Jesus e Diniz: Crenças, (im)paciência e incertezas entre dirigentes e torcedores
6 de dezembro de 2019
Categoria: 4-3-3

 (Foto por Miguel Schincariol/Getty Images)

2019 foi um ano com sensações distintas para duas das maiores torcidas do país: Flamengo e São Paulo. De um lado a alegria da maior torcida do país. Uma tríplice coroa e o clima de festa em quanto se espera a chegada do mundial. Do outro uma torcida impaciente, frustrada e cansada de ver os rivais tendo conquistas. Enquanto a maioria dos flamenguistas viu conquistas sazonais, alternando com períodos difíceis e em alguns anos até desespero (quem viveu 2005 sabe), o são paulino em maioria viu uma série de conquistas nos anos 2000.

Embora já chegasse ao ponto de impaciência principalmente pelos vices em 2017 e 2018, o torcedor rubro negro tolerou de bom grado um período de reestruturação como foi prometido e aceitou conviver sem expectativas firmes de títulos. Já no São Paulo o torcedor que cresceu nos anos 2000 viu seu time não apenas como multi campeão, como um exemplo de gestão. A fórmula de sucesso que começava desde a base, enchia o torcedor de orgulho que mencionava os 6-3-3 sem muita necessidade. Depois da conquista da Sul-Americana o que se viu foram anos de instabilidade política, times desequilibrados, que embora tivessem quase sempre minimamente cotados e com bons nomes fracassava no objetivo de conquistar títulos.

Erros em escolhas de técnicos e jogadores trouxeram a realidade que o flamenguista e o torcedor de qualquer outro time já sabia: os títulos são sazonais. Só que ninguém quer sair do topo, ainda mais para ver rivais como Palmeiras e Corinthians conquistar tantos títulos. No campeonato de disputa mais direta entre eles, o estadual, a última conquista do tricolor foi em 2005, ainda no início da era mais gloriosa do clube. A partir disso surgem algumas perguntas. Como sair deste marasmo em que o São Paulo se colocou? Como dizer então para este torcedor para esperar e ter paciência em algo que o clube aposta e que as conquistas vão chegar gradativamente?

Quando se contrata Fernando Diniz você aposta numa ideia. Diniz não é um multi campeão. Não é um nome de peso. Nem sequer foi um jogador excepcional, uma estrela que pelo seu status como jogador lhe respaldaria frente ao vestiário. Pelo contrário, é sabido que teve dificuldades em suas últimas equipes e não obteve resultados. Então porque a aposta? No futebol nem tudo é tão preto no branco. Nem sempre se trata apenas da vitória, embora o resultado seja e sempre vá ser o mais importante no futebol. Eu não acredito na ideia de que jogar ofensivamente e perder seja melhor do que jogar de forma defensiva e vencer. Só que cada forma de jogar demanda um entendimento e consequentemente um aprendizado. Retroceder e fechar as linhas ao perder a bola ou avançar e pressionar agressivamente? Trabalhar passes criteriosamente ou tentar chegar ao gol de forma mais objetiva? E como faremos para realizar cada situação dessas?

Jesus também foi uma aposta – e certeira. (Foto por Manuel Velasquez/Getty Images)

Jorge Jesus chegou ao Flamengo no meio da temporada. O Flamengo em 2018 já sofria muitos gols em situações de bola parada e havia contratado jogadores que em média eram mais baixos que os titulares do ano anterior. A defesa era o grande calo do time de Abel Braga, embora não fosse o único. Logo de cara o português pôs seus métodos em prática, sua forma de jogar seria a mesma que o consagrou em Portugal, embora com alguns pequenos ajustes. Trouxe conceitos de marcação por zona (inclusive nas bolas paradas), linha de impedimento, defesa alta, bola coberta e descoberta e… o time passou a tomar mais gols.

Embora possa se falar na sorte e no fato de que o time passou a jogar melhor com ele, a defesa seguia sendo um calo. Só que estávamos falando isso com 1 ou 2 meses. Com o tempo, os jogadores entenderam esses e mais outros conceitos e naturalmente tudo evoluiu. Embora muita gente em pouco tempo criticasse e pedisse por métodos mais usuais, o português acreditava naquilo para o sucesso. Era a base do seu jogo e não seriam algumas dificuldades iniciais que mudariam suas crenças. Como li um dia desses no Twitter: não se podia esperar que o Jesus entrasse com uma linha baixa e magicamente em algumas semanas viesse com uma linha de defesa alta sem nenhuma falha. Era preciso um período de aprendizagem, adaptação e de certa forma até instabilidade. Com muito trabalho, treinos e vídeos para se errar o mínimo possível.

No São Paulo, Fernando Diniz sucedia a Cuca que foi contratado após a demissão de Jardine. Não assumiu de imediato e teve Mancini como interino e em determinado momento como uma dupla de treinadores. Além disso, o elenco recebeu mais de 10 reforços, subiu atletas da base. Talento não falta e com exceção do Flamengo, o elenco tricolor não fica muito atrás de ninguém nesse país. Mas falta identidade, confiança, entendimento. Diniz com certeza não começou bem, mas acho tremendamente injusto atribuir culpa num ambiente instável como esse. E voltando ao que eu disse pouco acima: a aposta é em uma ideia. Se acredita que o seu trabalho deu errado por N motivos, incluindo ausências de atletas de melhor nível em algumas posições. Alguns jogadores que trabalharam com ele tiveram um claro crescimento no seu nível individual. E por fim se acredita que foge da habitualidade no cenário tático deste país.

Diniz não gera meios termos. Eu nunca vi ninguém dizer que ele é um treinador razoável. Já ouvi dizer que é ótimo, péssimo, nunca as opiniões se dão pela neutralidade. Confesso que não sou fã do seu estilo de jogo. Meus treinadores preferidos são Allegri, Jorge Jesus, Guardiola, Sabella e Simeone. Apenas um prioriza jogar com tanta paciência, embora com diferenças estrondosas em suas ideias. Mas não estou aqui para comparar estilos ou nível desses treinadores, até porque o Fernando está num patamar absolutamente distinto.

Diniz vem de trabalhos longe de empolgar, em Athletico e Fluminense (Foto por Mauro Pimentel/Getty Images)

Olhando pelo lado passional do torcedor, se eu fosse são paulino provavelmente não teria paciência para esperar pelo trabalho que o Diniz faz se ajustasse e apresentasse resultados, ainda mais tendo em vista que não foi visto em nenhum cenário do futebol de mais alto nível. Só que é demasiado cedo para se dizer que a culpa dos problemas do São Paulo vem dele, tendo em vista tudo que o clube passou no ano. Assim como Jorge Jesus ou qualquer técnico, seja bom ou ruim vai ter resultados melhores se os jogadores executarem de forma correta seus mecanismos de jogo.

Talvez entendendo isso, ou por um mero tiro no escuro da diretoria, eles sabem que não há nenhuma garantia que um novo treinador dê resultados imediatos, ainda mais se houver outro choque de estilos. As notícias dão conta de que Diniz será mantido em 2020. Terá uma pré-temporada inteira para trabalhar com um plantel que já conhece e que minimamente já conhece seus conceitos, realizando seus ajustes e possivelmente trazendo jogadores para preencher lacunas que ele enxergue no elenco. É sua chance de ouro na carreira. Para o São Paulo uma tentativa diferente do habitual de fugir do ciclo de fracasso dos últimos anos. O risco é que um simples resultado negativo em um clássico pode significar uma pressão estrondosa para o clube. As expectativas ainda que altas em função do nível do plantel, seguirão rodeadas de incerteza.

Postado por Osório Lopes Universitário, torcedor da seleção argentina, viciado em poker, Rock and roll e futebol.