Do desestruturado futebol brasileiro à (não tão) dura realidade da quarta divisão turca – Diego Neres
11 de fevereiro de 2016
Categoria: Entrevistas

O futebol brasileiro precisa melhorar em sua organização e estrutura. Apesar disso não ser novidade, é desconfortável saber de jogadores que saem do Brasil para jogar em divisões inferiores da Turquia ou outros países. Foi o caso do lateral e ponta direita Diego Neres, de 25 anos e que atualmente joga pelo Gungorenspor, que fica em Gungoren, pequeno distrito industrial da capital Istambul e disputa uma divisão equivalente à quarta divisão do país.

Natural do Rio de Janeiro, o atleta contou ao 4-3-3 a sua saga no futebol e nos deixou impressionado com o nível de estrutura e organização de clubes da quinta – e semiprofissional – divisão turca, que são do mesmo nível, ou superior a de alguns clubes que disputam as Séries A e B do futebol brasileiro.

1. Conte como foi sua trajetória até o início no futebol, os clubes que passou até chegar no Gungongoren.

Comecei minha trajetória no futebol de campo em 2002 no Madureira, onde joguei meu até 2005 e depois retornei em 2008. Saí, passei um ano estudando em um colégio integral e vi que eu queria mesmo era jogar futebol. Treinei no Fluminense e no Botafogo, mas nada oficial e acabei indo para o Estácio, onde fiz o juvenil, juniores e dei o pontapé inicial no futebol profissional. Depois, atuei por outros times do Rio, da segunda divisão e terceira divisão, como o Angra dos Reis e o Barcelona. Em 2011, saí do Brasil pela primeira vez, através do Wellington Silva (ex promessa do Flu), para fazer um período de treino no Levante, no time B, onde aprendi muito, apesar de não ter atuado devido a quantidade de estrangeiros no elenco. Fiquei apenas treinando e logo depois fui para o Alcoyano, da segunda divisão onde também treinei no time B. Depois, fui para o Ponferradino já no time principal, mas tive muitas lesões e acabei voltando ao Brasil para fazer o tratamento.
Me recuperei, retornei a Europa, fiz um teste lá na Turquia, em um clube de segunda divisão, mas o eles não podiam contratar mais estrangeiros também e eu não consegui ficar lá. A partir disso, foi complicado. Havia acertado com um time do Chipre, onde as coisas também não deram certo e retornei a Turquia onde as portas enfim abriram no Çorluspor, um time que jogou a primeira divisão no passado e está tentando se reerguer. Joguei lá em 2014, fomos campeões da quinta divisão, conquistamos acesso à quarta e fui um dos artilheiros do time com 12 gols e fiz uma grande temporada. Nessa temporada, eu ia jogar na Grécia, no Agrotikos Asteras , mas o governo da Grécia não me concedeu o visto. O clube já tinha arrumado casa e tudo para mim e foi um baque, um desânimo muito grande, principalmente no caso do Agrotikos, em agosto. Então, acabei voltando para a Turquia e fui para o Gungoren (quarta divisão), que por ser semiprofissional, aceitava estrangeiro após a janela e hoje, aqui estou. Mês passado, ia acertar com outro clube grego, o Ialysos 1948, mas infelizmente, tive os mesmos problemas com o visto e não pude ir para lá.

2. Teve alguma dificuldade, ou situação inusitada, alguma história diferente que passou em alguma das equipes as quais jogou?

No início, o idioma sempre é o mais complicado. Acabei passando por situações que para me comunicar, tive de usar mímica, fingir que tinha entendido alguma orientação do treinador para continuar a palestra, até porquê, ele ia repetir e eu ia continuar sem entender nada.  Agora, uma situação engraçada e até constrangedora, pela cultura ser bastante diferente, foi na apresentação do time, ainda no Çorluspor. Lá, a gente se apresentava a torcida, ao prefeito
da cidade, aos patrocinadores antes de começar a temporada. Até aí, beleza, o time reunido na frente do campo, as apresentações formais para começar a temporada eu e os outros jogadores enfileirados… Até que chegou um rapaz trazendo uma ovelha e eu pensei: “Pô, deve ser o mascote do time né, ovelha bonita, bem tratada”. Aí, o pessoal começou a fazer as orações, agradecendo, para abençoar e nesse momento eles sacrificaram a ovelha com uma faquinha e eu não esperava por isso, ali na minha frente. Mas isso é uma tradição deles. Sacrificaram o cordeiro para abençoar a temporada, uma situação que eu fiquei bem surpreso e até assutado, mas aí você vai se acostumando pela cultura do país.
3. Como era a remuneração no Çorluspor, tendo em vista que era uma equipe semiprofissional? A vida melhorou com a ida para o Gongungoren?
Em relação a remuneração no Çorluspor apesar deles serem semiprofissionais, o clube paga um valor ao atleta, como se fosse uma luva assim quando ele chega e depois mantém com salário, mais premiações de vitória e tudo… comparando ao Brasil é extremamente superior a uma divisão como a série C e D, onde os valores são muito abaixo e quando os clubes pagam. Nesse aspecto, os turcos pensam de forma profissional e claro, que não é aquela quantia que te possibilite a fazer uma reserva financeira, mas para se manter é o suficiente. Além disso, as equipes proporcionam alojamento e comida e oferecem uma boa estrutura. O Gungoren, está na mesma divisão do Çorluspor e foi mais uma segunda opção pelo ocorrido na Grécia. As condições de vida melhoraram um pouco, mas todos os clubes aqui têm boas condições, aqui é bem parecido como era no “Çorlu”.
Diego era muito querido pela torcida do Çorluspor.

 

4.Como é o futebol turco de modo em sua organização e qualidade? No Çorluspor, apesar de ser um time semiprofissional, percebi que tinha bastante torcida no estádio e que a torcida gostava muito de você. Como foi sua passagem por lá?
Em relação a organização, por mais que não seja uma divisão superior, é um campeonato bem organizado, com duração de uma temporada. Em relação a qualidade, claro que não tanta como tem no Brasil, mas são bons campeonatos, existem muitos jogadores bons. Os turcos são muito apaixonados por futebol e estão trabalhando muito, e vão colher esses frutos no futuro. No Çorlu eu fui muito feliz, as pessoas gostavam muito de mim. A torcida é muito fiel e eles mantinham uma média boa média de público por jogo. Fui muito bem tratado e isso me apaixonou muito no tempo que eu joguei por lá.
Sobre estrutura, pelo que conheci em outros clubes e aqui, são todos com boa estrutura e estádio próprio. A estrutura é boa, nada de primeiro mundo, até pela divisão, mas te proporciona tudo o que você precisa de básico pelo menos, para você ficar tranquilo, treinar e focar nos jogos. Dificilmente o salário atrasa, se estiver faltando os jogadores reivindicam, não treinam. Não é como no Brasil onde o absurdo se tornou normal, por achar que há o que fazer. Eles aqui têm uma cultura mais respeitosa com os atletas, os materiais são de qualidade, os profissionais são bons também, apesar dos preparadores brasileiros estarem muito à frente. Preparadores físicos, preparadores de goleiros, treinadores, no Brasil, você encontra excelentes, mas isso acaba não aparecendo algumas vezes por não terem a estrutura que eles mereciam. Então você tem muitos bons profissionais no nosso país e poucos mercados do tamanho de sua qualidade.
 
5. E em seu novo clube, você foi bem recebido, tem sido titular?
Sim, no clube eu já cheguei e pude me tornar titular, no primeiro jogo eu fiquei no banco e o campeonato já com 3 rodadas, no jogo seguinte já entrei de titular e desde então permaneci na equipe. E estou me sentindo bem, alguns jogadores que estavam antes no Çorluspor vieram para cá e por mais que eles adorem os brasileiros, respeitem a nossa história no futebol, mas tem um ou outro que tentam atrapalhar, ficam bravos por estar “roubando o lugar deles”, mas nada que me atrapalhe, pois o que decide é como você joga dentro de campo e todo o dia tem que estar provando.

 

Diego (camisa 94) e time do Gungoren se preparando para a partida.
6. No cenário do futebol brasileiro, o que você acha que falta? Provavelmente, você sentiu na pele algumas dificuldades para viver do futebol. Acha que se o futebol brasileiro e as peneiras fossem mais transparentes, você teria espaço em uma grande equipe?
Sem dúvidas, no Brasil faltam muitas coisas. No futebol brasileiro, as pessoas querem resultados rápidos, sem fazer um trabalhinho antes. Aprendi bastante essas coisas no futebol espanhol. Lá, visam muito o trabalho, na Turquia mesmo, eles prezam por dar condições e estrutura boa de treinamento para os atletas poderem trabalhar. Na Espanha eu pude perceber que é feito um trabalho evolutivo e específico. Eles trabalham bem as suas necessidades e durante um ano lá, devo ter feito dois ou três coletivos. Lá você trabalha muito passe longo, curto e nos times do Brasil que passei pelo menos, dificilmente você isso, até pela qualidade do campo e as más condições dos clubes no
Brasil. Temos excelentes jogadores uma mão de obra além da demanda, mas não preparamos bem esses atletas. Por isso até, os clubes acabam não trabalhando tão bem, pois  sempre tem outro jogador querendo estar no seu lugar, e até por isso, os clubes acabam desvalorizando bastante alguns jogadores por esse modelo. Tive a oportunidade de disputar bons campeonatos, jogar em bons times e não ficar por situações de empresários, questões extracampo mesmo. Situações onde tinham que favorecer alguém, que com certeza, não era eu. Infelizmente eu sofri com isso. As
pessoas pensavam mais no dinheiro do que na minha carreira, mas não era só comigo. Outras pessoas passaram e vão passar por isso. É triste, mas é aquela questão do imediatismo que falei. Se fosse só mostrar dentro de campo, o caminho seria bem menos complicado, mas tenho certeza que um dia isso vai melhorar.
7. Quais são suas principais características dentro campo?
Acredito que o físico ajuda bastante. Na minha opinião, sou um jogador que aprendeu a defender e ter mais tranquilidade com a bola também. Antigamente eu tentava fazer tudo ao mesmo tempo, queria mostrar, mas fui aprimorando. No Brasil, eu era um lateral ofensivo e na Europa, como o lateral tem que marcar mais, eu comecei a jogar como ponta e aprendi até fazer gols. Minhas principais característica são o drible a velocidade. Tenho aquela
vontade de ir para cima, o jeito de jogar do brasileiro né? Acho que é com isso que eles se encantam.



8. Quanto tempo você acha que um clube da divisão do Gungoren ou do Çorluspor demoraria para subir às divisões profissionais?

Acho que em 3 ou 4 anos dependendo da estrutura, do clube e da formação os times aqui têm condições de sair de uma quarta ou quinta divisão e chegar numa primeira ou segunda divisão e se manter. Até nos clubes que passei já disputaram essas divisões e a dificuldade em chegar é que são muitos clubes com essa mesma estrutura, mas não é impossível como no futebol brasileiro, que você vê a dificuldade de equipes menores de bater de frente e se manter no cenário nacional. Você vê há anos no futebol carioca por exemplo, os 4 grandes dominam e é quase impossível os menores chegarem a esse nível, teve o Macaé, Madureira e Duque de Caxias que tentaram, mas rapidamente eram
rebaixados. Mas acho que, sempre comparando com o Brasil né… num clube aqui você sobe e pode ir direto e não tem aquela diferença gritante entre os clubes e se tiver um grupo mais organizado e bem trabalhado, você consegue chegar em uma divisão melhor e evoluir tranquilamente
9. Qual é a dificuldade que os jogadores de ligas pequenas europeias encontram em relação a visibilidade?
Olha, as dificuldades acredito que sejam iguais nas divisões inferiores brasileiras. A diferença é que que aqui na Turquia e nas ligas europeias,eles dão qualidade e oportunidade de você melhorar, de mostrar e evoluir… todo o jogo você torce para alguém estar vendo, para buscar algo melhor, jogar numa grande equipe… esse é o nosso sonho de todo o jogador. Mas você vem para um lugar que você não conhece as pessoas, lugares totalmente diferentes, não tem o mesmo reconhecimento muitas vezes que você acha que vai ter, mas o pior de tudo é você não ter essa visibilidade no seu próprio país e tendo mais esperança fora do que no próprio país, por conta da raiz que está encruada de pessoas ruins, de pessoas que não sabem direcionar, não tem profissionalismo no futebol e acaba buscando essas ligas para tentar a visibilidade e as dificuldades são muitas, mas acredito que com muito trabalho, não há nada que Deus possa ajudar.
10. Para você qual é o maior clássico turco? Fala sobre a rivalidade e o clima na Turquia em dia de jogo dessas equipes
O maior clássico turco é sem dúvida o Fenerbahce x Galatasaray. Pelo fanatismo deles ser enorme, é um clima totalmente diferente, comparado a uma Copa do Mundo. Todos param o que estão fazendo para ver o jogo. Mesmo os que não torcem para as duas equipes, fazem questão de assistir o clássico. São os dois maiores do país, que mais movem a paixão dos torcedores e é bom você ver a festa que as torcidas fazem. Vão aos treinamentos, na casa do jogador… o que eles podem fazer para apoiar eles fazem. Você não consegue nem falar com as pessoas porque estão dos vidrados na TV. Preferem ver o derby a ver qualquer jogo do Barcelona, Real, Bayern. A atmosfera criada é muito boa. Os programas esportivos falam disso a semana inteira e depois do jogo continuam falando na outra semana. Passam milhões de vezes o vídeo tape do clássico. No Brasil tem quem ache repetitivo e meio chato os programas esportivos, pois falam muito sobre determinadas partidas. Isso porque não viram como é aqui na Turquia. A
quantidade e repetição do que eles falam, é muito maior que no Brasil, é o dia inteiro falando só do clássico. Mas, é a paixão que faz isso com eles né, então é uma coisa bonita de se ver.
O clima do clássico, é tão quente no gramado quanto na arquibancada.
11. Oque você acha das torcidas turcas? É difícil lidar?

Olha, os turcos são muito fanáticos, sim eles respiram futebol. Acredito que pela cultura deles, o fato de terem uma rotina muito específica que o domingo é o dia de ver futebol, do time do seu coração, não que no Brasil, por exemplo seja diferente, mas as pessoas ainda vão para um shopping, uma praia e aqui o dia do futebol é o dia do futebol. Quando tem clássico principalmente eles torcem e brigam fervorosamente, todo o jogo, a torcida vai, se tiver que brigar com quem for eles brigam. A maioria dos aspectos são positivos, as pessoas te tratam bem, querem tirar foto e foi muito positivo para mim, até por não ter jogado em equipes grandes, equipes de massa aqui no Brasil. Aí eu acabei aproveitando esse lado positivo e negativo não teve nada que me prejudicasse sobre o fanatismo deles.

12. O que você planeja ou planejava conquistar dentro do futebol?
O que eu planejo é o que eu planejava desde os meus 17 anos, me tornar um profissional e evoluir na carreira. Tive a oportunidade de estudar educação física por um tempo na UFRJ, mas por jogar fora do país tive que parar o estudos por um tempo. Mas é isso que eu gosto, de jogar bola e é assim que eu quero ganhar a vida. Jogar em um grande time, até uma Seleção. Tenho que pensar grande para conquistar grandes objetivos na vida e num futuro próximo, eu acredito que vou evoluir, mas claro, sem um nome, sem um currículo, você encontra certas barreira para chegar em um clube grande. Se fosse só pelo fator campo, acredito que seria mais fácil
13. Prefere atuar em um clube com algum destaque na Europa ou retornar ao Brasil?

Todo o jogador almeja jogar em um clube de destaque da Europa, jogar em grandes equipes e ser reconhecido mundialmente e trabalho muito para isso e ter oportunidade de chegar a esse nível, mas no meu coração a vontade é ainda maior de jogar em algum time grande no Brasil. Tenho MUITA vontade em jogar em um clube que seja da minha paixão, jogar no Brasil e ser valorizado como estou sendo valorizado aqui. Se jogasse no Brasil, eu pensaria muito se sairia para uma equipe europeia, uma vez que estaria perto da minha família, no país que eu amo. Até porque, minha intenção de vir para fora, foi crescer no futebol para poder retornar ao Brasil e jogar no país até o fim da carreira.

Diego gostaria de jogar em um clube de destaque na Europa, mas seu grande sonho,
é atuar em um gigante brasileiro
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Postado por Raphael Felice