Como contratar a reposição perfeita? O River Plate e o Big Data ensinam
30 de março de 2021
Categoria: 4-3-3 e Futebol e Internacional

Palavecino e Paradela foram contratados em fevereiro pelo River e possuem semelhanças com seu antecessor, Ignacio Fernández (fonte: River Plate/Twitter)

Big Data mostra que as contratações de Palavecino e Paradela se adequam ao perfil de meio-campistas do River nos últimos anos

Em junho de 2019 após oscilar durante a última temporada comandada por Quique Setién os dirigentes do Real Betis, da Espanha, convocaram uma conferência de imprensa para anunciar uma reformulação no organograma do clube e se defenderem das críticas da imprensa e da torcida. A primeira delas, prontamente abordada, era sobre a tentativa fracassada de contratar um atacante no mercado de inverno, principal carência do elenco na época.

O presidente Ángel Haro então, admitiu a deficiência na janela de transferências mas explicou que as contratações eram baseadas, em parte, na análise de informações e estatísticas, reiterando a confiança da diretoria em todo o processo. Para exemplificar, Haro demonstrou como a contratação de Giovanni Lo Celso havia sido feita na temporada anterior, para suprir a iminente saída de Fabián Ruiz (que acabou vendido ao Napoli).

Ao observar que o jogador poderia ser cedido por empréstimo pelo Paris Saint-Germain, o departamento de Big Data do clube comparou as estatísticas dos dois jogadores; resultado: as métricas entre eles eram 86,5% compatíveis (foto abaixo). Verificou-se que Lo Celso era o jogador entre as cinco principais ligas europeias que mais se assemelhava a Ruiz, que os béticos estavam prestes a perder.

Comparativo entre jogadores das principais ligas europeias mostrou que Lo Celso seria uma contratação certeira (fonte: Real Betis/ Youtube)

O Betis então, acertou o empréstimo do argentino e posteriormente o contratou em definitivo por €22 milhões. Depois de duas temporadas na Espanha, e um mês após a coletiva, Lo Celso foi negociado com o Tottenham por um total de €48 milhões (empréstimo de € 16 milhões e compra por €32 milhões), provando haver sido uma ótima contratação.

Esta não foi a primeira, e com certeza não será a última decisão de contratação apoiada em informações estatísticas. Já usuais em esportes americanos o Big Data se torna cada vez mais frequente no futebol, principalmente no europeu que usou da interpretação dos dados para tirar Richarlison do Fluminense, por exemplo.

Na América do Sul apesar de mais incipientes, a análise dos números parece ganhar força em alguns clubes. No caso de duas das mais recentes contratações do River Plate para a temporada 2020/21, os dados podem explicar a opção por determinados nomes em vez de outros.

O substituto de Nacho Fernández

Com um trabalho estruturado desde 2014 capitaneado por seu treinador e ídolo Marcelo Gallardo, o River Plate possui uma forma bem definida de jogar futebol, com rápidas e curtas triangulações no meio campo e pressão após a perda da bola, entre outras características. Apoiado por uma prolífica categoria de base desde a “era Gallardo”, os Millionarios arrecadaram €174,3 milhões em venda de jogadores e na maioria dos casos, conseguiu reposições à altura, continuando competitivo no cenário nacional e internacional.

Durante o período meio-campistas dotados tecnicamente se tornaram símbolos do clube. Juanfer Quintero, Pity Martínez e Nacho Fernández foram os canhotos responsáveis por reger a equipe em grandes conquistas, se destacaram, e posteriormente foram negociados para fora do país. Este último inclusive, mais recentemente foi anunciado pelo Atlético Mineiro.

Para suprir esta perda o River anunciou em menos de uma semana dois jogadores que atuam próximos do mesmo setor de Nacho: Agustín Palavecino, que estava no Deportivo Cali (COL) e José Paradela, ex- Gimansia (ARG)Quando analisamos os números se torna ainda mais claro o objetivo das chegadas: o de exercer a mesma função do agora jogador do Galo.

As principais características de Fernández são a visão de jogo, passe entre linhas, finalizações, bolas paradas e as vezes chegadas à grande área adversária. O portal especializado em dados de jogadores do futebol sul-americano, Sudanalytics, realizou em 2020 uma simulação para encontrar possíveis substitutos para o então titular do River. Na análise, vários quesitos foram analisados, entre eles, passes em profundidade, duelos defensivos e finalizações (veja mais aqui).

Dentre os filtros aplicados, o estudo chegou a uma lista de uma série de jogadores dos quais incluem-se justamente Palavecino e Paradela. Especificamente no quesito “finalizações” (gráfico abaixo), por exemplo, ambos possuem precisão acima da média (jogadores na parte superior do gráfico) dos outros “candidatos”. Comparados com Fernández, o ex-jogador do Deportivo Cali finaliza mais vezes em média durante uma partida, com uma precisão ainda maior, enquanto Paradela finaliza menos, mas ainda consegue acertar mais o alvo.

Agustín Palavecino

Adquirido por US$ 3,5 milhões referentes a 65% do seu passe, Palavecino é dos dois, o jogador mais pronto e mais próximo das estatísticas de Nacho Fernández. Como o gráfico abaixo explicita, ainda há certa discrepância entre os jogadores, mas as “teias” de ambos possuem quase o mesmo formato, indicando semelhanças de jogo; vê-se que as vértices (pontas da forma geométrica) dos dois tendem à ser mais acentuadas nos mesmos quesitos.

precisão de passes, ações ofensivas, precisão de passes para frente, dribles e assistências esperadas (xA) de Palavecino, por exemplo, estão muito próximas aos de seu antecessor, enquanto fazer mais gols de bola rolando — consegue anotar muitos dos seus gols de pênalti — e dar mais passes para frente (recuos na forma geométrica) parecem ser suas principais dificuldades (gráfico abaixo).

As pontas dos gráficos de cada jogador possuem o mesmo formato em vários índices o que indica semelhança entre os jogadores (fonte: Sudanalytics)

A faixa do campo que o jogador de 24 anos ocupa (mapa abaixo) é porém oposta ao que Fernández estava acostumado, mas a movimentação parece ser quase a mesma. Por ser destro, Palavecino costuma trazer a bola do lado esquerdo do campo, onde atuava mais no Deportivo Cali, para dentro, o que Nacho fazia, mas partindo da direita; ou seja, os dois recebem a bola e partem de lados diferentes, mas no final das jogadas tendem a acabar no mesmo lugar: na área central do campo.

Os mapas de calor demonstram também que ambos são os responsáveis pelas cobranças de escanteios de suas equipes (fonte: SofaScore/ montagem elaborada pelo autor)

É evidente ao comparar os mapas de calor que Fernández era capaz de percorrer mais áreas, mas também é de se esperar que com o tempo (e instruções de Gallardo), o mesmo ocorra com a nova contratação do River Plate.

José Paradela: projeto de Fernández em construção

As semelhanças entre Paradela e Fernández por sua vez, são mais evidentes no biotipo e questões extracampo. Nascidos nos arredores de Buenos Aires, apenas 134 km distanciam os municípios Quiroga (onde nasceu Paradela) de Dudignac (“pueblo” de Nacho). Ambos atuavam no Gimnasia y Esgrima de La Plata antes de se transferirem ao River Plate, são canhotos e, para completar, Paradela vestirá a camisa de número 26, a mesma de Nacho, coincidências comentadas pelo próprio jogador do Atlético Mineiro:

“(Paradela) Tem características semelhantes. Ele é canhoto, joga como meio-campista ofensivo, por isso tem as mesmas características. Desejo a ele o melhor do mundo porque ele também é de uma cidade próxima à minha e que as pessoas da cidade venham jogar no River me deixa muito feliz.”

Apesar de tantas semelhanças e até ser definido como “mini-Nacho” pela Sudanalytics, Paradela possui métricas abaixo das de Fernández (principalmente em passes inteligentes) — e até de Palavecino — com perfil mais individualista e driblador do que condutor de bola. Porém, quando comparamos suas estatísticas da última temporada com as de Nacho em seu último ano de Gimnasia, as semelhanças voltam a aparecer (gráfico da publicação abaixo).

Comparação de Pardela com Fernández em suas últimas temporadas antes de serem contratados pelo River demonstram semelhanças (fonte: Sudanalytics/ Twitter)

Assim como Palavecino a quantidade de assistências esperadas(xA), passes para frente, e dribles se destacam na proximidade com as métricas de Nacho. Por ser um jogador jovem, 22 anos, novamente é de esperar que sua contratação tenha em vista um processo de maturação liderado por Marcello Gallardo, para adicionar novas qualidades a um jogador que já se mostrou útil em outros momentos do jogo, como em duelos defensivos, porém, que ainda carece de precisão.

Candidatos à novos donos do meio de campo do River Plate, Palavecino e Paradela chegam em níveis de atuação diferentes, mas que em um futuro não tão distante devem trilhar o mesmo caminho de seus antecessores, o que, após analisar algumas estatísticas, parece ser o acontecimento mais provável; contratações promissoras do River.

Theodoro Montoto
Postado por Theodoro Montoto Paulistano de 22 anos, estudante de administração da FAAP-SP que acredita que se a arte imita a vida, viver o futebol seria um bom ponto de partida para começarmos a entender ambas as coisas. Escrevo sobre gestão e marketing esportivo no futebol