Guia 4-3-3 do Brasileirão 2018 – Fluminense
12 de abril de 2017

 

Para começarmos a falar da versão 2018 do Fluminense, temos que fazer um breve resumo de como foi  2017 e seu final de ano conturbado. O Time de Guerreiros começou a temporada jogando um futebol muito ofensivo e bonito, animando toda a torcida. Era um time que fazia muitos gols, contudo, também sofria demais, principalmente de bola parada, bola aérea e falhas individuais dos jogadores do sistema defensivo. Isso acabou ocasionando a perda do campeonato carioca para o Flamengo. Com o decorrer do ano, o Fluminense teve problemas de lesões em demasia, venda de jogadores importantes (como o Richarlison), salários e direitos de imagens atrasados e até mesmo problemas de indisciplina, como no caso Wendel. Esses problemas forçaram Abel Braga a ter que montar três times diferentes com um plantel de poucas opções, resultando em um Brasileirão brigando na parte de baixo da tabela.

Um elenco que já era escasso teve ainda a perda de sete dos seus 11 titulares para o ano de 2018, graças a uma crise financeira (estima-se, de acordo com o vice-presidente de finanças, um déficit de 160 milhões para esta temporada) que assola o clube por um acúmulo de um misto de irresponsabilidades de gestões anteriores e gestão atual, gerando uma total sensação de terra arrasada. Mesmo com todos esses problemas o treinador Abel Braga, que tinha proposta para trabalhar em outras equipes, aceitou permanecer no Fluminense, prometendo fazer algo diferente do que era praticado no Brasil, com um time menos técnico e mais aguerrido, dando uma atenção maior para o setor defensivo.

Partindo disso, era natural que no mundo globalizado o sucesso do Chelsea, campeão inglês da última temporada, colocasse o 3-4-3 utilizado pelo italiano Conte como um modelo a ser usado no futebol brasileiro. O Fluminense versão 2018, foi mais um time no futebol mundial que bebeu dessa água executando uma variação de 3-4-2-1 com a bola e 5-4-1 sem a bola, visando diminuir a quantidade de gols sofridos que o clube teve em relação ao ano de 2017. É preciso ressaltar que essa mudança brusca de forma de jogo demanda tempo para ser implantada de forma correta – tempo esse não fornecido no futebol brasileiro.

No início do ano, o Fluminense pagou caro pela falta de tempo, fazendo uma péssima Flórida Cup e uma Taça Guanabara irregular, ficando fora da semifinal. Contudo, alguns males vêm para o bem. O fato do tricolor das Laranjeiras ter uma eliminação precoce forneceu duas semanas livre de treino para o técnico Abel Braga, que pôde acertar o time. O salto foi tão positivo que o clube venceu o segundo turno do carioca (chamado de Taça Rio) de forma invicta.

Abel tem tentado implantar esquema interessante no Fluminense.

O Tricolor das Laranjeiras utiliza um método de jogo em que valoriza o jogo de velocidade com soluções rápidas, usando bastante triangulações pelos flancos, seja do lado direito com Gilberto, Jádson e Marcos Junior ou pelo lado esquerdo com Ayrton Lucas, Richard e Sornoza. Além disso, vem se mostrando um time com jogo simples e direto, que se sai bem jogando no contra-ataque – como demonstrou nos dois clássicos contra o Flamengo, por exemplo. Outro fato a se destacar é a constate apresentação no momento ofensivo dos zagueiros Ibanez e Renato Chaves pelas laterais do campo tornando em alguns momentos do jogo os alas do fluminense em pontas abertos que volta e meia entram na área para concluir as jogadas (principalmente o Gilberto pelo lado direito fazendo essa “dobradinha” com o Renato Chaves) e também a aproximação do Sornoza da área no momento ofensivo, muito cobrada pelo Abel durante toda a Flórida Cup e que só veio a de fato se concretizar a partir do segundo turno do Campeonato Carioca.

Todavia, ainda existem problemas na utilização desse esquema. O 3-4-2-1 que busca virar um 5-4-1 na hora de se defender (com Gilberto e Ayrton voltando para fazer uma “linha de 5”, Sornoza pela esquerda e Marcos Junior pela direita voltando para fechar os flancos no meio campo) necessita uma rapidez na recomposição, algo que diversas vezes não é realizado, gerando lacunas no esquema. Outro problema que ficou nítido nos jogos contra o Vasco e, principalmente, nos dois jogos contra o Avaí na Copa do Brasil, é a dificuldade que o time de guerreiros demonstrou quando enfrentou adversários que jogavam com uma formação “espelhada” e necessitava ele propor o jogo. Nos dois embates com os catarinenses, o Fluminense demonstrou enorme dificuldade para furar a linha de cinco (que em alguns momentos virava até mesmo uma linha de seis) e nos jogos contra o Vasco, principalmente na semifinal do Carioca, sofreu para trocar passes no meio campo, muito em virtude da deficiência técnica para sair jogando com a bola nos pés dos zagueiros Renato Chaves, Gum e do volante Richard (que é muito voluntarioso na marcação diga-se de passagem, mas demostra dificuldade para fazer um passe mais vertical na saída de bola em velocidade).

Apesar desses problemas em alguns dos confrontos essenciais, é válido dizer que os problemas defensivos, tônica do tricolor na temporada 2017, estão bem menores devido às boas atuações defensivas do imortal Gum, do jovem, até o momento revelação do Fluminense no ano, Ibanez e seguras atuações, apesar de contestado na semifinal do carioca, do goleiro Júlio Cesar. Além da maior solidez defensiva é necessário ressaltar as boas atuações dos alas Ayrton Lucas e Gilberto, sendo sempre ótimas opções ofensivas e principais válvulas de escape do time.

Outro a ser destacado é Jádson, um jogador que joga simples, sem firulas, mas é essencial para a saída de bola do time pó-de-arroz, pois sempre aparece como opção para receber o passe mais curto e passa muito rápido a bola.  Além desses citados, o clube teve o artilheiro e o vice-artilheiro do campeonato estadual que foram respectivamente o contestado, mas eficiente, Pedro, e Marcos Junior. Gostaria de chamar uma atenção especial para o Pedro, centroavante jovem, muito participativo no jogo, mas que ainda tem bastante a evoluir nas tomadas de decisões e é muito cobrado pela torcida por isso.

Analisando as peças do Fluminense de forma individual, inegavelmente é possível constatar que o principal jogador e liderança técnica deste time se chama Junior Sornoza. Quando o equatoriano está em um “bom dia”, o meio-campo do flui muito melhor, a bola gira com mais facilidade e quando ele não está fazendo uma boa partida, nota-se uma grande dificuldade para a circulação da redonda. O “Papá” (assim chamado carinhosamente pela torcida tricolor) é tecnicamente o jogador diferenciado desse Fluminense mais fragilizado dos últimos anos e pode ser o jogador que leve o clube a fazer um Campeonato Brasileiro surpreendente neste ano.

Meia é a referência técnica do Fluminense.

Já olhando o elenco como todo, é possível constatar que, caso a diretoria não vá ao mercado e contrate de três a quatro jogadores para serem titulares ou, no mínimo, para brigar de igual para igual pela vaga na equipe principal, Abelão terá o mesmo problema de falta de peças do ano passado. Ouso dizer que seria um problema até mais grave, porque o elenco está enfraquecido em relação a temporada de 2017. Também é importante destacar que o estadual não é o melhor parâmetro possível para o Brasileirão, visto que já vimos campeões estaduais sendo rebaixados no mesmo ano. É necessário que a diretoria tenha consciência da necessidade de reforçar esse plantel para fazer um torneio nacional sem sustos.

Portanto, depois de toda essa análise, é possível dizer que a expectativa do Fluminense para esse Brasileiro é se manter na primeira divisão sem sustos. Um trecho do hino do clube diz: “Vence o Fluminense com o verde da esperança, pois quem espera sempre alcança”. A torcida tem a esperança que esse time possa surpreender e fazer uma boa campanha. Contudo, analisando os fatos, isso é o mais improvável. Mesmo assim, como duvidar? Afinal, como diria Nelson Rodrigues: “Eu vos digo que o melhor time é o Fluminense. E podem me dizer que os fatos provam o contrário, que eu vos respondo: pior para os fatos”.

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Postado por Pablo Boaventura Estudante de direito e grande apaixonado por futebol desde a infância. Tricolor carioca de berço, sócio do clube e frequentador assíduo dos jogos. Adora conversar sobre futebol brasileiro e, principalmente, sobre o futebol carioca.