Cultural FC #02 – Invertendo a pirâmide
10 de setembro de 2017
Categoria: Cultural FC

 

À beira de campo o fervoroso Antonio Conte agita os braços e balança sua gravata pra lá e pra cá enquanto grita com seus jogadores. O ataque adversário está tocando a bola para encontrar espaços em sua defesa e o técnico italiano tenta a todo custo orientar o balanço defensivo de sua primeira linha, composta por cinco jogadores.

Mais ao norte da Terra da Rainha, Pep Guardiola está aos poucos encontrando uma maneira mais segura de jogar no futebol inglês, apesar de ainda ver seu time com muito a evoluir. O treinador espanhol multicampeão no Barcelona encara um grande desafio na Premier League, não muito receptiva a equipes que prezam a posse de bola por muito tempo. Nela as coisas acontecem mais rápido, de forma mais vertical, com muita velocidade e muitos gols. Mesmo assim não abdicou totalmente de suas convicções. Está na busca pelo equilíbrio e tem muito a entregar nesta temporada.

Em quem esses dois grandes treinadores, de diferentes origens, conceitos e com perfis distintos de jogadores se inspiram? De que fonte bebem? “Antonio Conte é italiano, talvez no catenaccio? Dificilmente, seu time não é tão pragmático assim!”
“Guardiola parece ter aperfeiçoado o futebol total, de Rinus Michels e Cruyff, se inspirando também depois na seleção brasileira de 82”. Mas de onde vieram esses sistemas anteriores? Como funcionavam? Há aplicabilidade hoje em dia?

 

Perturbado com tantas questões desse tipo, o correspondente inglês do Financial Times especializado em futebol, Jonathan Wilson, pede licença aos diversos viajantes do tempo para voltar ao passado e construir de forma brilhante a história de um tema que vem sendo cada vez mais discutido pelos amantes de futebol: a tática.

Em A Pirâmide Invertida, Wilson mostra em 400 páginas a história do futebol pensado, organizado, dissecado. Da gênese – quando o caos tático reinava -, até a pirâmide invertida. O escritor inglês percorre os gramados britânicos do final do século XIX para explicar a Era dos cinco atacantes, do futebol de passes escocês, da bola longa inglesa e seu jogo físico.

Com um apurado trabalho de pesquisa, a narrativa conduz o leitor a diversos períodos históricos, que explicam os porquês da evolução do futebol e da tática, contextualizados com o momento sociopolítico de cada época.

Wilson para sua “máquina do tempo” na Áustria para narrar o brilhante momento que o futebol austríaco viveu e o papel do fascismo na destruição dessa identidade do país, depois mostra a influência do Regime Totalitário no calcio italiano, tanto na maneira de jogar dentro das quatro linhas, como nos acontecimentos fora delas.

No Reino Unido, o escritor inglês disseca o importante trabalho de seu conterrâneo Herbert Chapman e a importância de seu vitorioso sistema introduzido no Arsenal, o W-M. Ainda na Europa, o autor também aborda o futebol húngaro, sua construção tática, a excelência na qual aquele time de Hidegkuti, Czibor, Puskás e Kocsis chegou à batalha de Berna, e o quanto o desfecho contra a Alemanha em 1954 foi trágico.

Hoje homenageado com uma estátua, Herbert Chapman tem seu trabalho no Arsenal destacado pelo livro.

Jonathan reserva um capítulo inteiro para “organizar o carnaval” brasileiro pré e pós o primeiro título, em 1958. Mostra o 4-2-4 do Brasil naquela Copa e como Zagallo mudava esse esquema quando recompunha o meio de campo. Foi o alívio canarinho após a tragédia de oito anos antes, culpa do fracasso posta injustamente em 1950 sobre o goleiro Barbosa.

Em um período mais contemporâneo, o livro constrói o Futebol Total e descreve o perfil de sua maior estrela, Johan Cruyff, sua influência técnica nos gramados e seu alto entendimento tático desde cedo. O passe e a troca de posições serve tanto para a “Dinamáquina” quanto para o lendário Barcelona de Guardiola, todos temas discutidos e amplamente analisados.

O livro, lançado em 2008 e atualizado em 2013, foi traduzido para o português no ano passado. Conta com inúmeras figuras que ilustram os desenhos táticos de cada parte do texto, além de legendas. Apesar de ser relativamente grande, tem uma leitura leve e bem articulada, o que possibilita ao leitor uma verdadeira imersão nessa viagem do tempo proposta por Jonathan Wilson.

Conhecido por muitos como a “Bíblia da Tática”, A Pirâmide Invertida foi aclamada pela crítica, que viu na obra uma verdadeira aula de como explicar o que acontece no mais amado esporte do mundo, como escreveu o The Independent Sunday: “Uma história fascinante sobre tática, garantia de que você passará a ver o futebol com outros olhos. Seu time ainda pode perder, mas você terá uma ideia muito melhor do que aconteceu.”

 

Postado por Rudiney Freitas Estudante de Jornalismo apaixonado por esportes, em especial pela mais imperfeita perfeição criada pelo homem, o futebol. Procura entendê-lo também como fenômeno social e nega até a morte que tudo “é só um jogo”. Twitter: @rud1ney