De Flamengo e louco, todo mundo tem um pouco
23 de novembro de 2019
Categoria: 4-3-3 e Futebol e Nacional

(Foto por LUKA GONZALES/AFP via Getty Images)

Em 4 minutos, o Rio de Janeiro foi do lugar mais difícil de se estar, para a melhor parte do Mundo. Tinha que ser assim. No auge da apoteose que esse time construiu. 38 anos depois. Lima hoje é um pedaço do Maracanã. Da melhor forma que ninguém poderia ter escrito.

É complicado explicar. O começo do jogo, a tensão natural dos jogadores causou o gol do River. Falta de comunicação entre Gerson e Arão. Borré não perdoou.

O primeiro tempo, com amplo domínio dos argentinos, parecia não querer que o destino agisse com justiça. Para quem acompanhou essa campanha desde seu início, sabe que esse título não tinha outro caminho mais justo. A Gávea é o lugar mais confortável do mundo para essa taça da Libertadores.

A primeira etapa, ingrata, surrou as emoções de todos os rubro-negros. O meio campo mal conseguia criar as alegrias que antes pareciam tão fáceis de acontecerem. Everton Ribeiro, o Messi, com dificuldades para aparecer no último terço do campo. Gabriel, longe da bola e do gol. Bruno Henrique, acelerava, mas sem conseguir chegar antes.

Jesus, no auge de sua misericórdia messiânica precisaria no intervalo conversar com seus comandados. Algo precisava mudar. Nem os dois cérebros do Mister em campo, Filipe Luis e Rafinha, pareciam estar em suas melhores condições.

Finalmente veio o segundo tempo. E ele na verdade não existiu. Flamengo não voltou avassalador como se esperava. Gabriel, o Barbosa, parecia estar avesso ao jogo. Geralmente, o principal finalizador do time, sequer tentava finalizar.

Poxa, Gabriel, é sua chance.

É seu momento de mostrar para o mundo que você é digno de tudo o que foi esperado de ti. Depois das falhas na Europa, as polêmicas, os cartões…

“Ele é mala”. “Com essa cabeça, não vai a lugar nenhum”. “Ele não é digno de ser chamado de Gabigol”.

Ele não é digno de ser chamado de Gabigol? Que bobagem.

É. Agora tudo é história. A falha de Lucas Pratto, ao dar um contra-ataque para o time mais mortal da América. Aos 44 minutos do segundo tempo. As passadas de Bruno Henrique, a raça de Arrascaeta, ao se jogar para alcançar o passe…

E o encontro de Gabriel com o Gol. O primeiro. A bola procura ele. Gosta dele mais do que gosta de rolar no gramado. A chuteira do camisa 9 talvez tenha um imã, ou talvez ele só tenha o dom mesmo. O faro. Esses dons que fazem as pessoas serem diferentes umas das outras.

Em uma discussão entre outras mães, uma diz que o filho tem o dom de curar pessoas, é médico. Outra que o rebento nasceu sabendo escrever, é escritor. A mãe de Gabigol, pode encher o peito de orgulho, e falar que seu filho tem o dom de de fazer 40 milhões de pessoas sorrirem ao mesmo tempo. Ele é atacante do Flamengo.

É estranho. O 1 a 1 não era um resultado interessante. Justo até, mas futebol não é sobre justiça. Futebol não é exato, real como se espera.  Tanto que quando aquela bola subiu em direção aos defensores do River, ela demorou mais para cair. Pinola vinha fazendo uma grande partida. Talvez seria o personagem principal de uma outra crônica que nunca foi escrita.

Mas sabe, Pinola, nem se fosse o Beckenbauer. No seu destino estava traçado essa falha. Estava a cara de Gabriel como seu vilão.  Mas no fundo, todas as histórias são feitas sobre pontos de vista. Aqui, Gabriel é herói.

A bola pingou e caiu exatamente na frente do pé esquerdo do artilheiro do Brasil no ano. Do indigno. E Armani, nem se fosse o Buffon. A rede chama pelo chute de Gabigol. As coisas são assim. Tem de encontrar seu caminho.

Aos 93 minutos. O grito uníssono. 38 anos. Trinta e tantos milhões. Gabriel, o Barbosa. É de viradas que se constroem grandes histórias mesmo. É de viradas que o Rio de Janeiro se construiu. Um outro Barbosa, lá em 50, viu no Maracanã uma virada destruir sua vida. Em Lima, essa virada fez Gabriel construir sua vida.

Sim, Gabriel, é sua. (Foto por CRIS BOURONCLE/AFP via Getty Images)

Antes do juiz apitar o final da partida, o herói resolveu aparecer com sua outra característica além dos gols. Os cartões. Escolheu o vermelho, para combinar com a cor que domina o uniforme do mais querido.

O Brasil inteiro caiu quando o apitador decretou o final. Em dezembro de 81, em novembro de 2019. As histórias estão sendo construídas.

Hoje, nem o mais pentelho vai poder dizer que Gabriel não merece a alcunha de Gabigol. Você é digno. Assim como o Flamengo de Jesus.

O destino cumpriu sua sina, e deu aos melhores o que lhes é justo. No domingo pode vir mais. Mas ai é uma outra história, que ainda precisa ser contada.

Postado por Igor Varejano 19 anos. Estudante de Jornalismo. Do interior de São Paulo, morando em Minas. Vivo em ódio por amar o Palmeiras e o Liverpool. Futebol é o que move a humanidade. Bom, pelo menos a minha. twitter.com/varejanoiu