Intriga Internacional: adeus de D’Alessandro aprofunda a crise no Colorado
24 de novembro de 2020
Categoria: 4-3-3

(Foto: Gazeta Esportiva)

Em 19 de julho de 2008, o Sport Club Internacional contratou Andrés Nicolás D’Alessandro. Em 30 de julho, ele assistiu ao primeiro jogo dentro do estádio, uma derrota por 1×0 contra o Santos de Maikon Leite, pelo Campeonato Brasileiro daquele ano. Em 13 de agosto, estreou com a camiseta número 15 do Inter em um GreNal, pela Copa Sulamericana. Viria a ser um carrasco do arquirrival e venceria este campeonato, seu primeiro com o clube. Em 14 de setembro, marcou seu primeiro gol pelo Inter, contra o Botafogo, numa vitória fora de casa por 2×1 (momento em que o autor deste texto, do alto de seus 13 anos, berrava e corria pela casa comemorando “o gol do jogador de 5 milhões de euros”).

Mesmo com esse começo avassalador, nem o maior fã de Alfred Hitchcock conseguiria escrever um roteiro tão cheio de intrigas e reviravoltas quanto a carreira de um meia argentino temperamental. Nem o colorado mais fanático imaginaria que este mesmo jogador, contratado do San Lorenzo e de excelentes predicados, ficaria longos 12 anos no clube, marcando época e quebrando recordes, participando de fases boas e ruins, e sendo um ícone do Sport Club Internacional.

Porém, assim como em qualquer espetáculo artístico, as cortinas se fecham e as luzes acendem para iluminar a saída do público, sinalizando o final da apresentação. É o que acontecerá em 31 de Dezembro de 2020, quando fecham-se as cortinas da longa passagem de Andrés Nicolás D’Alessandro como capitão e jogador no Internacional. Ontem, em coletiva concedida no Beira-Rio, ao lado do presidente Marcelo Medeiros, D’Ale anunciou que não renovaria o vínculo para o restante da temporada (completamente desfigurada pela Pandemia do Covid-19) e que vai continuar jogando, prosseguindo sua carreira em outro lugar.

Em 2008, ainda com a camisa 15, começou a escrever sua história em GreNais (Foto: Itamar Aguiar / Vipcomm)

Especulou-se que, por algumas postagens no Instagram, iria renovar até o final dessa temporada. Entretanto, explicou que elas se referiam à biografia do craque, que será lançada em breve.

Aos jornalistas ali presentes, D’Alessandro abriu o jogo quanto ao ambiente do clube e as intrigas políticas que culminaram na situação atual. Falou sobre críticas internas que minaram o trabalho do ex-treinador, Eduardo Coudet, sobre a instabilidade criada com a saída dele e como está o grupo todo com o momento atual. Foram frases duras, mas transparentes com os torcedores, que sentem que algo está errado. Deixou claro as intrigas que permeiam os bastidores do Inter.

E a estes mesmos torcedores, Andrés dirigiu esta carta carregada de carinho:

“A ti, torcedor colorado, sempre falei com o coração. Agora, não poderia ser diferente. Afinal, a ti devo tudo. Foi tu, que há 12 anos me recebeu de abraços abertos em Porto Alegre. Foi tu, que desde 30 de agosto de 2008 me mostrou o que é o Inter, que me fez entender o peso da camisa vermelha, sua história, sua importância. Foi junto contigo que conquistei o que conquistei e que me tornei o que sou.
O que alcançamos juntos deve ser preservado. E por respeito a ti, e por tudo que vivemos, preciso te dizer de peito aberto: o tempo passa, as coisas mudam, e os ciclos se fecham. O meu, longo, inesquecível, vitorioso, está chegando ao final. Entender isso foi o que me fez decidir, pensando no melhor para mim e no melhor para o Inter. Uma decisão pessoal, amadurecida e somente minha.
Em 2021, não estarei aqui. Seguirei minha vida profissional e o Inter o seu caminho. Tantos outros passaram e o Dale também passa. Mas o clube, maior que tudo e todos, permanece. Porque é gigante, porque é o Inter. A ti, torcedor colorado, que palavras não traduzem tudo que precisa ser dito. Então deixo que o coração fale, estaremos juntos para sempre. Muito obrigado.”

Contudo, não teve a mesma fala agradável com outros. Para alguns jornalistas, foi específico com situações que o desagradaram, mas não citou nomes. Ficou com bronca da imprensa. Em específico, citou nominalmente um dirigente, candidato a conselheiro do Inter (as eleições ocorrem este ano) que o chamou de “gringo 171” pelo Twitter. Ofendido, o argentino exigiu respeito de maneira contundente.

E os números dele corroboram esta exigência: é o terceiro jogador com mais jogos pelo clube, (513, 10 a menos que Bibiano Pontes e longe de Valdomiro e seus 803 jogos), o estrangeiro que mais vestiu a camisa vermelha. Campeão de 12 títulos profissionais, os mais marcantes sendo uma Copa Sul-Americana e uma Copa Libertadores, além do Gauchão 2011, o último título profissional levantado no lendário Estádio Olímpico, do arquirrival Grêmio.

D’Ale comemorou o último Gaúchão no Olímpico (Foto: Jefferson Botega / Agencia RBS)

Esteve também em momentos traumáticos, como os vices em torneios nacionais e a tragédia contra o Mazembe em 2010 no Mundial de Clubes. Emprestado para o River Plate em 2016, não fez parte da campanha ruim no Brasileiro e que culminou com o rebaixamento do clube pela primeira vez em sua história. Mas decidiu voltar em 2017 para ajudar a recolocá-lo na primeira divisão. Mesmo sem o título, conseguiu.

Ainda que a saída ocorra no meio dessa crise toda, D’Alessandro poderá sair do Gigante da Beira-Rio de cabeça erguida. Ainda que existam críticas de alguns torcedores colorados (dos quais pessoalmente discordo) e de torcedores de outros clubes (estas mais justas, pois era um jogador realmente difícil de lidar), ‘El Cabezón’ marcou época e deixou lembranças indeléveis e marcantes no torcedor colorado, nestes tantos anos de servidão. Guardados na memória e na retina, ficam os belos dribles (a singular La Boba, que tanto aplicou em seus oponentes), os gols em GreNal, as assistências, os golaços, como na inauguração do Beira Rio contra o Peñarol. E no coração, ficará a saudade de um camisa 10 armador, tão atemporal e eterno quanto os clássicos de cinema.

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Postado por Guilherme Bonilla Colomé Goleiro, colorado doente, chora toda vez que vê o famoso 'Gol do Gabirú'. Fã do Liverpool desde 2005 e do PSG muito antes do Sheik sonhar em comprar o clube. Gosta de musica velha, cerveja, boa companhia e viajar. Simpático ao Belgrano de Córdoba e ao San Lorenzo de Almagro, sem esquecer também do Internacional de Santa Maria.