Eles não ligam pra gente
21 de outubro de 2019

 

Parafraseando o cartaz pendurado no Morro Dona Marta e na voz infantil que grita no clipe They Don’t Care About Us, eles realmente não ligam pra gente.

O esporte que já parou uma guerra, que é instrumento de união entre povos e motivo de felicidade pra tantas pessoas vive tempos sombrios sob a tutela de confederações e pessoas cada vez mais gananciosas e alheia a realidade em sua volta.

Os últimos acontecimentos no mundo do futebol nos acendem uma luz vermelha. São tempos sombrios onde o individualismo, a ganância e falta de empatia atinge todos os níveis e camadas da sociedade.

Os repulsivos casos de racismo que estão pipocando pelos estádios mundo afora; mulheres que precisaram de uma mártir atear fogo no seu próprio corpo pra poder ter a liberdade de pisar dentro de um estádio; jogadores demonstrando apoio a ofensivas militares em outro país.

São casos de um intervalo pequeno, coisa de duas semanas, no máximo. E o que espanta é a naturalidade que isso acontece e que, apesar de pesadas as criticas da imprensa e pessoas do meio, esbarram exatamente onde quero criticar.

Quem tem a caneta, o poder de mudar, de usar seu tamanho e influência para fazer acontecer. O protocolo da UEFA para casos de racismo em jogos de futebol é muito brando na minha opinião, e vimos na partida das eliminatórias pra Eurocopa entre Bulgária e Inglaterra que não é efetivo.

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Avisar pelo sistema de som do estádio que a partida pode ser paralisada não vai coagir ninguém a cessar os insultos e saudações nazistas. Paralisar pra depois retomar a partida também não surtiu tanto efeito. A ação definitiva que deveria ser a única adotada nesses casos não chegou a acontecer e fomos obrigados a ver cenas nojentas em um estádio de futebol.

O que entristece mais ainda é que a repercussão na Inglaterra foi de conformismo por parte de jogadores e ex-jogadores que já viveram na pele casos assim em seu próprio país. Fora a dissimulação dos jornalistas e do treinador da seleção búlgara, que afirmaram não ter ouvido as ofensas. Uma lástima.

Vemos também as confederações responsáveis pela palavra e mão pesada agirem sempre com declarações em tom leve e punições risíveis. Além da falta de pulso em casos de racismo, temos a CONMEBOL colocando em risco atletas e comissões técnica pra disputar a Libertadores Feminina num Equador em crise política, com confrontos violentos entre manifestantes e polícia, toque de recolher, jogadoras precisando mudar de hotel pois não era garantida sua segurança.

A única canetada que faz ser cumprida é do contrato assinado e do cheque depositado. Os direitos de transmissão já estavam vendidos e todo o acerto com o Equador já estava rubricado no contrato, então as jogadores que se virem enquanto a CONMEBOL discursa que o futebol está alheio ao mundo exterior.

Cruzando o Atlântico vemos UEFA pouco ligando pra ofensiva turca no norte da Síria perseguindo o povo Curdo e  mantendo a final de sua principal competição no país. Que em seu território ficou anos perseguindo e vulnerabilizando uma minoria, chegando até mesmo a criminalizar o ato de falar o idioma curdo em seu território.

UEFA faz pouco caso de apoio dos jogadores à ofensivas na Síria

Após a Itália liderar o pedido pra que a partida não seja disputada no Estádio Olímpico de Ataturk, Michele Uva, vice-presidente da UEFA, em resposta ao site Tuttomercatoweb disse que: “Nós desempenharemos nosso papel em total respeito à autonomia e independência do esporte, mas certamente não podemos substituir a ONU, UE, Estados, diplomatas, embaixadores e outras instituições políticas. Depois disso, as decisões da UEFA são tomadas em conjunto com o Comitê Executivo da UEFA e o Presidente”.

Entre palavras vazias, declarações engessadas e ações brandas das confederações que apostam em multas ínfimas e poucos jogos de portão fechado como meio disciplinar. Não podemos ter esperança em instituições que tratam desproporcionalmente o descumprimento do fair play financeiro. Agora vemos rigor e pouco espaço pra argumentação. Basicamente você pode colocar vidas em risco, ofender racialmente alguém, fazer gestos nazistas no meio do estádio e começar um genocídio no país ao lado, você só não pode descumprir o fair play financeiro e fazer festa no estádio com sinalizadores e bandeirões – esse ultimo visto como crime mortal em quase todo lugar do mundo.

Com tudo isso acontecendo o nosso querido futebol vai tentando sobreviver mesmo com seus “donos” fazendo um esforço hercúleo pra desmoralizar e o afastar das pessoas. Por dinheiro, estamos perdendo o direito de ver jogos, já que os ingressos são cada vez mais caros nos estádios. Estamos perdendo o direito de assistir jogos na TV aberta, pois o pay-per-view e as exclusividades de transmissão são bem mais lucrativos para as confederações e campeonatos. Estamos perdendo a chance de ver a Copa do Mundo mais perto de nossa casa e em estádios históricos pois os petrodólares estão comprando o direito de sediar o grande evento.

É preciso um pouco de loucura pra gostar desse esporte encantador, mas sendo sincero com vocês, sinto que estamos precisando deixar de ser humanos pra poder encontrar o encanto que o futebol nos traz.

Postado por Caíque Andrade Técnico em química e agora estudante de jornalismo, sempre amei escrever e sempre amei futebol.