O jornalismo esportivo e o momento do futebol brasileiro – André Rocha
15 de Maio de 2017
Categoria: Entrevistas

Reprodução/Esporte Interativo

Em meio a um jornalismo esportivo que muitas vezes se perde na tentativa de virar entretenimento, ainda há espaço para a análise e a informação, principalmente na internet. André Rocha, ex-comentarista dos canais Esporte Interativo, é um exemplo disso. Ele mantém um blog do Uol com postagens diárias, onde analisa, questiona e aprofunda o futebol. Mesmo com um maior alcance em frente às telas, a escrita lhe dá mais liberdade, por isso, é cada vez mais tendência. Além disso, a internet leva vantagem pela facilidade.

“A diferença é a portabilidade, a possibilidade de assistir a um vídeo em qualquer lugar, até no trabalho. A TV está começando a entender isso investindo nos plays. Eu gosto de escrever, pois tenho mais autonomia. Mas o futuro parece ser o Youtube, sem dúvida. Exatamente por juntar as duas coisas com uma linguagem mais moderna – embora abomine essa ditadura do vídeo de não mais que três minutos. Difícil produzir conteúdo de qualidade em tão pouco tempo”

Apesar da lenta percepção e tentativa de adaptação dos grandes meios, o panorama não é tão animador assim. A mente de quem comanda é antiquada, assim como a cabeça de grande parte do público, já acostumada com o atual modus operandi. Sair da caixa ainda pode levar um bom tempo.

“Ele está em transformação, mas o velho persiste pela visão conservadora dos que assinam o cheque, que também não são jovens, na maioria. E o grosso do público se habituou com essa fórmula antiquada, ainda que muita gente já esteja buscando outro tipo de conteúdo. O grande problema é essa redoma de ignorância voluntária, em que formadores de opinião e quem consome prefiram ver o futebol sempre do mesmo jeito”

Se a mídia não tem se importado muito com o atual panorama de análise do futebol brasileiro, é o torcedor quem deve dar os primeiros passos. Para André, falta vontade de entender o jogo na maioria daqueles que gostam dele. É hora de mudar a imagem que os clubes têm de seus adeptos.

“Se você quer ser ouvido pelo seu clube de coração procure entender mais sobre todos os aspectos do esporte. Não se deixe enganar por quem acha que você só é capaz de sentir, não pensar. Torcedor não é um acéfalo que vê no futebol o último refúgio para a barbárie e os instintos mais primitivos. Combinando razão e emoção você poderá ser um agente transformador do status quo do seu time de coração e do futebol brasileiro”

O torcedor precisa ser mais do que sentimento e paixão (AP Photo/Victor R. Caivano)

De um imprensa despreparada, pérolas são ditas diariamente para milhões de telespectadores. O pior é que grande parte destes compra as ideias. Uma delas, por exemplo, é repetida até mesmo por profissionais que trabalham com futebol. Um destes exemplos é a colocação de que grandes treinadores da Europa não dariam certo por aqui e, por isso, não merecem tanto reconhecimento. É claro que treinar no Brasil é realmente complicado, mas não exatamente por motivos louváveis.

“É um desafio por tudo de errado que cá existe: pressão desproporcional, imediatismo, calendário inchado, gramados bizarros. Por isso é um absurdo quando afirmam que Guardiola ou Mourinho sofreriam aqui por essas dificuldades. Seria como dizer para um chef de cozinha: “olha, faça aí uma boa comida, mas nessa cozinha suja, com equipamentos improvisados e alimentos fora da validade”. Se um dono de boteco conseguir produzir algo comível, por estar acostumado a este cenário, não quer dizer que ele é melhor que o profissional que estudou e trabalha com excelência nas condições adequadas”

Em meio às dificuldades enfrentadas pelo verdadeiro jornalismo esportivo, resta ao torcedor ir atrás de real conhecimento, análise e aprofundamento. Já vimos na prática o quanto o imediatismo e a falta de entendimento afetam dentro de campo e no entorno dele. O futebol começa com quem o faz acontecer. Não é só a mídia que precisa mudar. O panorama depende de todos os envolvidos. Informe-se, entenda, aprofunde-se. Garantimos que não vai se arrepender.

Confira outras respostas do comentarista:

Como parte da imprensa, quanto da demissão de Eduardo Baptista você credita a mídia esportiva nacional? Crê que ele foi mais pressionado pelo clube ou pelos jornalistas?

Complicado quantificar isso, mas quando ele se posicionou contra parte da imprensa, obviamente virou alvo dos “canhões” exatamente dos que ele atacou na coletiva em Montevidéu. De qualquer forma, o fato de ser um jovem treinador fez com que a explosão fosse vista como desespero, uma fragilidade que não é condizente com um líder. E a derrota para o Jorge Wilstermann, acoplada à eliminação no Paulista, foi a senha para a demissão. Sem contar o peso enorme da sombra do Cuca.

O Brasileirão começou neste final-de-semana cercado de expectativa e bons times. Acredita que o título fica realmente entre a dupla Flamengo e Palmeiras? Quem pode surpreender?

Se antes já era um puro chute apostar em algum favorito em maio para um campeonato que termina no fim do ano, agora com a Libertadores e a Sul-Americana disputadas durante toda a temporada, é até uma irresponsabilidade para os comentaristas. Mas, claro, Flamengo, Palmeiras e Atlético-MG são candidatos naturais. Corinthians também pode vir bem forte.

Enquanto aqui a competição se inicia, na Europa o clima é de final. Quem mais merece vencer a UEFA Champions League e por quê?

A Juventus parece mais sólida e o título que não vem desde 1996 seria um prêmio ao clube que se transformou numa ilha de excelência no combalido futebol italiano. Mas não será absurdo o Real de Zidane faturar o bicampeonato europeu que ainda não aconteceu na Era Champions League. Ambos são equipes que sinalizam o presente e o futuro do esporte em seu mais alto nível: equipes capazes de jogar com posse de bola ou reagindo, nos contragolpes, conforme a necessidade. Times “camaleões”. Mas para não ficar no muro, meu palpite é Juventus campeã. Está com mais “fome”.

Como avalia o trabalho e o comportamento de Rogério Ceni a frente do São Paulo? O tema tem sido muito debatido recentemente. Vê prepotência nas entrevista do ex-goleiro?

Ceni arriscou tudo ao começar pelo São Paulo. Tem a vantagem de ter uma paciência incomum no nosso futebol por ser o maior ídolo do clube. Mas a expectativa também é exagerada para um técnico iniciante. Quanto ao temperamento e às respostas às críticas, não seria diferente dos tempos de jogador. Rogério Ceni é aquilo, gostem ou não. Como escrevi no blog, se fosse ele teria começado no Sinop.

Postado por Andrew Sousa Formando em Jornalismo justamente pela paixão pelo esporte, sente enorme prazer em poder escrever sobre o que ama. Apaixonado por um bom domínio e alguns jogadores ruins, vive o futebol desde o primeiro dos seus vinte anos.