Campeã, motivada e de olho no futuro – Alline Calandrini
6 de maio de 2017
Categoria: Entrevistas

Foto: Divulgação/ RV Sports

Em meio a primos, amigos e seu irmão, lá estava ela, correndo atrás da bola. A imagem se repetia todos os sábados, no clube em que seu pai os levava. Como em grande parte dos brasileiros, a paixão pelo futebol surgiu cedo, ainda na infância. Naquela época, no entanto, não havia Martas ou Cristianes para se inspirar, até por que, poucos sabiam da existência do futebol feminino. Restou, então, se apegar aos grandes jogadores do meio masculino do esporte.

“Eu não conhecia o futebol feminino. Pensava que só existia nos EUA. Então não via nada das meninas. Durante minha infância e adolescência, gostava muito do Bebeto, por causa da copa de 94. Mas meus olhos também brilhavam ao verem o Rivaldo em campo”, conta Alline Calandrini, capitã do Santos e zagueira da seleção brasileira, que foi levada pelo pai em seus primeiros testes, quando resolveu de vez correr atrás de seu sonho.

Hoje aos 29 anos e com uma vasta carreira, é ela quem serve de inspiração para meninas que, por sorte, conhecem cada vez mais o futebol feminino. Mesmo com o aumento de interesse e reconhecimento, o Brasil ainda tem um grande percurso a percorrer.

“Falta ser profissional. Isso daria condições de sermos vistas de forma profissional. Onde clubes e empresas investiriam na exposição de suas marcas”, desabafa a zagueira.

Alline tem nove anos de Santos no currículo. Não a toa, é capitã do time das sereias da Vila. (Foto: Divulgação/ Santos)

Apesar de tudo, foi em terras brasileiras que Alline construiu sua vitoriosa carreira, principalmente no time das sereias da Vila. São inúmeros canecos – Campeonato Paulista, Liga Nacional, Copa do Brasil, Copa Paulista e Campeonato Brasileiro. Além, é claro, do título Sulamericano com a amarelinha.

“Eu poderia ter tido experiência no exterior, mas nunca quis, nunca almejei isso. Moro tão longe dos meus familiares que não ficaria feliz indo pra mais longe ainda. Porém, não tenho a mínima dúvida que seria uma grande experiência de vida e de carreira”, contou Alline.

Somado a todos os títulos e a enorme experiência adquirida durantes sua carreira, outra grande honra para Aline foi ter convivido com Marta, inspiração de toda garota que sonha jogar bola e considerada por muitos a melhor da história do esporte.

“Mesmo conhecendo, tendo contato, cada dia é uma lição e um aprendizado vê-la treinar e jogar. Ela realmente é diferente de todas as outras jogadoras”, relembra a santista.

Além do alvinegro, Calandrini tem grande carreira defendendo a seleção. (Foto: Amanda Cervantes)

Mesmo assim, nem tudo são flores no futebol nacional. Se a falta de incentivo e o descaso de clubes e organizações estatais assola a modalidade, a imprensa também tem sua parcela de culpa na desvalorização do trabalho de inúmeras mulheres. Isso por que a maioria dos portais surfa na onda dos cliques e valoriza em excesso a beleza das jogadores. Aline sentiu isso na pele em 2015, quando resolveu fazer um ensaio sensual no Santos. Para ela, aquilo foi a prova do enfoque errado dado pela mídia quando o assunto é futebol feminino.

“Me incomoda muito a importância exagerada que dão pra isso. Não acho legal a mulher no esporte ser vista como uma objeto sexual. As matérias deveriam valorizar a qualidade da atleta. Porém, apoio mostrar a vaidade da mulher no esporte de um modo geral. Não atrapalhando o objetivo e nem as taxando por isso”

Com tantos obstáculos diários na profissão, foi um que quase a fez desistir: as lesões. Depois de ficar quatro meses sem atuar, Calandrini foi liberada em janeiro deste ano e logo foi surpreendida com a notícia de uma convocação. Era o que ela precisava para retomar o foco e determinação para jogar. No entanto, pouco tempo depois, uma nova lesão no joelho a desestabilizou.

“Não foi fácil ter que passar por tudo mais uma vez. Fiquei bastante cabisbaixa, pensando sobre o que fazer, se ainda queria viver tudo isso. Mas passou. Hoje sei muito bem o que quero. Meu foco voltou e estou totalmente mergulhada nessa recuperação.”

Se realmente parasse, como cogitou, Alline já sabe o que faria. No último ano da faculdade de Jornalismo, a zagueira já pensa na futura carreira. Prova disso são os trabalhos que ela tem feito para a Santos TV, além de uma participação em um grande canal, tendo um dia de repórter. Trabalhar no mundo da comunicação também serviria para ajudar o que ela tanto ama e fez durante toda a vida.

“Penso sim em falar da modalidade. Outra intenção em estar na Santos TV, por exemplo, é de deixar as “Sereias Da Vila” em evidência até mesmo para os Santistas. Busco espaço nas grandes emissoras, também pra isso. Mas de um modo geral, vejo a mulher ganhando cada vez mais voz no esporte”, contou Alline, aproveitando para falar um pouco sobre o fato de fazer faculdade enquanto atua.

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“Aqui no Santos, várias meninas estudam e fazem faculdade. Acredito que, a grande maioria. Infelizmente, não é a realidade do esporte no país. Às vezes nem é porque a atleta não quer e sim porque o clube não oferece as condições devidas”, concluiu a defensora.

Com muita história no Santos e na seleção, Alline é mais uma das mulheres que vence as barreiras diariamente em busca de seu sonho. A falta de apoio, as lesões ou a importância excessiva dada à sua beleza nunca foram suficientes para fazê-la parar. Em fase final de recuperação, a capitã santista conta as horas para voltar a campo e fazer o que mais ama.

“Obrigada pelo espaço dedicado não só a mim, como também ao futebol feminino. Onde meninas, que pode até ser sua filha, sonham em um dia estar brilhando nas olimpíadas. Que os sonhos não sejam mais interrompidos por falta de apoio familiar ou estrutura. Vale a pena abrir os braços pra esse esporte maravilhoso.”

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Postado por Andrew Sousa Formado em Jornalismo justamente pela paixão pelo esporte, sente enorme prazer em poder escrever sobre o que ama. Apaixonado por um bom domínio e alguns jogadores ruins, vive o futebol desde o primeiro dos seus 23 anos.