Estereótipos: a ausência do negro como figura mentora no futebol
28 de novembro de 2019

 

Este é o quinto texto da minissérie abordando o negro no futebol brasileiro e seus pormenores. Nesta parte, falaremos sobre os estereótipos que norteiam preconceitos na hora de escolher um técnico e da mulher branca vista como um tipo de troféu por ascensão social. Temas delicados e que necessitam de uma narrativa bem didática ao leitor. Os textos anteriores podem ser encontrados clicando nos links abaixo. Boa leitura!

Primeiro texto

Segundo texto

Terceiro texto

Quarto texto

O ano é 2009 e o Flamengo se sagra campeão brasileiro apôs 17 anos na fila, a alegria toma conta do Rio de Janeiro e do Brasil em geral, o clube mais popular do país move multidões nas ruas em comemoração ao caneco, tão esperado pelos rubro-negros. No banco de reservas, estava Andrade, negro, parte do melhor time da história do clube que, naquele momento, se tornava o segundo técnico preto a ser campeão brasileiro na história do nosso futebol. Um campeonato que somava 50 anos de duração, que já foi dominado por dinastias fantásticas e que já escreveu momentos marcantes na história desse país. Em todos esses anos, era apenas a segunda vez que um treinador negro estava sendo campeão, tudo isso no país que contém mais negros fora do continente africano. O problema tá tão na cara, que nem é preciso analisar muita coisa e é lógico, Andrade foi o último negro campeão nacional por aqui até então.

Dos técnicos negros em atividade e atualmente desempregados, encontramos diversos exemplos de subserviência e desvalorização da mão de obra. Um deles é Cristovão Borges, que só conseguiu sua oportunidade no Vasco com o fatídico AVC que sofreu Ricardo Gomes, técnico da época. Após alguns trabalhos por outros clubes, está no mercado desde 2017. Jair Ventura é outro caso, efetivado no Botafogo após a saída do Ricardo Gomes (novamente) para o São Paulo, depois de seis anos entre idas e vindas como auxiliar, assistente e interino, dentro do próprio alvinegro. Vale lembrar que Jair Ventura é filho de Jairzinho, um dos maiores ídolos da história do Botafogo, presume-se que sua trajetória dentro do clube de General Severiano tenha sido facilitada por esse tipo de fator. O Andrade, inclusive, havia sido auxiliar de 9 técnicos até que pudesse ter a sua chance. Coincidência recorrente.

Existem, sim, alguns pretos que conseguiram trilhar uma carreira de sucesso na área técnica, mas mesmo considerando caras como Carlinhos, Didi e Valmir Louruz, ainda se enxerga um grande abismo racial em cargos de competência intelectual. Isso parte de uma linha tradicional racista que estereotipa o negro como uma “raça” que é propensa para a prática de esportes de desempenho, mas que dificilmente se adequa a obrigações intelectuais. Uma prova desse fato é o levantamento que fez o Superesportes, que apurou em abril de 2019 todos os dirigentes de clubes da serie A (incluindo treinadores), e só 3% eram negros. Sim, é isso mesmo, 3%. Leia aqui.

O professor Bruno Abrahão, da UFBA tem uma explicação coerente sobre o tema:

“O lugar do negro no futebol sempre foi restrito. No processo de popularização do futebol, nos anos 1930, ele ganha o espaço nos clubes, mas não tem lugar na sede social, nos eventos da elite. O espaço dele é restrito ao campo de jogo. O mesmo pode ser visto na cúpula dos clubes: quem manda ainda é o homem, branco e heterossexual. Muitas vezes, a exceção que confirma a regra é usada para encobrir esse universo majoritariamente branco, caso do Roger, que é treinador.”

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A agulha no palheiro.

A alcunha do preto selvagem e avesso a cultura é uma falácia que provém de séculos e séculos de mitos reforçados por falsos profetas.  A Igreja Católica, no auge da sua influencia na sociedade municiou teses absolutamente bizarras como a “Maldição de Cam”, que afirmava, se baseando em fatos torpes e ambíguos do primeiro testamento da bíblia, que o povo negro era um povo amaldiçoado e fadado ao fracasso. Essa foi uma das várias teorias que surgiram para legitimar a escravidão perante a sociedade branca e religiosa da Europa, como cita o Padre Antônio Vieira nos seus sermões (XI e XXII):

“A África é o inferno onde Deus se digna de retirar os condenados para, pelo purgatório da escravidão nas Américas, finalmente alcançarem o paraíso” dizendo ainda que “é melhor ser escravo no Brasil e salvar sua alma do que viver livre na África e perdê-la”.

A MULHER BRANCA VISTA COMO TROFÉU

O estereótipo do preto burro e ignorante, que serve apenas para o esforço físico, segue firme e forte no caderninho de verdades dos altos conselhos e diretorias de grandes clubes, pelo que mostram os dados. Mas os estereótipos não são apenas praticados por brancos para com negros, os padrões de sociedade se tornaram tão impregnados no imaginário do ser humano, que o atleta negro bem sucedido tem que, quase sempre, ter uma bela mulher branca ao seu lado. Como um símbolo de vitória ou um troféu, a máxima se encontra sempre em maioria quando paramos para observar, “clarear” a família de um preto rico é a praxe de quem brada o slogan de um amor sem cor.

Os padrões de beleza da sociedade sempre foram brancos, o cabelo bom é o liso, o olho bonito é o claro, o nariz perfeito é fino, os traços de modelo são suaves. As características físicas do preto são subestimadas ainda na fase infantil, quando o negro, diferente do branco padrão, não tem o privilegio de ser correspondido pela menininha branca que ele gosta, com isso se cria um desejo fantasioso de algo que não se pode ter, na condição de negro.

Então, ao adquirir privilégios financeiros, o homem negro (e aqui, tratamos o jogador de primeiro nível que é negro), vai atrás do que seria o seu privilegio social, coisa essa que se conecta diretamente com a perda do tato com a sua origem. No livro “Pele negra, Máscaras brancas”, de Frantz Fanon, é descrito em dois parágrafos o racismo estrutural em sua matéria prima:

“Da parte mais negra de minha alma, através da zona de meias-tintas, me vem este desejo repentino de ser branco. Não quero ser reconhecido como negro, e sim como branco.

Ora – e nisto há um reconhecimento que Hegel não descreveu – quem pode proporcioná-lo, senão a branca? Amando-me ela me prova que sou digno de um amor branco. Sou amado como um branco. Sou um branco. Seu amor abre-me o ilustre corredor que conduz à plenitude”.

 

Essa foto das mulheres dos jogadores do Flamengo. juntas na comemoração da Libertadores deste ano, fala por si só

 

Postado por Renan Castro 23 anos, administrador, torcedor do Flamengo, natural de Nova Iguaçu - RJ, fã de aviação e dono de três quadros: Vestindo o Futebol, Ícones Alternativos e Memória FC.