos os dias, vale destacar, dez celas se juntam no pátio para o banho de sol.

A afinidade não fica restrita aos rostos, tantas vezes encarados antes de passar a bola. Nas duas horas de futebol, toda pinha[5] tem nome, apelido e adjetivo. Tem “Corinthiano”, “Negão”, “Bob”, “Mascote”. Isso faz toda diferença. Para os encarcerados, lembrar que têm nome faz com que se sintam mais humanos. Os carcereiros, no entanto, insistem em chamá-los pelos números. Jonatas, por exemplo, é o “391” na penitenciária de Itajaí. Em São Cristóvão do Sul, onde também esteve preso, seu nome era 529306.

Vários apelidos estão sendo gritados ao mesmo tempo na desorganização organizada dos embates no pátio. Chegou a hora do vamos ver. Quando o primeiro pé descalço toca na redonda, o cenário se altera. Neste momento, as curvas da bola tomam o protagonismo das dominantes retas que formam o ambiente onde até o sol nasce quadrado.

Glossário

[1] Disciplina do futebol: espécie de árbitro escolhido pelos próprios presos;

[2] Barracos: celas;

[3] Passa-pano: papel que passa nas celas para votação ou avisos;

[4] Caçar: mexer, incomodar, falar com;

[5] Pinha: pessoa; gente.

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Postado por Andrew Sousa Formado em Jornalismo justamente pela paixão pelo esporte, sente enorme prazer em poder escrever sobre o que ama. Apaixonado por um bom domínio e alguns jogadores ruins, vive o futebol desde o primeiro dos seus 23 anos.