CULTURAL FC #06 – As canções de Diego
30 de outubro de 2019

(Foto por ROBERTO SALOMONE/AFP/Getty Images)

Diego Armando Maradona Franco completa 59 anos de idade neste 30 de outubro de 2019. Condensado em 165 centímetros, El Pibe d’Oro encantou — e desafiou — um mundo inteiro que esperava saciar os desejos mais profanos por meio de um baixinho canhoto encaixotado entre quatro linhas. 

Nascido em Lanús, o homem controverso de cabelos encaracolados driblou a santidade para se tornar um deus imperfeito para seus fiéis. Diego não é onisciente, onipresente, muitos menos onipotente. Pelo contrário. No paraíso futeboleiro, Maradona é a referência do conflito, da polêmica e da controvérsia. Com características tão mundanas, não haveria mesmo como ser imaculado.

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Pelo que representava dentro e fora dos gramados, Diego de la gente se tornou desde cedo objeto de produções culturais. A música, primeiro elemento do panteão artístico, serviu como fio condutor de uma carreira recheada de complexidade. Enquanto sua magia divina era ovacionada por seu povo, Maradona também pecava fora do paraíso gramado. Coube às canções, portanto, repletas de oscilações sonoras, o papel de contar um pouco quem foi Diego Armando Maradona. 

Francoatirador (Ataque 77)

O punk rock surgiu para o mundo em meados da década de 1970, com mensagens de rebeldia e elementos intensos que dominavam as letras e guitarras do novo estilo em ebulição. Ao mesmo tempo, em 1976, Maradona estreava com a camisa do Argentinos Juniors. Era também sua oportunidade de demonstrar sede por contestação e colocar seu nome nos clamores de quem rogava por compaixão. 

Na letra da música “Francoatirador”, da banda de punk rock argentina Attaque 77, Diego é elemento de revolução. Mais do que isso, Maradona é a figura imperfeita que irá vingar os que sofrem com os disparates mundanos.

El pibe de Fiorito late en nuestro corazón

Vivo en el país de la depresión, juegos políticos corrupción

Ya no tengo nada más que una ilusión

Dispara goles la mano de Dios el francotirador

Cabeza de mi patria, pueblo, santo y pecador

A idolatria no Argentinos Juniors lhe rendeu o nome do estádio e esse túnel personalizado (Foto Marcelo Endelli/Getty Images)

La vida tombola (Manu Chao)

Depois de marcar seu nome no Argentinos Juniors, Diego rumou à Bombonera para vestir a camisa do Boca Juniors. Com o manto Xeneize, Maradona atestou seu talento a quem ainda duvidava da capacidade de seus milagres entre quatro linhas. Ainda assim, algo não mudou: Diego se tornava cada vez mais o símbolo do combate aos injustos, aos corruptos engravatados.

Si yo fuera Maradona

Saldría en mondovision

Para gritarle a la FIFA

Que ellos son el gran ladrón!

Boca Juniors e Maradona: nascidos um para o outro (Foto por DANIEL LUNA/AFP via Getty Images)

O trecho acima é de “La vida tombola”, canção bem cadenciada do músico Manu Chao. A música, ao ser executada, soa como uma declaração de amor. Uma verdadeira ode ao homem místico redentor que tem um número dez detrás da camisa.

Para siempre Diego (Ratones Paranoicos)

Os que gostariam de apreciar Diego de la gente por sua eternidade em território portenho precisaram se despedir. Após curta passagem pelo Boca, Maradona pisou na Catalunha em 1982 para catequizar os europeus com suas divindades e malícias. Por lá, teve a passagem mais vitoriosa até então. Conquistou a Copa do Rei, Copa da Liga Espanhola e Supercopa da Espanha, os três canecos em 1983.

A distância de mais de dez mil quilômetros entre Buenos Aires e Barcelona, entretanto, não foi suficiente para esfriar a relação. 

Quisiera ver al diego para siempre

Gambeteando por toda la eternidad

Es verdad que el diego es lo mas grande que hay

Es nuestra religión, nuestra identidad

Quiero siga jugando para toda la gente

Mesmo longe, Maradona seguia bem perto do coração dos argentinos (Foto por Trevor Jones/Getty Images)

Os versos anteriores são da canção “Para siempre Diego”, da banda de rock Ratones Paranoicos. Apesar de expressarem identidade com o Pibe, também podem servir como ilustração para algo que se estabelecia: Diego Maradona agora jogava para o mundo e crescia com ele.

La mano de Dios (Rodrigo)

Se o mundo já conhecia Maradona, então era hora de conquistá-lo. Foi o que o camisa dez argentino fez destilando talento nos calorosos gramados mexicanos, na Copa de 1986. Nas quartas de final frente aos ingleses, Diego de la gente vingou seu povo derrotado quatro anos antes na Guerra das Malvinas. E para isso, utilizou do que mais sabe: genialidade e malícia. Foi genial quando fintou cinco britânicos e marcou um dos tentos mais antológicos da história das copas; mas também foi trapaceiro quando utilizou a mão esquerda pecaminosa para abrir o placar irregularmente. Para alguns, um ato imperdoável. Para outros tantos, um golpe legítimo da guerra.

Na finalíssima, contra a Alemanha Ocidental, o placar apertado de 3 a 2 serviu para El Pibe alcançar a glória. O menino pobre, de canhota imortal, se consagrou. Nos versos da canção “La mano de Dios”, de Rodrigo, tudo não passou de um destino divino.

En una villa nació, fue deseo de Dios,

Crecer y sobrevivir a la humilde expresión.

Enfrentar la adversidad

Con afán de ganarse a cada paso la vida.

En un potrero forjó una zurda inmortal

Con experiencia sedienta ambición de llegar.

De cebollita soñaba jugar un Mundial

Y consagrarse en Primera

La mano de D10s (Foto por Allsport/Getty Images)

Homenaje al 10 (Antonio Ríos)

Em Nápoles, Diego se apresentou e foi adorado. Mas também foi lá onde viveu alguns de seus maiores momentos perniciosos. Jogando no principal clube da cidade, Maradona venceu torneios nacionais e levou o Napoli ao título europeu da Copa da Uefa de 1989. Além disso, marcou 115 gols e levou fãs italianos ao delírio. Fora de seu mundo divino verde, entretanto, El Pibe d’Oro se envolvia em polêmicas. Em 1991, Diego foi pego no exame antidoping por uso de cocaína e não voltou mais a brilhar com o manto Gli Azzurri. Em uma canção do músico argentino Antonio Ríos, intitulada “Homenaje al 10”, um indivíduo está sujeito a erros; e quando eles acontecem, nada melhor do que o amor para perdoá-los.

Errores en la vida

Todos cometemos

En las buenas, en las malas

Diego, te queremos

No Napoli, o auge da idolatria (Foto po Bongarts/Getty Images)

Maradó (Los piojos) 

Após alguns dos momentos mais turbulentos que viveu durante a carreira na Europa, Diego precisava voltar para casa. Foi o que fez em 1993, ao assinar com o Newell’s Old Boys, time de Rosário. Por lá, a passagem não foi longa, mas ainda assim, marcante para os aficionados que viram o diez vestir a camisa Rojinegra.

De Rosário, a santidade albiceleste se deslocou novamente até a capital — o último ato com o manto Xeneize precisava acontecer. Até 1997, Diego jogou na Bombonera; depois, pendurou as chuteiras ao vencer o rival River Plate por 2 a 1 na casa dos Millonarios

Em “Maradó”, música da banda de rock argentina Los piojos, o baixinho de 1,65m, agora livre de amarras, encontra sua paz ao se despedir do futebol.

Sin demasiado ropaje y sin ninguna careta

Dicen que escapó este mozo del sueño de los sin jeta 

Que a los poderosos reta y ataca a los más villanos

Sin 
más armas en la mano que un “diez” en la camiseta

Seu último ato tinha que ser no Boca (Foto por KIM JAE-HWAN/AFP via Getty Images)

Qué es Dios? (Las Pastillas del Abuelo)

Acreditar em divindades ou confiar em seres mundanos é uma escolha individual de qualquer pessoa. O que é comum a todos os envolvidos no esporte bretão, entretanto, é a crença de que milagres são possíveis quando rola a pelota.   

Y Jesus dijo me voy

De tacticas ya no hablo

Pero un consejo les doy

La pelota siempre al diez

Que ocurrirá otro milagro

Idolatria por Maradona é como poesia (Foto por JUAN MABROMATA/AFP/Getty Images)

Os versos acima são de “Qué es Dios?”, da banda Las Pastillas del Abuelo. Já as respostas à questão central que consome os incrédulos, porém, são incertas. 

A única certeza mesmo em meio ao enigma divino é que um camisa dez argentino já jogou por música.  

Postado por Rudiney Freitas Estudante de Jornalismo apaixonado por esportes, em especial pela mais imperfeita perfeição criada pelo homem, o futebol. Procura entendê-lo também como fenômeno social e nega até a morte que tudo “é só um jogo”. Twitter: @rud1ney