Jogo único num continente em chamas: quanto vale o espetáculo?
28 de outubro de 2019

Foto por Claudio Santana/Getty Images

2019 é ano de mudança na Copa Libertadores da América. A final será jogada em partida única pela primeira vez desde a criação da Libertadores, em 1960. A cidade escolhida, Santiago, no Chile, vive momentos conturbados, com protestos, toque de recolher e muita tensão.

A situação chilena lembra muito o Brasil em 2013, nas chamadas jornadas de junho. As manifestações começaram devido a um aumento no preço das passagens de metrô e tomaram outras pautas difusas e com poucas lideranças. O aumento de 30 pesos (equivalente a R$ 0,17) no preço das tarifas do metrô de Santiago, levou milhares de pessoas às ruas pelo Chile. A polícia revidou com bombas de gás lacrimogêneo.

Os protestos tiveram uma escalada com saques e depredações em várias cidades do país. No sábado, o governo decretou Estado de Emergência por 15 dias e o exército foi às ruas pela primeira vez desde a ditadura de Augusto Pinochet. O presidente Sebastian Piñera suspendeu o aumento da tarifa do metrô, mas os protestos continuam. Mais de 1.400 pessoas foram detidas e 18 morreram em decorrência dos distúrbios.

A final única, pela primeira vez na história, tem sido bastante criticada por levar em consideração fatores diretamente ligados à características europeias e esquecer particularidades importantes da sociedade e geografia sul-americanas. Enquanto no Velho Mundo se consegue ir a qualquer país de trem e num menor tempo e custo possíveis, a geografia, a estrutura e a desigualdade social no continente não permitem que o mesmo seja feito na América do Sul.

Hoje, não se sabe se a decisão poderá acontecer em Santiago. Os protestos já fizeram a Conmebol – Confederação Sul-Americana de Futebol – procurar possíveis candidatos a sediar a decisão caso as manifestações prossigam, incluindo o Maracanã, no Rio de Janeiro.

O que entra em um outro debate. Quanto custa para o torcedor comum ir até Santiago acompanhar a decisão? O flamenguista que quiser ir a Santiago e deixou para comprar suas passagens de avião após a classificação contra o Grêmio, na última quarta-feira (23), terá que desembolsar em média 3,5 mil reais apenas nas passagens de ida e volta, saindo do Rio de Janeiro.

Como torcida do Flamengo vai ao Chile de uma hora para a outra? (Foto por MAURO PIMENTEL/AFP via Getty Images)Os ingressos custam US$ 80, cerca de R$ 320. Fora alimentação, hospedagem, souvenires – afinal ninguém faz uma viagem e não compra uma lembrancinha. Qual torcedor tem 5 mil reais de um mês para o outro para ir a uma decisão de Libertadores? E se comprar com antecedência, quem garante que o jogo realmente acontecerá no Chile ou que seu time se classificará?

Num país onde a desigualdade social aumentou em 2019, de acordo com o IBGE, é quase impensável um torcedor mais humilde, como a torcida do Flamengo mesmo se caracteriza, ter condições de ir até Santiago acompanhar o momento mais sublime dos últimos 38 anos do clube.

23,9% das famílias brasileiras vivem com R$ 1.245 mensais em média, segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares, valor que dificilmente cobre as contas no final do mês, quem dirá uma extravagância em Santiago para acompanhar o time do coração.

Desembolsar tanto dinheiro para ver o seu time, num país em chamas, com a polícia nas ruas, confrontos e toque de recolher. Gente presa, ferida e com medo. A final em jogo único não leva em consideração o mundo que a cerca, esquece de que o espetáculo é de todos e que não adianta ter show se a população sofre nas ruas, mostrando mais uma vez que o futebol se distancia de seu povo a cada dia.

Postado por João Vitor Nunes Jornalista no interior de Minas, formado pela Universidade Federal de Ouro Preto. 23 anos. Apaixonado pelo esporte e pela profissão. Gosto de pitacos embasados e boa conversa de bar.