Hoje eu quis chutar uma bola
25 de maio de 2020
Categoria: 4-3-3

 

Diz minha mãe que minha primeira palavra foi BOLA. Dentro de uma lojinha de presentes, cujo nome no interior é bem mais interessante. Armarinhos. A sonoridade, o diminutivo. Mais intimamente brasileiro que isso só o futebol. No pequeno comércio da Dona Edna, eu sempre entrava e ficava admirado com aqueles coloridos pedaços de “capotão” pendurados, geralmente bem mais leves que uma bola oficial e bem mais pesada que uma criança de 1 ano de idade consegue chutar.

Talvez venha desse primeiro deslumbramento, o motivador fundamental da necessidade quase biológica, física, de chutar algo contra a parede. De observar o ir e vir, os barulhos, a natural sujeira que deixava no pé e no muro… mas realmente o que me fazia ter dependência da bola eram a histórias que dentro da minha cabeça ganhavam vida. Os gols, os estádios lotados, as jogadas, as entrevistas. Sempre criava tudo com muito esmero. As histórias eram emocionantes, reviravoltas, controvérsias.

Eu como personagem principal, camisa 10 de um Palmeiras vitorioso, cheio de outros craques, um técnico em ascensão e um estilo de jogo ofensivo. Sempre 20 anos a frente, uma espécie de previsão de um futuro que nunca chegara. Não como imaginei.

Lembro sempre de não demorar muito a entrar no meu mundinho para uma voz estridente vir da cozinha:

“Para de bater essa bola na parede, muleque!”

Minha vó, irritada com o barulho e já imaginando sua parede, recém pintada de um branco mais branco que sal, cheias de marcas pretas redondas. O pé sujo no sofá…

Da minha infância, cheia de mudanças radicais e alguns traumas, como de todos, os momentos de genuína felicidade marcam como uma cicatriz do bem. Pra sempre ali. Desses momentos, o mais feliz, era quando eu ia comprar uma bola nova. Geralmente após ter a furado, jogado na casa do vizinho, chutado na rua e visto um ônibus escolar, uma moto ou até um fusca a estourarem.

Na infância não tinha chuteiras e bolas da Nike. Mas a redonda sempre esteve presente em casa. (Foto por Laurence Griffiths/Getty Images)

Era um momento único. A escolha da mais cheia, pois não tinha uma “bomba” nem o bico para encher. No começo, escolhia também a mais colorida, criança é tudo igual. Mas depois, verde era o foco. Juntava moedas as vezes por semanas para ir a Dona Edna e escolher a próxima causa das dores de cabeça de Aparecida, a matriarca. Doze reais. Meu coração se enchia de alegria, e ansiedade para continuar as histórias de onde havia parado. Geralmente no meio da final de um campeonato importante. Disputava todas.

Hoje, aos 20 anos, me subiu uma vontade genuína de chutar uma bola na parede. De contar de novo, dentro de minha cabeça as histórias de glória que só ali residiam. Todos os personagens. Hoje eu quis irritar Aparecida, já falecida há mais de 5 anos. Sujar sua parede e ouvir seu grito: “TIRA ESSE PÉ SUJO DO SOFÁ”.

E não reprimi esse desejo. Como fiz com tantos outros, obrigado pela vida adulta. Saí em busca de uma bola pela cidade fechada devido ao vírus maligno. Encontrei uma lojinha de presentes, não a da Dona Edna. Mas a do Moreno. Lá havia exatamente o tipo de bola que comprava quando criancinha, meu apelido na rua era “gordinho”. O pessoal não era muito criativo.

Mas senti meu coração cheio de um sentimento que uns vão chamar de nostalgia. Eu acho que é só felicidade mesmo. A mais verdadeira.

Voltei para a casa ansioso pra chutar a bola na parede, com força, criar minhas histórias, divagar, entrar num mundo melhor e mais puro, onde a dor era apenas imaginária. Só se transportava para o real caso o dedão do pé saísse na colisão com o chão de cimento. Acontecia com certa frequência. Assim como as lâmpadas do quintal quebradas após um “bicudo” com força. Valia a pena, o importante era fazer gol.

E assim foi. Por 15 minutos. Num cruzamento alto para mim mesmo, eu subi com muita empolgação e cabeceei por cima do muro. Ouvi a bola bater no telhado do vizinho e ali cair.

Antes de poder ir apertar sua campainha, ouvi o seu pitbull, que chamo de “devorador de sonhos” rasgar minha bola com mais alegria que eu. O ar saiu. A felicidade também. Restou apenas essa crônica e a nostalgia.

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Postado por Igor Varejano 19 anos. Estudante de Jornalismo. Do interior de São Paulo, morando em Minas. Vivo em ódio por amar o Palmeiras e o Liverpool. Futebol é o que move a humanidade. Bom, pelo menos a minha. twitter.com/varejanoiu