Das lições não aprendidas
13 de agosto de 2021
Categoria: Futebol e Internacional

Foto por: Thiago Prudencio/Getty Images

No final dos anos 90 e início dos anos 2000 o Barcelona atravessava uma grave crise, sobretudo de identidade; havia desperdiçado a herança geracional de Cruyff – que incluía referências do mais alto nível como Guardiola e Romário – a qual o sagrou naquela década como finalista e campeão da Liga dos Campões.

A decadência era percebida pela perca de Ronaldo Fenômeno para Inter de Milão, de Luís Figo para o Real Madrid e de Rivaldo para o Milan, além do fato de estar ausente das principais competições europeias. Nesse contexto, se apontava que La Coruña e Valencia representavam adversários com maior capacidade de rivalizar com o Real Madrid pela disputa do título Espanhol; o Barcelona estava em processo de apequenamento.

As crises destroem, mas também fornecem chances para que se construa. Dissolvem resistências dogmáticas tementes do que é novo. Essa dimensão virtuosa da crise pode ser constatada olhando para o meio dos anos 2000, quando o clube catalão experimentou três acontecimentos que o colocaram no patamar que hoje nos acostumamos: Ronaldinho, Pep Guardiola e Lionel Messi.

Tendo por eixo o resgate da filosofia de La Masia, houve a obsessão por se criar um idioma próprio de jogo, de modo que, para além de se enfileirar títulos, o clube consolidou um simbolismo identitário.

A pergunta que se fica é sobre a profundidade desse sangramento quando o seu maior catalisador, um dos melhores jogadores da história, se despede chorando depois de ter aceitado um corte de metade de seu salário pra permanecer.

Por mais tragável que possa ser a postura austera do Barcelona diante do que foi a situação, fica a reflexão inconclusa de como se chegou à essa condição de crise. O clube da maior venda da história – Neymar Jr por 222 milhões de euros – é o mesmo que destina 95% do capital ativo ao pagamento de salários.

As contradições e o arranjo institucional devem estar tão exacerbados para hoje se estar refém de negociações com a La Liga para então conseguir a renovação com o melhor jogador da sua história. Em uma crise vem à tona as misérias e grandezas das instituições.

Parece que o Barcelona não conseguiu olhar e refletir sobre a sua própria história recente. Desde a saída de Neymar, o Barcelona é cada vez menor e a saída de Messi é a maior queda desse desfiladeiro que parece não ter fim.

Foto por: xMarcxGonzalezxAlomax/GettyImages

Como diria Gramsci, temos uma crise quando aquilo que envelheceu já não dirige mais e o “novo” ainda não se qualificou para orientar o presente. Que aconteça adventos como os de antes que consigam extrair desse confuso presente barcelonista o eixo de um futuro melhor, caso contrário, o Barcelona como clube grande será só uma memória, que estará ligado profundamente a Lionel Messi.

Postado por Fabricio Henrique Oliveira