ÍCONES ALTERNATIVOS #10 – O imperador húngaro
23 de agosto de 2016

Quem foi o primeiro bola de ouro a atuar no Brasil?

Não foi Romário, nem Ronaldo e muito menos Rivaldo. Ele nasceu na Hungria, veio jogar no Flamengo e atende pelo nome de Flórian Albert.

Sim, provavelmente você nunca acertaria.

Como todo jogador húngaro parece que só joga no Ferencváros, Albert não podia ser diferente. Peneirado em uma das seletivas do clube, o jogador impressionou os olheiros que viram o seu mágico futebol, e ainda jovem, com apenas 12 anos, já era jogador de base do clube europeu em 1952.

Passou por toda a lapidação das categorias juvenis até que em 1958, estreou como profissional com uma bela atuação frente ao Diósgyõr. Atacante daqueles elegantes, Florián encantava pela sua grande capacidade técnica de resolver jogadas improváveis com genialidade. Sua capacidade aguçada de finalização o dava confiança para usufruir seu vasto arsenal de saídas para as situações de jogo. Era bastante autêntico, tanto que apenas um ano após estrear, chamou a atenção da comissão técnica húngara, que sem pensar o chamou para integrar a equipe nacional com apenas 17 anos.

Chegou a disputar a Copa do Mundo de 1962, sendo um dos destaques da campanha da Hungria, vencendo assim o prêmio de melhor jogador jovem do campeonato, além de ter sido o artilheiro da edição com quatro gols, dividindo o posto com mais quatro jogadores que marcaram o mesmo número de tentos. Infelizmente sua seleção não chegou tão longe, parou nas quartas de final.

Daí pra frente sua carreira decolou de forma avassaladora, emendou um bicampeonato com o Ferencváros em 1963 e 1964, começou a receber um status de world class perante o mundo da bola e em 1965, comandou seu time ao único título europeu que conquistou por clube como jogador, a Inter-Cities Fairs Cup, hoje conhecida como Europa League. No mesmo ano, conquistou novamente a artilharia do campeonato nacional, feito que já havia conseguido em 1961 e 1960. Albert passou a levar a alcunha de imperador húngaro.

Na Copa do Mundo de 1966 Florián vivia seu auge técnico e físico, na plenitude dos seus 25 anos, o atacante estava pronto para se eternizar na história das copas como um dos maiores jogadores já vistos. Entretanto não foi exatamente como ele esperava.

Após um revés sofrido diante de Portugal na primeira rodada, os magiares foram jogar contra a temida seleção brasileira precisando da vitória. Em dia de gala, Albert liderou o esquadrão húngaro rumo ao triunfo frente à seleção canarinho. O duelo terminou 3 a 1 para a Hungria e apesar de não ter marcado gols, Florián saiu ovacionado do estádio.

Venceram a Bulgária posteriormente e se classificaram para as quartas de final, onde caíram diante da então União Soviética, hoje Rússia. Infelizmente, acabava ali o sonho de um novo pódio pra uma seleção que, naquela época, já sentia a falta do maior ídolo de sua história: Ferenc Puskas.

O sonho da glória húngara havia acabado, porém pouco depois a glória máxima de Albert chegou. Em 1967, após mais uma temporada primorosa vencendo mais um nacional com seu clube e sendo eleito o melhor jogador da Hungria, Florián foi agraciado com o prêmio de melhor jogador do mundo, o famoso Balon´Dor. O atacante acabou deixando na segunda posição o então campeão do mundo Bobby Charlton por uma diferença de 28 votos. Albert é o único húngaro na historia a conseguir esse premio.

O craque recebendo a maior honraria de sua carreira

A copa de 70 mostrava-se como mais uma afirmação do astro europeu, porém o destino nem sempre é condizente com o que queremos. Em 1969 jogando um dos jogos das eliminatórias para a copa contra a Dinamarca, o atacante infelizmente sofre uma fratura muito séria na perna e fica fora do torneio. Só voltaria aos gramados em 1971.

Depois desses tempos difíceis, era bem claro que o auge do atacante já havia se passado. No entanto, ainda sim conseguiu feitos coletivos importantes, tais como um honroso quarto lugar na Eurocopa de 1972 e a copa doméstica que ainda não havia conquistado, veio também naquele ano em questão.

A aposentadoria veio dois anos depois, pendurou as chuteiras com 33 anos, uma idade considerada precoce até mesmo para os dias de hoje. Por conta da gravidade da lesão que o jogador sofreu, não enxergo a aposentadoria como algo absurdo ou inesperado.

A grande curiosidade a qual me referi ao começar esse texto aconteceu ainda em seus anos de ouro. Em 67, apenas seis meses após a copa de 1966, Florián veio ao Brasil convidado pelo então dirigente do Flamengo, Gunnar Goransson, para a disputa da Taça Rivadávia Meyer. O torneio era de caráter amistoso e consistia em dois jogos contra o maior rival Vasco da Gama. Era a pré- temporada dos clubes cariocas.

Pelo flamengo, uma foto um tanto rara

O atacante jogou apenas a primeira partida do confronto, totalizando apenas 90 minutos com a camisa do Flamengo. Em toda a sua carreira, essa foi à única camisa que vestiu sem ser a do Ferencváros e claro, a da Hungria. Em sua curta passagem por aqui, nada de gols, mas deixou uma grande história pra contar. Ao menos foi pé quente. Na partida em que esteve o Flamengo venceu por 2 a 0. Naquele mesmo ano, sua bola de ouro o consagraria.

No dia 27 de outubro de 2011, Florián Albert veio a óbito. A causa foi uma complicação pós-cirúrgica após um procedimento em uma das artérias do coração, o jogador sofreu um ataque cardíaco e morreu. Seu enterro foi um dos maiores eventos do ano, contando com a presença de ex-companheiros de clube, e até mesmo o primeiro ministro e o presidente da Hungria. O velório foi televisionado para todo o país.

Já com certa idade, o atacante mostra com orgulho uma ilustração de seus tempos áureos

Mais um ícone que para nós brasileiros, é praticamente indigente. Mas que para toda uma nação é imenso. Que deus o tenha, por que os zagueiros nunca conseguiam, imperador!

Postado por Renan Castro 23 anos, administrador, torcedor do Flamengo, natural de Nova Iguaçu - RJ, fã de aviação e dono de três quadros: Vestindo o Futebol, Ícones Alternativos e Memória FC.