Enquanto os homens exercem seus podres poderes
23 de março de 2020
Categoria: 4-3-3

 

Num momento onde praticamente não temos eventos esportivos ao redor do mundo, trazemos algumas correlações entre trechos de grandes músicas que marcaram épocas e a situação atual do futebol – e do esporte como um todo:

I
E o professor não saiu pra lecionar pois sabia que não tinha mais nada pra ensinar

 

“O Dia em que a Terra Parou”. Raul Seixas definia, em 1977, o que o mundo havia isto poucas vezes até o ano de 2020, mais especificamente no mês de março. A chegada assustadora e quase incontrolável do novo coronavírus, que traz consigo a doença Covid-19, uma enfermidade respiratória semelhante à gripe, cujos sintomas são tosse, coriza e febre, mudou os rumos do planeta. Nações foram tomadas não apenas pela fácil transmissão do vírus, como também pelo medo, pelo receio, e pela morte. Até o momento, mais de 240.000 casos em todo o mundo, com um total de mais de 10.000 mortos, que se concentram, principalmente, na China, na Itália e no Irã, mas que crescem a cada dia na Espanha, nos EUA, na Alemanha, e aqui no Brasil. Não há ninguém a salvo. Ainda que, por vezes, tardiamente, governos fazem o que era, há poucos dias, impensável: fronteiras fechadas, direito de ir e vir negado, contato físico (quase que) proibido. Tudo a fim de frear o avanço do novo coronavírus, visto que ainda não há vacina para o mesmo. Crise global, economias ruindo, pessoas morrendo. Raul só errou na música ao dizer que “o doutor não saiu pra medicar pois sabia que não tinha mais doença pra curar”. E o esporte? Como fica nesse mar de problemas que a humanidade enfrenta?

II
My independence seems to vanish in the haze

 

“Help!”. Os Beatles, em 1965, lançaram música, álbum e filme, todos sob o mesmo título homônimo. “Minha independência parece desaparecer na neblina”, em tradução livre, resume muito bem o momento pelo qual passa o esporte. Algo tão independente, seja na base de fãs, seja na economia, seja em ídolos e recordes, o esporte é, facilmente, um dos grandes pilares da humanidade. Tão importante para alguns como o ar que respiramos e o chão que pisamos, imaginar um mundo sem esporte é, consequentemente, enxergar algo cinza, sem vida, sem desafios, sem emoção, sem risos ou choros, sem abraços, beijos em taças e medalhas, ou mãos nos olhos a fim de cobrir as lágrimas pela derrota. O esporte, tão independente, não aguentou. Sucumbiu. Praticamente, acabou por um tempo. Não há prática de esporte profissional em (quase) nenhuma parte do globo. A pandemia está vencendo esta batalha. E como retomar? Quando isso ocorrerá? E, pensando de maneira negativa: ocorrerá?

 

III
Todo artista tem de ir aonde o povo está

 

“Nos bailes da vida”. Milton Nascimento, junto com seu eterno parceiro musical Fernando Brandt, compôs, em 1981, um dos grandes sucessos de sua carreira. A frase mais marcante da canção revela a definição de vida de qualquer artista: ir ao encontro de seu povo. E esporte é, per se, arte. As pessoas estão trancafiadas em casa por sua própria segurança. Inclusive, para a dos próprios esportistas, que não podem ou devem se sujeitar a passar por esse risco mundial. Não é saudável, não é racional, não é confiável estar às ruas; e, por um tempo considerável, não o será. Como ocorrerão eventos esportivos sem seu povo? Como promover alegria para ninguém nos estádios, arenas, quadras, estradas, circuitos, piscinas e demais espaços esportivos pode, realmente, ser algo motivador para qualquer atleta? Como um artista pode povoar um lugar onde seu povo não está? Quem teria essa mentalidade tão limitada, fútil, ignorante, mesquinha, hipócrita e maquiavélica de expor pessoas a tamanho perigo?

Qual o sentido de disputar partidas sem torcida?

 

IV
Empty spaces, what are we living for?

 

“The show must go on”. Frase imortalizada em 1990 pela banda Queen, a música foi lançada um mês antes da prematura morte de seu vocalista Freddie Mercury por complicações de AIDS. Sua primeira linha diz “espaços vazios, pelo que estamos vivendo?”, em clara sintonia para com o momento vivido mundo afora. Ainda assim, lideranças mundiais se agarraram ao título da canção, que traz o mantra “o show tem que continuar”. A qual custo? A qualquer custo. Tampouco se trata de uma questão ideológica. De espectros políticos antagônicos, os presidentes de Brasil e Argentina, Jair Bolsonaro e Alberto Fernández, respectivamente, concordaram em uma coisa: são contra a paralisação de seus campeonatos nacionais de futebol. Sem qualquer racionalidade, as afirmações de ambos líderes mostram uma preocupação com a diversão presente na famosa expressão latina panis et circenses (pão e circo), mas não com o bem-estar das pessoas envolvidas em um evento desportivo. As pessoas, em quarentena por motivos já citados, devem ter algo para se entreterem. E o futebol funcionaria perfeitamente como esses antolhos sociais. Só se esquecem de que os responsáveis pelo espetáculo esportivo também são humanos: têm famílias, riem, choram, nascem, crescem, sangram, morrem. Ficarão expostos por incompatibilidade de calendário esportivo? Se projetarão fora de suas casas, sem a segurança de seus lares, a fim de deixar a economia rodando? Estádios vazios não vão resolver o problema da epidemia. Mas tal pensamento ainda parece ser evoluído demais para determinados espécimes.

 

V
Longe o profeta do terror, que a laranja mecânica anuncia

 

“Alucinação”, de 1976, veio a se tornar um dos grandes sucessos do cantor Belchior. Dizia não estar interessado em nenhuma teoria, e que amar e mudar as coisas lhe interessava mais. Esta última parte não cabe ao COI, Comitê Olímpico Internacional, mas certamente o título desta coluna sim. A realização das Olímpiadas e Paralimpíadas em Tóquio, no prazo determinado de 24 de julho e 25 de agosto de 2020, nesta ordem, parece nada mais do que uma fantasia. Um sonho de uma noite (mal dormida) de verão. É ignorar o que o mundo vive, e não ter a sabedoria e a consciência de que não apenas não há como ocorrerem tais eventos, como também não há clima para tal. É impensável supor que, dentro de pouco mais de três meses, o mundo pararia para ver atletas em seu auge, naquele que é o maior evento do mundo. Cogitar a realização de tais fenômenos esportivos sem a presença de público mais parece uma piada do que algo de fato tangível.  A maior festa humana sem humanos. Só as “máquinas” que competem, não pelos seus povos, mas sim pelas três medalhas preciosas, assim devem pensar os organizadores do COI. Adiar ou cancelar uma edição olímpica não é fácil. Jamais o foi e, muito provavelmente, jamais o será. Ainda assim, há prioridades mundiais. E o esporte não é uma delas. O profeta do terror existe, e anuncia que não é cabível nem respeitoso para com o povo japonês realizar algo em um momento de tanta reflexão mundial.

A maior festa do esporte também precisará se adequar ao caos trazido pela COVID-19

 

VI
Motos e fuscas avançam os sinais vermelhos e perdem os verdes

 

“Podres Poderes” mostra um pouco do comportamento brasileiro na visão de Caetano Veloso no ano de 1984. O fato de se arriscar no sinal de “pare” para ignorar o sinal de “vá” muito reflete o pensamento daqueles que insistem em levar o país e o mundo para trás. Que teimam em desrespeitar ordens morais, éticas e sanitárias acima de suas próprias ignorâncias, e que veem uma possibilidade de ascensão quando o mundo todo está a cair. Ao invés de darem a mão para ajudar, dão a mão para passar doenças: mesquinhez, insensibilidade, estupidez e coronavírus. É, Caetano. Somos uns boçais.

Avatar
Postado por Pablo Heringer Brandão Capixaba de nascimento, mineiro de coração. Simpatizante de inúmeros clubes, torcedor ferrenho do Atlético-MG e das seleções holandesa, uruguaia e serra-leonense. Amante de escudos, rivalidades e histórias que circundam toda e qualquer partida de futebol.