Cultural FC #01 – À sombra de Galeano
16 de agosto de 2017
Categoria: Cultural FC

Recorte da capa do livro de Galeano.

O esporte mais popular do mundo é praticado das maneiras mais distintas em que podemos imaginar. A bola oficial, com nome próprio e tudo, rola pelo gramado “padrão FIFA”, enquanto milhares de torcedores se esgoelam; já a pelota “dente de leite” da criançada faz seus efeitos sinuosos no melhor estilo Roberto Carlos ao bater uma falta, e tem também a esfera feita com meia, que repica no chão quando alguém levianamente tenta conduzi-la. Sobra até para a tampinha de refrigerante, que é jogada pra lá e pra cá nos insistentes chutes do grupinho de crianças que se agarram para tomar posse do minúsculo objeto que um dia serviu para fechar uma garrafa.

Essas diferentes práticas são destoantes entre si, mas têm em comum uma paixão: o futebol e toda a aura que lhe envolve. A magia desse esporte sagrado permite os mais dramáticos e inimagináveis roteiros. Na mesma partida em que há a entrada brusca do defensor, tem a caneta desconcertante que faz a torcida delirar. O goleiro que momentos antes engoliu um chester se redime no fim da partida pegando o pênalti que daria a vitória ao adversário. O futebol é reflexo das ironias da vida e vice-versa. Esse esporte é a antítese, a diversidade, a poesia.

Tendo como matéria-prima um esporte tão vasto e denso como o soccer, diversos autores, diretores de cinema, jornalistas e amantes do esporte bretão se debruçaram e continuam se debruçando cada vez mais para produzir obras sobre essa prática esportiva que tanto encanta. Os livros são diversos. Alguns são de ficção, didáticos, voltados para a tática, ou simplesmente um dos gêneros mais populares de nossa literatura nacional: a crônica.

É através desta última estrutura narrativa que Eduardo Galeano, escritor uruguaio de traços firmes e voz pausada, mostra suas percepções de futebol. Escreve no livro Futebol ao sol e à sombra os mais importantes componentes do ludopédio. Apresenta reflexões desde a prática esportiva dentro das quatro linhas, até ao falar do martírio de um árbitro, nos fazendo lembrar um pouquinho de que o juiz também é ser humano.

A bola, componente essencial do jogo, ganha um espacinho em muitos de seus devaneios presentes nas mais de duzentas páginas do livro. A menina, a gorduchinha, a Margarida. Essa mulher que apaixona os artilheiros, mas que os alegra quando ela cruza o outro lado da linha, ultrapassando a meta adversária e estufando a rede.

O fanático escritor-torcedor do Nacional-URU, que também já quis ser jogador, usa e abusa de uma linguagem subjetiva e, por vezes, poética. Narra suas lembranças de Copas do Mundo e de craques que destilaram o mais puro futebol pelas canchas mundo afora. O autor não se esquece de saudar a boa disputa e de verbalizar seus mais intensos sonhos.

Galeano, falecido em 2015, ainda escreveu um pequeno capítulo sobre a Copa de 2014, realizada no Brasil, que terminou de uma maneira um pouco mais dramática do que todos imaginavam, tanto para nós brasileiros, como para aqueles que viram por tanto tempo o protagonismo tupiniquim.

Eduardo também é dono de mais algumas dezenas de livros, em que mistura Jornalismo, Antropologia e História.

Como ele mesmo escreve no início do livro aqui recomendado, futebol é a maneira de mendigar a beleza: “…Uma linda jogada, pelo amor de Deus! E quando acontece o bom futebol, agradeço o milagre – sem me importar com o clube ou o país que o oferece.”

 

Livros, artigos, grandes reportagens, séries, filmes e tudo mais que falar do nosso mais amado esporte, terão um espaço aqui no Blog 4-3-3. O propósito é compartilhar produções culturais que tratem o esporte bretão da forma na qual ele merece: com realidade, compromisso, e pitadas de poesia, por que não?

Postado por Rudiney Freitas Estudante de Jornalismo apaixonado por esportes, em especial pela mais imperfeita perfeição criada pelo homem, o futebol. Procura entendê-lo também como fenômeno social e nega até a morte que tudo “é só um jogo”. Twitter: @rud1ney