As derrotas “esquecidas” da Seleção Brasileira – Parte I
26 de maio de 2020
Categoria: 4-3-3

(Foto: Frederico Ribeiro/globoesporte.com)

3×2 para a Itália de Rossi, 3×0 para a França de Zidane, 7×1 para a Alemanha de… todo mundo (?). Algumas derrotas da Seleção Brasileira são eternamente marcantes. Mas em toda sua história, o Brasil também disputou inúmeros amistosos que constam como partidas não-oficiais, por diversos motivos – uso de uniforme de treino, jogos com duração menor, e até partidas onde jogadores atuaram pelas duas equipes que se enfrentavam. Foram mais de 100 jogos considerados não-oficiais, sendo o último deles disputado em 2006, em vitória sobre o Al-Kuwait por 4×0.

O Blog 4-3-3 resolveu então fazer um levantamento de todas as derrotas que o Brasil sofreu em jogos não-oficiais, e descobriu que foram 10 até hoje. Traremos então, em duas partes, a história desses confrontos, a maioria deles desconhecidos do público, as derrotas “esquecidas” da Seleção Canarinho. Confira a primeira parte:

 

Brasil 0x1 Dublin (1918)

A primeira derrota em partidas não-oficiais aconteceu no dia 27 de janeiro de 1918, quando a Seleção perdeu para a equipe do Dublin FC, que apesar do nome, era um clube uruguaio. O Dublin já havia enfrentado a Seleção Brasileira em 1917, e essa primeira partida terminou em 0x0. A partida de 1918 foi realizada em General Severiano, campo no Rio de Janeiro que pertencia ao Botafogo. Um dos maiores ídolos das primeiras décadas do futebol brasileiro, Arthur Friedenreich, estava em campo nesse jogo. Nos poucos registros sobre a partida, encontra-se que o Dublin foi reforçado por jogadores do Nacional-URU e do Montevideo Wanderers.

Escalações:

Brasil: Marcos; Vidal, Chico Netto, Police, Amílcar, Ítalo, Formiga, Dias, Friedenreich, Neco e Rodrigues.

Dublin: Magariños, Urdinarán, Nelson Montes, Couture, Vanzzino, Carbone, Scarone, Romano, Marán, Pensalfini.

Gol: Marán (Dublin)

 

Brasil 1×2 Catalunha (1934)

Após a eliminação precoce na Copa do Mundo, ao perder para a Espanha na primeira fase, a Seleção Brasileira ficou na Europa para uma série de amistosos contra seleções nacionais e clubes/combinados locais. Dois desses jogos foram contra a seleção da Catalunha, e o Brasil não conseguiu vencer em nenhuma das vezes, perdendo por 2×1 e empatando por 2×2 alguns dias depois. Na derrota brasileira, segundo o jornal O Globo, o presidente catalão estava presente no Camp de Les Corts, estádio onde o Barcelona mandava seus jogos na época. Se na primeira derrota não-oficial tivemos Friedenreich em campo, desta vez a estrela era Leônidas, o inventor da bicicleta e um dos grandes nomes do futebol brasileiro no período anterior às conquistas de Copas do Mundo.

Escalações:

Brasil: Pedroza; Sylvio Hoffmann, Luiz Luz, Ariel, Martim Silveira, Canalli, Luizinho Oliveira, Waldemar de Britto, Leônidas, Armandinho (Octacílio), Patesko (Carvalho Leite).

Catalunha: Juan José Nogués, Ramón Zabalo, Josep Torredeflot (Cristóbal Martí), Pedro Solè, José Cristià (Martí Ventolrà), José Escolà, José Raich, Alejandro Morera, Jaime Doménech.

Gols: Carvalho Leite (Brasil); Escolà, Morera (Catalunha)

A Seleção de 1934 acabou sendo derrotada duas vezes em jogos não-oficiais (Foto: Arquivo CBF/Divulgação)

Brasil 2×3 Santa Cruz (1934)

Na volta para o Brasil, a Seleção realizou vários amistosos no nordeste contra clubes e combinados montados na região. Apesar de várias vitórias sobre times importantes da região, como Bahia, Sport e Santa Cruz, em uma das partidas o Tricolor de Recife acabou conquistando uma das grandes vitórias de sua história, ao bater a seleção nacional por 3×2 no dia 10 de outubro de 1934. O Brasil contou com o time-base que jogou a Copa do Mundo alguns meses antes, tendo novamente nomes como Leônidas, Pedroza, Patesko e Armandinho em campo. A partida foi realizada no Campo da Avenida Malaquias, estádio do Sport Recife na época.

Escalações:

Brasil: Pedroza; Rogério, Vicente, Ariel, Martim Silveira, Canalli, Áttila, Waldemar de Britto, Leônidas, Armandinho, Patesko.

Santa Cruz: Dadá, Marcionilo, João Martins, Zezé Fernandes, Furlan, Ernane, Walfrido, Lauro, Chinês, Sidinho, Estevão.

Gols: Zezé Fernandes (2x), Sidinho (Santa Cruz); Waldemar de Britto (2x) (Brasil)

 

Brasil 0x2 Racing de Paris (1963)

Depois de quase 30 anos e mais de 15 partidas não-oficiais sem derrotas, a Seleção foi derrotada pelo Racing, clube da capital francesa, em abril de 1963. Durante uma excursão por Europa e África que durou mais de um mês, o Brasil enfrentou várias seleções em amistosos oficiais, e entre eles acabou jogando contra o Racing de Paris numa partida cheia de detalhes. A escalação inicial já contava com um time misto, sem nomes como Gylmar, Pelé, Lima, Zequinha e Gérson. Esses três últimos, por solicitação do treinador Aymoré Moreira, começaram o jogo-treino pelo lado do Racing, inclusive (Lima, durante a partida, trocou de time e atuou alguns minutos pela seleção também). Além disso, o jogo teve duração de apenas 60 minutos. Por tudo isso, não é considerada uma derrota oficial da seleção, que na época já era bicampeã mundial.

Escalações:

Brasil: Marcial; Djalma Santos (Lima), Eduardo, Cláudio Danni, Rildo, Zito, Roberto Dias, Marcos, Quarentinha (Amarildo), Ney, Pepe (Zagallo).

Racing: Miresin, Lima (Lelong), Lagadec, Marcel, Bollini, Zequinha (Sénac), Gérson (Milutinovic), Heutte, Ujlaki, Guy Van Sam, Charpentier.

Gols: Guy Van Sam, Heutte (Racing)

 

Brasil 0x2 Arsenal (1965)

Em 16 de novembro de 1965, a Seleção Brasileira foi representada pela equipe do Corinthians em partida contra o Arsenal, no antigo estádio Higbury. Foi a primeira vez que um clube representou a seleção nacional em partidas fora do Brasil. O Corinthians, de Osvaldo Brandão, Dino Sani e Rivellino – foi a primeira partida de Riva pela seleção, estava em meio a disputa do Paulistão, e dois dias antes havia enfrentado o Santos no Morumbi. A delegação foi direto para o aeroporto e embarcou para a Inglaterra, onde enfrentou um choque térmico muito forte (saiu de 30ºC em São Paulo para -3ºC em Londres) e um time bastante qualificado, como era o Arsenal. Acabou derrotado por 2×0, mas até hoje é um motivo de orgulho para o Corinthians, que lançou um uniforme comemorativo em 2013 com a cor azul, como uma homenagem para essa data histórica.

Escalações:

Brasil: Marcial; Galhardo (Jair Marinho), Eduardo, Clóvis, Edson Cegonha, Dino Sani, Rivellino, Marcos, Flávio, Ney, Geraldo José (Gilson Porto).

Arsenal: Burns (Furnell); Howe, Court, Neill, Storey, McLintock, Sammels, Skirton, Eastham, Baker, Armstrong.

Gols: Sammels (2x) (Arsenal)

Tostão, Gérson e Jairzinho estavam na derrota para o Atlético em 1969 (Foto: Arquivo Estado de Minas/Divulgação)

Brasil 1×2 Atlético Mineiro (1969)

Com direito a Pelé, Gérson, Jairzinho e Tostão em campo, a Seleção Brasileira foi derrotada pelo Atlético Mineiro em 1969, na Taça Prefeito Luís Sousa Lima, disputada no Mineirão. O Atlético utilizou o uniforme da Seleção Mineira, e por isso em algumas fontes essa partida é retratada de maneiras diferentes – algumas falam em Atlético, outras em Seleção de MG. Seja como for, a Seleção que seria tricampeã do mundo alguns meses depois, sucumbiu ao forte time do Atlético, que viria a ser campeão brasileiro em 1971 com vários dos nomes que estavam nessa partida. O treinador João Saldanha tinha, até então, 13 jogos e 13 vitórias comandando o Brasil, o que torna ainda mais marcante essa derrota. Dadá Maravilha, a grande estrela do Galo e que foi convocado para a Copa de 70, não era lembrado por Saldanha, que gostava de ter um time base e modificar muito pouco seus titulares e convocados, mesmo que outros pedissem passagem (qualquer semelhança com treinadores recentes é mera coincidência, rs). E Dadá foi um dos grandes nomes daquele 03 de setembro, marcando um dos gols para o Atlético. Na comemoração ele tirou a camisa da Seleção Mineira, mostrando sua camisa do Galo por baixo, a segunda pele, como ele dizia. O atacante, em entrevistas, chegou a afirmar que foi o jogo e o gol que mais marcaram na sua vida, pois praticamente garantiu sua vaga no tricampeonato – já com Zagallo, pois Saldanha foi demitido alguns meses antes por motivos pouco conhecidos – mas que provavelmente foram políticos, já que era comunista assumido e o Brasil vivia em meio a uma ditadura militar. Nem Pelé evitou a vitória atleticana naquela histórica noite em Belo Horizonte.

Escalações:

Brasil: Félix, CA Torres, Djalma Dias, Joel, Rildo (Everaldo), Piazza, Gérson (Rivellino), Jairzinho, Tostão (Zé Maria), Pelé, Edu (PC Caju).

Atlético Mineiro: Mussula, Humberto Monteiro, Grapete, Normandes (Zé Horta), Cincunegui (Vantuir), Oldair, Amaury (Beto Arantes), Vaguinho, Lacy, Dadá, Tião (Caldeira).

Gols: Amaury, Dadá (Atlético); Pelé (Brasil)

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Postado por Leonardo Tudela Del Mastre Natural de Sorocaba-SP, amante do futebol do interior paulista e torcedor de São Bento e Corinthians. Além do amor pelo interior, viciado no futebol como um todo. Formado em Processos Gerenciais pelo IFRS.